Crítica: ‘71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso’(1994), de Michael Haneke

Compondo um
quadro do caminho de determinadas pessoas que se cruzam em uma situação
extrema, ’71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso’ é um filme tão frio quanto a realidade que nos cerca. Michael Haneke escolhe por elucidar o quão perverso
pode ser o acaso, além de fazer um paralelo do distanciamento que o ser humano
acaba tendo com os fatos que acontecem à sua volta. E, como o próprio título
sugere, um filme que vai te oferecer pequenos fragmentos das vidas de quatro
pessoas condenadas à ruína.

O filme
começa com a mensagem de que em uma determinada data, um jovem entrou em um banco
e abriu fogo contra os que estavam presentes, matando três pessoas e cometendo
o suicídio logo depois. Após isso, somos convidados a acompanhar a vida de
quatro pessoas sem ligação nenhuma com a outra. Temos um menino imigrante,
lutando para sobreviver ao ambiente hostil que o cerca, uma mulher que nutre
certa desilusão com sua vida e resolve, junto com seu marido, adotar uma
menina, um jovem de 19 anos que vive uma vida comum e um senhor de idade envolto
a uma solidão inexorável. Em meio aos trechos do cotidiano dos personagens,
vamos sendo apresentados às diversas notícias de jornais na televisão, relatando
uma rotina de horrores no mundo.
A escolha
feita pelo filme é de fazer uma abordagem aleatória das vidas dos personagens,
pegando vários pequenos pontos de seus cotidianos e condensando-os em 100 minutos
de exibição. Vamos ter inúmeras cenas aleatórias dispostas em tela, como um simples
treino de pingue-pongue até a decisão de roubar uma revista infantil. Pontos sem
nenhuma relevância para alguns, mas com extrema importância para compreender a
mensagem que o filme nutre.
É importante
para o filme expor o quanto a vida é formada de pequenos momentos. E como esses
momentos regem e caracterizam a nossa essência. Não teremos aqui uma análise examinando
a composição de cada persona dos personagens, não. A proposta do filme é
exatamente a de passar apenas um esquete de suas personalidades.
Fica difícil
separar segmentos da produção do filme quando se trata de uma obra de Michael
Haneke. Aqui, como em toda a filmografia do diretor, o filme é completamente
dele. Nenhum detalhe foge aos seus dedos. A direção e roteiro são concebidos
por ele. Seu roteiro tem sempre como objetivo central não deixar exatamente claro o conteúdo transmitido por suas cenas ao espectador. Cabe a esse captar o que cada cena e diálogo
têm a oferecer. Sua direção é competente como sempre, conseguindo pelo conteúdo
visceral do que é exposto criar uma atmosfera sombria. O cineasta descarta
completamente o uso de uma trilha sonora para impelir sentimentos em seu
espectador. O que acaba nos espantando é, unicamente, a densidade das cenas do filme. O uso do
silêncio dos personagens também é pontuado de maneira genial por Haneke. Em
muitas cenas, tudo o que é oferecido ao espectador é o som ambiente.
No campo das atuações, teremos mais
uma vez, como é tradicional ao cinema do austríaco, o elenco sendo colocado sob
uma penumbra. Não há espaço para alguém se destacar no filme, a câmera trabalha sempre longe dos atores, explorando mais uma conversa em grupo
ou o ambiente que cerca os personagens do que, propriamente, suas feições diante de determinada situação.
Haneke ainda
faz uma sutil provocação ao seu público. Durante todo o filme, temos, em meio ao
amontoado de pedaços das vidas dos personagens, o uso incessante de jornais de
televisão dando alguma notícia trágica. A figura da televisão causa um
distanciamento da tragédia em quem a assiste. Imaginamos que aquilo é uma
espécie de mundo paralelo, intocável, concluindo que aquelas situações nunca vão acontecer conosco. E
é no final do filme que fica claro o porquê daquela insistência em mostrar as
cenas do noticiário. 

Nos cinco minutos finais, ficamos frente às
notícias dadas, entre elas o evento trágico ao qual os personagens foram
submetidos, mostrando o quão alheios estamos ao mundo. Um
processo de desumanização contínuo que só é intensificado com a banalização da
violência. A denúncia do cineasta feita em 1994 vem ganhando contornos
assustadores na nossa realidade atual. A perda da realidade e de nossa essência
acaba sendo um desserviço à espécie humana. Vivemos uma “mutação social”
irreversível.

A experiência
de assistir a este filme pode não ser das melhores. Pode ser aterradora em seus
pontos mais evidentes. No entanto, necessária. São filmes com esse grau de
intensidade na própria monotonia do cotidiano que fazem com que a sétima arte
seja um modelo ideal para expor alguns pontos complexos da essência do ser
humano. Temos aqui um filme muito próximo de ‘Polytechnique’(2009) na
construção das histórias por trás de um evento de grandes proporções, revelando
a importância de cada indivíduo ali presente. A crueldade com que o acaso tece
seus caminhos e a impossibilidade de desvios já havia sido contada no cinema
com ‘Sorte Cega’(1987), clássico de Krzysztof Kieslowski. Porém, em ’71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso’,
Haneke aprofunda os temas criados pelo polonês em 1987, dando uma visão mais
fria dos aspectos abordados.
Nota CI: 7,0 Nota IMDB: 7,2
Filmografia:
71 Fragmentos
de Uma Cronologia do Acaso. Direção: Michael Haneke. 1994. 100 min. Título
Original: 71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls.
SORTE Cega.
Direção: Krzysztof Kieslowski. 1987. 114 min. Título Original:
Przypadek.
POLYTECHNIQUE.
Direção: Denis Villeneuve. 2009. 77 min.

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