Triste e rústico em seus caminhos, ‘Christine’ é um filme sobre uma personagem empreendendo uma jornada cruel e errática no mundo. Dirigido brilhantemente por Antonio Campos, o filme ainda trabalha investigando um pouco de como funcionava o aparato midiático nos Estados Unidos da década de 1970, transpõe a solidão como uma instância descaracterizadora ao indivíduo, mostra a sociedade com um olhar otimista e destrincha o cerne da carga danosa que determinadas psicopatologias podem oferecer ao ser humano.

A trama do filme, roteirizada por Craig Shilowich e baseada em eventos reais, traz a história de Christine Chubbuck, uma jornalista de um pequeno canal de televisão, em Sarasota, na Flórida. Passaremos a conviver com a personagem, vislumbrando seu empenho em crescer em sua profissão e suas formas de intercâmbio social. O filme ganha sua dinamicidade ao explorar a deterioração psicológica contida em Christine, entendendo suas atitudes exacerbadas e seu modo instável de se comportar.

O início do filme é regido por uma atmosfera leve e despreocupada. Teremos um panorama inicial da personagem central, podendo entender como funciona seu trabalho, como ela se comporta com seu meio social e, até mesmo, como dispensa um carinho ímpar com o lugar em que vive. Aqui, não conseguiremos enxergar algum tipo de anomalia em seu comportamento. Christine aparenta ser uma pessoa normal, vivendo dias felizes em uma carreira que ama.

Um ponto extremamente importante que o filme acerta em esmiuçar é o funcionamento das mídias televisivas da época. Sempre de uma forma aprazível, poderemos entender resquícios do modo de operar de um canal e a forma que seus empregados interagem no interior da instituição. Apesar de não representar-se como uma chave fundamental para o desenvolvimento da história, essa inserção incrementa a atmosfera do filme, dando uma dinâmica mais constante.

Conforme avançamos sobre a trama, começaremos a captar pequenos fragmentos do desvio comportamental em Christine. A mulher, ao passo que o filme investiga um pouco mais sua vida privada, expõe hábitos solitários, não conseguindo uma interação plenamente satisfatória com as pessoas ao seu redor. Essa solidão não é encarada por ela como algo natural ou, até mesmo, escolhido. A personagem sofre com o afastamento emocional do contato humano.

Pouco a pouco, somos introduzidos ao lado obscuro da mulher. Seu laço errática com sua mãe, suas ideias sem sentido para seu trabalho e sua inabilidade em lidar com questões amorosas determinam uma completa ruptura entre ela e o mundo. Cada vez mais intensa e padecendo com uma ausência de sentido em seus atos, a personagem passa a ser enxergada por seus companheiros de trabalho como uma espécie de fardo. O, antes, inabalável respeito que Christine tinha com seus companheiros é deteriorado e, posteriormente, extinto.

É importante ressaltarmos a importância que a atmosfera emanada pela obra proporciona para a plena absorção da densidade da história. Essa atmosfera é concebida de forma fria, nutrindo uma síntese nostálgica nela. O clima do filme varia entre as camadas tristes e alegres do ambiente e da personagem. Variações que não se transpõem para o ritmo do filme.

O ritmo do filme é sempre dinâmico. Várias frentes de história, sempre ligadas com a personagem central, mesmo quando ela não está em cena, deixam a trama ágil. Nos sentimos completamente obcecados pelos rumos que o filme levará a cada cena ultrapassada. E isso somente aumenta o impacto dos caminhos da história.

Entenderemos, conforme avançamos para a camada final do filme, como o comportamento da mulher atinge uma instância inalterável, empedernida no tempo. Pequenos fragmentos de seu passado nos são revelados, abalizando um possível tratamento para a depressão, explicitando seus problemas como construções muito maiores e longínquas do que se apresentavam a priori. Junto com essa completa degeneração do aparato psicológico de Christine, o filme faz um contraponto com a calma e tranquilidade contidas em Sarasota, cidade onde a trama ganha vida. As pessoas do lugar são positivas, os ambientes calmos e a criminalidade praticamente inexistente. Aqui, ao contrário do que filmes com temáticas parecidas costumam evidenciar, a sociedade trabalha por tentar ajudar a personagem de todas as formas.

No campo da direção, como dito no início, teremos um trabalho fabuloso de Antonio Campos em seu comando. Campos opta por sempre entregar construções sutis de cenas, com planos que tentam transpor ao público todo o compêndio de comportamentos da personagem central. Sempre amparado no roteiro impecável do filme, o diretor sabe limitar a quantidade de informações que são dispostas em cada cena, jamais ficando lento ou apressado demais.

Em relação ao elenco, vamos ter nomes como Michael C. Hall e Tracy Letts assumindo papéis secundários. Os dois estão bem e conseguem cumprir bem a proposta de seus personagens. O comando do filme é dado à Rebecca Hall. Na atuação de sua vida, Hall consegue dar densidade nas cenas em que está inserida. Sua atuação varia, assim como a síntese da personagem, entre a calma e a exacerbação.

Sem fazer concessões ao mostrar a derrocada às ruínas de uma personagem maltratada por sua própria essência, ‘Christine’ termina com trechos impactantes e perturbadores. Um filme que encontra sua ligação histórica com a obra-prima ‘Uma Mulher Sob Influência’(1974), dirigida pelo lendário John Cassavetes, que também expõe a batalha perdida de uma mulher na busca por sua sanidade. Aqui, ao contrário do clássico de 1974, somos apresentados a um conteúdo muito mais rústico, que, ao seu término, provoca uma sentimento de vazio no espectador.