Crítica: ‘O Vídeo de Benny’(1992), de Michael Haneke

Contendo uma
aura hipnotizante, ‘O Vídeo de Benny’ é um filme que impede seu espectador de
sair de frente da tela. Seu conteúdo perturbador apenas evidencia o quanto seus
realizadores foram felizes em conceber este filme. Exploraremos os âmbitos da
apatia, falta de ajuste social, narcisismo e rompimento com a realidade. Tudo
exposto em seu determinismo mais frio possível.
Adentraremos
ao ambiente nada aconchegante, dizendo no quesito psicológico, da vida de
Benny, um garoto de 14 anos, viciado em televisão e na produção de seus
próprios vídeos amadores. Benny, a priori, aparenta ser um indivíduo normal na
escola que frequenta, tendo relacionamentos comuns com seus colegas. Seus pais
procuram lhe dar sempre o melhor, apesar de estarem um pouco ausentes da rotina
do garoto.
O vício na
televisão que aparentava ser um distúrbio leve, comum na vida de um
adolescente, toma proporções impossíveis de se mensurar quando Benny arranja
uma nova amiga, a leva para sua casa, enquanto seus pais estão ausentes, e a
mata com extrema frieza e crueldade. O filme então ganha forma e trará ao
espectador as implicações do ato e o que aquilo causa no ambiente em que vive.
O filme é
extremamente cruel em todos os seus desdobramentos. São denunciadas ao seu
público os males que a nossa sociedade propicia com seus avanços, seja ele em
qual âmbito for. Benny é uma vítima, talvez inocente, de uma realidade contida
na forma de televisão que banaliza a morte, o convívio social e a violência
como uma forma geral. O garoto não sabe o que determinado ato seu vai causar no
ambiente ao seu redor, todo o vislumbre de realidade nele é dado através da
televisão. Ele acaba rompendo com a realidade do dia a dia, não de uma forma
que o psicótico o faz, mas, sim, como uma quebra forçada, incumbida a ele pelo
ambiente pouco afável de seu quarto, local a que fica recluso.

Diferente de
‘Mulheres Diabólicas’(1995), clássico de Claude Chabrol, onde a personagem de
Sophie La Bonne, interpretada por Sandrine Bonnaire, nutre um relacionamento passivo com a televisão, vendo nela uma forma
de escapar de sua vida espedaçada, aqui Benny é ativo no seu relacionamento com
o objeto. Ele, na forma da gravação de vídeos e o seu manuseio, podendo pausar,
avançar ou retroceder, arruma uma forma de controle e criação de determinado
ambiente, dando ao garoto um status de onisciência àquilo.
Não teremos
na figura de Benny um legítimo psicopata. Não, essa não é a mensagem que o
filme traz ao espectador. O que temos em Benny é um indivíduo alheio a tudo que
o cerca, não sendo capaz de expressar qualquer forma de sentimento. Entretanto,
o modo de como o garoto age após o assassinato traduz uma forma de pedido de
socorro da situação agora inerente ao seu ser. Seu grito silencioso de
desespero jamais é direcionado com arrependimento ao ato que cometeu, mas da
falta de sensações que este lhe trouxera.

Temos também
implícita no filme uma crítica à cultura do narcisismo, impelindo nos
indivíduos, como um todo, uma contemplação de si próprio exacerbada. Conforme a
estrutura psicológica de Benny vai se degenerando, temos um forte vínculo do
garoto com a imagem de seu próprio corpo tatuado nas imagens que faz com sua
câmera.
O modo como o
filme é feito somente aumenta a imersão do espectador àquele mundo
completamente deturpado. A direção de Michael Haneke, também responsável pelo
roteiro, busca sempre dar determinada substância ao que está contando por meio
da exposição constante dos objetos que permeiam os ambientes explorados. Haneke
também escolhe por impactar seu público logo na abertura do filme. Antes de
qualquer tipo de apresentação de créditos ou distribuidoras do filme, somos
apresentados a uma cena real de um abatimento de um porco. Tudo gravado pela
lente da câmera de Benny. A cena é brutal, sem nenhum tipo concessão, dando uma
amostra do que vamos encarar pela frente. A cena com o porco é repetida
diversas vezes durante o filme, ficando tatuado permanentemente em quem as
assiste.

Haneke,
diferente de seu filme anterior, consegue dar espaço e conteúdo para os atores
efetuarem suas atuações. O diretor sempre vai prezar pela exposição dos objetos
da vida daquelas pessoas, mas também escolhe por manter em vários momentos a
câmera fechada nos rostos dos atores, seja para um diálogo comum ou mesmo para
captar suas feições diante dos horrores da câmera de Benny. Porém, o grande
destaque de sua direção é a cena do assassinato. O diretor registra todo o
desenrolar dos acontecimentos por meio das imagens captadas pela câmera do
garoto, nos dando um panorama limitado, mas, ao mesmo tempo, assustador.
Já entrando
no campo das atuações, teremos como grande destaque Ulrich Mühe, interpretando o pai do garoto. Muhe consegue nos propiciar uma atuação
distante em seu início, refletindo a incapacidade de seu personagem de captar
as mensagens que o ambiente lhe dava. Conforme a trama avança, o ator vai
aumentando a intensidade de sua interpretação, indo da inocência, até o
corrente desespero silencioso nas cenas finais. Arno Frisch protagoniza o filme como Benny. Frisch também nos dá uma atuação
impecável, partindo sempre de uma frieza incorrigível para levar seu personagem.
Compondo o elenco temos como Angela Winkler em uma performance segura como a mãe de Benny. E a grandeza das
atuações é uma marca recorrente dos filmes dirigidos por Michael Haneke, sempre
conseguindo tirar o melhor de seus atores.

Vale destacar
na trama do filme também a inabilidade que acaba regendo o modo como os pais de
Benny conduzem toda a situação. Entraremos em uma série de debates morais sobre
os limites do amor e as liberdades que são dadas ao garoto. Haneke vai
questionar até onde se pode confiar em um ser humano, mesmo que este seja seu
filho, para assuntos de uma complexidade exacerbada. O conflito que os
personagens do filme passam, causam determinada comoção em quem as assiste.
O sempre
pouco palatável cinema de Michael Haneke talvez encontre neste filme uma de
suas obras mais indigestas de toda sua brilhante filmografia. A ambiguidade do
final de ‘O Vídeo de Benny’ traz duas perspectivas diferentes, sendo uma
pessimista e a outra completamente aterradora. Um filme que se aloca no gênero
de drama, mas que facilmente assusta muito mais que a grande maioria do gênero
de horror. E não pelo seu material gráfico, mas por seu conteúdo psicológico
demasiadamente sombrio.
Nota CI: 7,3 Nota IMDB: 7,2
Filmografia:
VÍDEO de
Benny, O. Direção: Michael Haneke. 1992. 105 min. Título Original: Benny’s
Video.

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