Produzindo um trabalho irretocável, assim como em seu filme
anterior, Kleber Mendonça Filho traz aqui uma obra sobre a inexorável passagem
do tempo, abalizando o aspecto empedernido do passado nos indivíduos estudados.
Um filme que eleva problemáticas sociais potencialmente pequenas, adentra ao
campo da desigualdade social e sua inseparável injustiça e nos apresenta uma
personagem marcante. ‘Aquarius’ é sobre a vida em todos os seus âmbitos.
A história do filme se concentra em destrinchar a vida de
Clara, uma mulher de 65 anos, aposentada, reconhecida por seu trabalho de
outrora, que acaba por se encontrar em um dilema substancial quando o histórico
prédio em que vive é alvo de uma grande construtora que deseja transformar completamente
o local. Representando a última moradora do prédio, após todo o resto do
condomínio ter vendido seus apartamentos para a construtora, Clara vive uma luta aparentemente perdida para preservar o lugar, assim como suas
memórias de um passado ainda pulsante.

Logo em seu espectro inicial, a obra nos apresenta uma
pequena coletânea de fotos do passado, expondo as belezas naturais de
determinados locais. Aqui, teremos a emanação de uma atmosfera aprazível,
sempre com uma música de fundo que acompanha o clima, a fim de propiciar ao
espectador pequenos fragmentos do conceito que o filme se apoia em seus 146
minutos de duração: a nostalgia.
Conforme adentramos na história em si, somos levados
diretamente para a década de 1980, vislumbrando um pequeno trecho da vida da
personagem central, entendendo seus prazeres e traumas recentes. Essa volta ao
passado também expõe a importante figura da tia Lúcia. A tia Lúcia é a esfera
inicial, ainda no ano de 1980, em uma festa dada em homenagem ao seu aniversário,
que mostra a substância implacável do tempo e como este, às vezes, se repete em
formas. Repetição que se encaixará mais de 30 anos depois, agora no presente,
com a vida de Clara. Vale lembrar que o filme ainda elenca uma volta ainda mais
feroz ao passado, expondo pequenos trechos da juventude da própria tia Lúcia.
Clara demonstra um apreço muito forte pela figura do
passado. Mesmo não se notabilizando por uma inércia em sua vida, há evidentemente uma
comunicação leve e aprazível com o presente, a mulher possui móveis antigos,
uma coleção infindável de discos de vinil e, como citado acima, uma completa
devoção ao seu prédio, agora uma instituição quase fantasma.
No entanto, a figura do passado não é feita unicamente de
pontos positivos. Clara também esconde marcas da vida, sejam elas psicológicas
ou físicas. Mas, mesmo com essas marcas, o passado ainda é belo para Clara. O
passado é belo e o tempo machuca. O aspecto do devir contido no mundo, esse
eterno processo de mudanças, fere a personagem. Heráclito, filósofo pré-socrático,
já tateava sobre o aspecto da mudança, afirmando: “Ninguém entra em um mesmo
rio uma segunda vez, pois, quando isso acontece, já não se é o mesmo, assim
como as águas que já serão outras”. Já Nietzsche, filósofo do século XIX,
trabalhava sobre a essência niilista destrutiva do passado, uma instância que
serve para negligenciar o presente, evidenciando uma espécie de além-mundo
distorcido. Clara é a síntese opositiva das ideias dos filósofos citados. Clara
quer banhar-se duas vezes no mesmo rio. Ou, pelo menos, tenta.

O filme consegue, por intermédio de objetos, impregnar sua
construções ao espectador. Temos aqui a cômoda, talvez única instância intacta
e inatingida pelo tempo. Exposta nos três períodos de tempo em que o filme
trabalha, essa cômoda é olhada com uma espécie de devoção pelos personagens,
representando uma entidade pulsante oriunda de tempos que já não existem.
Ao adentrar à reta final da obra, veremos como a eventual
ameaça ao prédio acaba surgindo como uma tentativa de destruição ao passado de
Clara. Suas lutas para preservar o local são motivadas pela aura nostálgica de
seu pensamento empedernido. O filme também trabalha nesse final, assim como em
O Som Redor’(2012), obra anterior do diretor, com as problemáticas sociais de
uma sociedade exacerbada. Aqui, as injustiças sociais atingem a todos,
independente de suas classes, sempre resultando em uma demonstração de força e
poder de determinados indivíduos. A maior virtude do filme nesse aspecto é não
delimitar a importância de eventuais acontecimentos. Uma simples discussão
sobre o dia a dia comum é tratada da mesma forma que uma ameaça à vida de um
dos personagens. Junto com isso, investigaremos o valor das relações sociais e
sua importância no desenvolvimento do indivíduo.
No campo da direção, Kleber Mendonça Filho somente explicita
o porquê de se notabilizar como um dos melhores cineastas brasileiros da
atualidade. O diretor sabe conciliar a beleza à trama. Teremos planos sempre
irretocáveis, prezando pela plena captação de todo o conteúdo que um ambiente,
indivíduo ou objeto têm a oferecer. Tudo é sempre muito bonito, traz encanto ao
espectador. Encanto que faz com que um filme teoricamente longo consiga ser
veloz em seus desnivelamentos, sem atropelar o roteiro.
Em seu elenco, teremos a atriz Sonia Braga comandando todas
as ações do filme. A atriz tem uma atuação soberba, dominando cada cena em que
está exposta, se aproveitando dos planos imersivos do diretor para elencar toda
a substância de sua performance. O resto do elenco, até mesmo pela proposta
central, está completamente sobrepujado pela atuação da atriz.
‘Aquarius’ demonstra destreza ao caminhar levemente
sobre épocas distintas e apresentar uma visão contemplativa sobre os passos de
um indivíduo sobre o mundo. Um filme que ainda trabalha com questões sociais
relevantes sem tornar-se maçante ou raso. Sua direção de qualidade e sua
protagonista forte complementam a obra.

Nota CI: 7,2 Nota IMDB: 7,6
Filmografia:
AQUARIUS. Direção: Kleber Mendonça Filho. 2016. 146 min.
SOM ao Redor, O. Direção: Kleber Mendonça Filho. 2012. 131
min.