Crítica: ‘Alphaville’(1965), de Jean-Luc Godard

Fugindo das
tradicionais obras de Jean-Luc Godard, ‘Alphaville’ nos proporciona uma ficção
imersiva, analisando os dilemas morais, éticos e psicológicos do ato de
existir. Nutrindo em sua cerne a iniciativa de questionar seu espectador de
forma passiva, o filme aproveita toda a exacerbação existencial da época em seu
país para criar um filme único.
A história do
filme vai acompanhar a busca de um agente secreto por determinado homem em um
local desconhecido do universo intitulado Alphaville. Em Alphaville, o que
impera é uma sociedade controlada, sem emoções, onde qualquer tipo de expressão
emocional é digna de uma sentença de morte. Tudo dentro da cidade é regido pelo
comando de uma voz, o Alpha 60. É neste clima que o investigador adentra, e a
história ganha determinados rumos quando ele acaba se envolvendo com uma das
residentes locais.

O universo
paralelo explorado pelo filme é muito atraente. Temos aqui uma sociedade
distópica, onde cada integrante desta foi treinado, desde seu nascimento, para
se adequar a esta realidade. Nenhum residente do local conhece uma realidade
diferente. Novos ídolos foram erigidos. Nesta sociedade o livro a que todos
consultam de maneira impiedosa não é a bíblia tradicional, mas um dicionário em
que palavras vão se extinguindo com o tempo. E antes de H.A.L. 9000, em ‘2001:
Uma Odisseia no Espaço’(1968), temos a célebre figura de Alpha 60, o cérebro da
cidade. Alpha 60 está presente em todos os cantos, desde uma ligação
telefônica, até interrogatórios policiais. Comandando a cidade com discursos
significativos e demasiadamente filosóficos, Alpha 60 prega a construção de um
lugar perfeito. Em Alphaville o presente é edificado, desprezando o passado e
futuro.
O relacionamento
entre o agente e a mulher residente da cidade norteia o filme. O agente
truculento muitas vezes aparenta não ter a paciência em lidar com a mulher, já
que ela não sabe o significado de diversas palavras, como o amor, por exemplo.
Entretanto, diferente das pessoas mostradas pelo filme, a mulher destoa da
cidade, questionando diversos pontos de sua natureza.

O clima da
trama é denso e sombrio, o espectador e o protagonista muitas vezes não entende
o que está acontecendo. As histórias vão se desenrolando e o protagonista
parece ser um ser passivo diante daqueles acontecimentos. Não há muitas
explicações para o porquê do agente estar presente naquela cidade alternativa
ou o que é de fato aquela cidade. Toda essa atmosfera confusa somente dá mais
charme ao filme.
A direção e
roteiro de Godard são ótimos, utilizando todos os artifícios entregues a ele.
As súbitas cenas de ação e os diálogos desconexos e surreais dão um clima único
ao filme. Godard se utiliza de todos os ângulos possíveis para executar as cenas,
sempre priorizando as faces dos atores, deixando a encargo destes o trabalho de
dar substância a diversas cenas.
Outros
fatores de destaques técnicos do filme são a trilha sonora e a fotografia. A
trilha alterna entre o drama e o suspense, dando a cada cena um toque
diferenciado do anterior. Já a fotografia é a base do mundo criado por Godard.
Propositadamente escura, a cinematografia opta por sempre revelar pouco daquele
ambiente, sempre deixando para a imaginação do espectador a composição do
local.

O elenco
também está muito bem no filme. Eddie Constantine, no papel do investigador, escolhe por dar ao filme uma atuação
rústica. Suas expressões faciais são controladas, quase ausentes, enfatizando a
natureza fria de seu personagem. Na personagem da mulher da cidade, temos Anna Karina. Karina consegue também entregar uma atuação segura, jamais alterando o
tom de sua personagem.
‘Alphaville’
é um filme diferenciado, servindo de base para o que Ridley Scott iria criar
décadas mais tarde em ‘Blade Runner’(1982). Godard altera seu tema, porém seu
estilo está inteiro presente aqui. Os 99 minutos de duração são efêmeros,
passam simplesmente voando aos olhos do espectador. Um filme que martela as
construções básicas intrínsecas no ser humano.
Nota CI: 7,2 Nota IMDB: 7,2
Filmografia:
ALPHAVILLE.
Direção: Jean-Luc Godard. 1965. 99 min. Título Original: Alphaville, une
étrange aventure de Lemmy Caution.
BLADE RUNNER.
Direção: Ridley Scott. 1982. 117 min.
2001: Uma
Odisseia no Espaço. Direção: Stanley Kubrick. 1968. 149 min. Título Original:
2001: A Space Odyssey.

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