Oferecendo esboços da construção humana em sua diversas
formas de contato social, John Cassavetes traz uma obra potente. Um filme que
se ampara no tradicional modelo de filmagem do diretor, nutrindo um ritmo cadenciado,
destrinchando quatro personagens despidos de qualquer forma de amarras morais.
A trama do filme, também escrita por John Cassavetes, nos
coloca para vivenciar pequenos fragmentos das vidas de quatro personagens. Os
fragmentos dispostos vão mostrar, sempre de forma crua, os indivíduos em
conversas paralelas, expondo angústias, prazeres e dúvidas, assim como veremos
a figura da traição bastante presente.

O início prezará, sem fazer uma apresentação de seus
personagens, por expor diversas formas de relações sociais potencialmente
irrelevantes. Aqui, teremos planos longos, permeados de diálogos grandes, que
trabalham por ambientar o espectador à atmosfera que o filme pretende seguir.
Esses diálogos irrelevantes são expostos como se o espectador fizesse parte do
filme, sendo construídos sem omitir nada. Veremos, por exemplo, os personagens
terem discussões fúteis, performarem pequenas imitações e cantarem. Isso
promove uma maior absorção dos conteúdos que aqueles indivíduos tem a
demonstrar.
Sempre se movendo de maneira lenta, teremos uma construção
inicial que demora para ser finalizada. Porém, quando o faz, consegue trazer
espectros de cenas magistrais, que conseguem ultrapassar o conteúdo apresentado
pelos personagens. E se encontra neste ponto o pilar que moverá toda a trama.
Se fazendo possível por intermédio do álcool (instância
presente durante todo o filme), os personagens dispõe no ambiente todo um
conteúdo instintual rechaçado. Pulsões ecoam em tela. Nada permanece o mesmo,
tudo é alterado pela forma rústica e sem limites que aqueles indivíduos se
comportam.

Amarras morais são corrompidas ao avançar da trama. Certo ou
errado deixam de existir para os personagens, sobrando apenas a definição de
vontade. Exatamente por se valer de cenas sempre muito extensas, o filme se
resume em trazer pequenos momentos das vidas dos indivíduos abordados, não
havendo a presunção de categorizar tudo o que acontece em tela como construções
empedernidas.
Ficaremos envoltos nessa repetição incessante de uma trama
que se desenvolve a partir de meras situações cotidianas. Todos os eventos
transpostos ao espectador são densos e significantes por sua simplicidade. A
figura da traição, citada acima, é colocada no filme sem o tradicional senso de reprovação que a tange, sendo vista como algo natural e humano. O término do
filme poderia muito bem ser seu começo, já que aqui não há um olhar preocupado em
trazer uma história com vertentes comuns, há, simplesmente, a tentativa de
mostrar uma pequena conjunção de relatos humanos vistos no dia a dia de
qualquer indivíduo.
No campo da direção, veremos John Cassavetes executar à
risca o modelo de trabalho que nos acostumamos a ver em sua filmografia. Tudo é
regido por um senso documental, com planos extremamente fechados nos rostos dos
indivíduos e sem uma preocupação abrangente com o lado estético do filme.
Cassavetes também opta por construções de cenas longas, tentando sempre extrair
o máximo de substância das situações. Outro ponto, talvez o mais valoroso de
seu trabalho, é o de propiciar aos seus atores um território gigantesco e
aprazível para regerem suas atuações. E o elenco deste filme consegue
aproveitar a direção de Cassavetes.
Veremos Gena Rowlands, John Marley, Seymour Cassel e Lynn
Carlin
comandando o arco central da história. Esse elenco acaba possuindo
atuações viscerais, sempre delimitados por demonstrações exacerbadas do
compêndio humano que compreende cada personagem. Os destaques do filme, no
entanto, acabam ficando concentrados nas atuações de Rowlands e Cassel, que
estão impecáveis em cada cena onde estão expostos.
Faces’ é um filme sobre a origem errática do ser humano e
seus comportamentos, muitas vezes, ausentes de sentidos e destrutivos.
Cassavetes propicia ao seu espectador o melhor que o cinema tem a oferecer,
conseguindo lograr êxito em cada investida. Um filme longo, lento em seus
caminhos, mas que, ao seu término, faz com que o espectador sinta a vontade de
vivenciar todo o conteúdo exposto novamente.

Nota CI: 7,1 Nota IMDB: 7,7
Filmografia:
FACES. Direção: John Cassavetes. 1968. 130 min.