Crítica: ‘Baixio das Bestas’(2006), de Claudio Assis

Adentraremos
em um campo perigoso, sem leis, no qual, literalmente, o mais forte é quem
sobrevive. Cláudio Assis propõe aqui um filme denso, complexo e abrupto, que
mostra uma realidade invisível que permeia o nosso país.  Um western moderno aterrador. ‘Baixio das
Bestas’, como o próprio título já sugere, é um desfile do que há de pior do ser
humano no mundo.
Situado em
uma pequena cidade isolada do Nordeste brasileiro, o filme tem como proposta
colocar o espectador no cotidiano daquele lugar e das pessoas que ali se
encontram. Veremos um conjunto visceral de indivíduos tentando simplesmente
sobreviver ao ambiente hostil que os cercam. Estudaremos a vida de vários
personagens, como, por exemplo, o avô que ganha dinheiro explorando sua neta, o
indivíduo de classe média que tem uma visão deturpada do ambiente em que vive,
a mulher subjugada pelos homens que a cercam, um empregado de obras que não
vislumbra uma vida melhor e um senhor que leva uma vida calma simplesmente
observando os horrores da cidade.
O filme não
se preocupa em formular a figura de um personagem que destoe do resto. Não.
Aqui todos são figuras amargas e perversas. Essa luta diária pela sobrevivência
deixa várias vítimas no lugar, mas nenhum inocente perece ali. O objetivo é
mostrar o quanto o ser humano pode descer em situações adversas. O quanto o
ambiente formula a persona de cada um inserido no lugar.
O roteiro de
Hilton Lacerda é simples, desenvolvido precisamente para as mãos hábeis de
Cláudio Assis. Não temos diálogos compridos e densos, todas as mensagens
embutidas no filme são passadas ao espectador de forma visual.
O brilho no
filme se aloca na sua direção. Cláudio Assis desempenha um trabalho incrível em
trazer aquela forma de vida para os olhos do espectador. Aqui, ele escolhe por
tornar o ambiente o mais real possível, no qual não são os personagens as
grandes estrelas do filme, mas, sim, a atmosfera do lugar. Assis escolhe
por utilizar com certa frequência uma câmera mais afastada dos atores, jamais
prezando por dar atenção às expressões que possam surgir. O diretor também trata
de colocar em seu filme uma fotografia obscura, trabalho de Walter Carvalho,
às vezes, revelando pouco de determinadas cenas. A trilha sonora no filme é
praticamente ausente, somente pontuando algumas cenas, não deixando que o filme
perca seu tom cru. O trabalho de Cláudio Assis neste filme remete diretamente a
alguns trabalhos do diretor austríaco Michael Haneke, como ‘O Sétimo Continente’(1989) e ‘Código Desconhecido’(2000), nos quais se despreza o talento dos
atores e da trilha sonora para dar vida a objetos, lugares e situações.
O trabalho do
elenco é conciso. Temos um emaranhado de atores já tradicionais do universo de
Cláudio Assis, como Matheus Nachtergaele, Dira Paes
e Irandhir Santos, além da presença de Caio Blat.
Todos estão bem dentro do que o filme lhes oferece. O espaço para destaque é
descartado como exposto acima. Porém, temos em Dira Paes a figura que mais
consegue brilhar em suas cenas.
‘Baixio das
Bestas’ não é um filme para qualquer público, seu material exposto pode
afugentar algumas pessoas. A brutalidade inexorável presente na cidade em
questão torna a vida presente no local quase que improvável, além de pouco
palatável para o público. Infelizmente, o tema trazido pelo longa está longe de
ser ficcional, sendo encontrado em diversos estados do nosso país. E não de
maneira esporádica. Um filme que, além de ser bom e incrivelmente bem dirigido,
também se faz necessário.
Nota CI: 6,6 Nota IMDB: 6,3
Filmografia:
BAIXIO das
Bestas. Direção: Cláudio Assis. 2006. 80 min.

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