Expondo os caminhos tortuosos da vida, Kaneto Shindô nos
traz uma obra sobre a difícil jornada pela sobrevivência de uma família. ‘A
Ilha Nua
’ ainda apresentará o silêncio como instância propulsora para a
dinâmica da trama, a rotina como fenômeno descaracterizador e a beleza natural
como componentes estabilizadores, atenuando o sofrimento transposto ao
espectador.
A trama do filme nos coloca para acompanhar a difícil rotina
diária de um casal e seus dois filhos pequenos. Vivendo em uma ilha habitada
somente por eles, o casal tem que passar por um cotidiano permeado de
sofrimento e persistência pela simples possibilidade de sobreviver. O filme
ganhará sua substância ao esmiuçar o processo degenerativo da vida iminente que
aquelas pessoas estão inseridas.
Os trajetos iniciais do filme procuram expor toda a
magnitude da vida dos personagens centrais. Passaremos a acompanhar todos os
nuances da vida do casal, inserindo-nos nas diversas batalhas enfrentadas a
cada passo consumado no mundo, em uma esfera social na qual não há divisões por
sexo, cada um executa as mesmas funções.
Concomitante a essa exposição da vida do casal, também somos
introduzidos ao elemento mais impactante do filme: o silêncio. Aqui, tudo é
regido pelo silêncio. As relações sociais simplesmente não existem. Nem mesmo
para tatear sobre o campo das obrigações. Tudo aqui está solidificado pela
falta de palavras. Tudo o que temos para tornar a experiência de assistir o filme mais aprazível são os sons naturais e uma trilha sonora que atua por
trazer beleza ao sofrimento.
A ausência de palavras explicita uma vida padronizada, sem
que seja necessária alguma interferência externa. Nem mesmo gestos são
dispensados no ambiente. Tudo é o mesmo. Tudo é igual. E é neste ponto que
podemos traçar um panorama mais estendido, pulando para o século XXI,
encontrando uma obra que se assemelha bastante a esta.
Tudo o que é exposto ao espectador nesta obra nos remete ao
filme ‘O Cavalo de Turim’(2011), obra-prima de Bela Tarr. A utilização do
silêncio para evidenciar o que de pior o ser humano tem a oferecer, a trilha
sonora maçante e repetitiva, simbolizando a ordem caótica dentro da repetição e
o aspecto degenerativo inexorável (físico e psicológico) ao qual os personagens
de ambos os filmes estão inseridos. O fator discrepante entre os dois é a aura
mais pessimista da obra de Tarr, enquanto Shindô opta por trazer pequenos
fragmentos (efêmeros, é claro) de vida em suma.
O construto final do filme elenca a figura cruel do tempo.
Naquela família, a instância mutável e “deveniente” do tempo se encontra
solidificada. Empedernida, essa estrutura parece não avançar. Os personagens
parecem não envelhecer e o ambiente ao seu redor não se altera. E com a certeza
de que as coisas, simplesmente, não se alterarão, o filme termina.
A direção da obra é irretocável. Kaneto Shindô sabe fazer a
dicotomia entre o dia a dia do casal e de seus filhos, cruéis e insossos, e a
beleza inerente do ambiente que os cercam. Os planos focados na beleza natural
são o contraponto ao sofrimento do casal. Calmos, esses planos tentam trazer ao
espectador todos os nuances que permeiam aquele lugar. O diretor também obtém
sucesso em sua investida na despersonalização de seus personagens, em planos
mais afastados e repetitivos.
No campo do elenco, somente somos expostos a quatro atores,
em especial a dupla que comanda o casal, com as presenças de Nobuko Otawa e
Taiji Tonoyama. Os dois possuem atuações limitadas pela proposta do filme,
alcançando o maior destaque na questão física, com a intermitente repetição das
rotinas dos personagens.
A Ilha Nua’ trabalha com os diversos caminhos que a vida
humana pode trilhar. Uma obra triste, que, ao seu término, provoca um
sentimento confusão no espectador pela densidade do conteúdo assistido. São 96
minutos explicitando uma forma de beleza aterradora do mundo. Pérola do cinema
japonês
.
Nota CI: 6,9 Nota IMDB: 8,3
Filmografia:
ILHA Nua, A. Direção: Kaneto Shindô. 1960. 96 min. Título
Original: Hadaka no shima.
CAVALO de Turim, O. Direção: Béla Tarr. 2011. 155 min.
Título Original: A torinói ló.