Crítica: ‘Eu Sou Um Cyborg, e Daí?’(2006), de Chan-wook Park

Dando um
olhar bidimensional à psicose esquizofrênica, Chan-wook Park realiza o melhor
trabalho de direção da sua carreira, depois de ‘Oldboy’(2003). Um filme
potente, ágil e esquizofrênico, assim como nossa protagonista. ‘Eu Sou Um Cyborg,
e Daí?’ é uma obra doce, que conta com as características mais marcantes da
filmografia do cineasta coreano.
O filme nos
contará a história de Cha Young-goon,
uma mulher jovem, que acaba por ser internada em uma clínica psiquiátrica após
ter um surto e quase se matar. Cha é diagnosticada com psicose e terá que
aprender a lidar com seu estado, assim como lidar com os outros pacientes ao
seu redor. A trama se concentrará, durante os 105 minutos de duração do filme,
nesta nova forma de vida da jovem, fará uma terapia catártica dos pesadelos
familiares de Cha e mostrará os desmembramento de um dos romances mais bonitos
já trazidos para uma tela.
A narrativa
escolhida pelo filme é suave, interpretando cada cenário explorado com um olhar
intenso, porém sem perder a sensibilidade necessária pelo tema abordado. Até as
cenas mais exacerbadas são mostradas de uma forma que acaba por diminuir seu
impacto no espectador, fazendo com que este tenha a sensação de estar
assistindo um conto de fadas moderno. Essa sensação é a mesma emitida pela
forma de abordagem narrativa do filme ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’(2001).
Ambos os filmes possuem várias semelhanças e acabam se completando em suas
formas de se fazer cinema.

A genialidade
presente aqui é a de mostrar a vida de Cha tanto pelo olhar tradicional,
fazendo um estudo da vida da personagem, criando um distanciamento da situação
que lhe acomete, tanto quanto por um olhar pela visão da protagonista,
mostrando todos os pavores que aquela realidade deturpada lhe apresenta. Essa
ambivalência em contar a história foi sempre muito pouco utilizada pelo cinema.
E quando o fizeram, faltou qualidade para dar vida àquilo. Bem, não é o que
acontece nas mãos de Park.
A direção do
coreano é praticamente impecável. Park consegue fazer com que o espectador se
sinta completamente inserido ao decorrer da história após poucos minutos de
exibição. Essa imersão propiciada pelo diretor faz com que nós passemos a nos
sentir parte da história, parte da loucura contida em Cha. Toda a composição de
cenário e até a utilização de efeitos visuais são feitos exatamente para nos
importarmos com o desencadeamento das histórias ali contidas.

Como é
característico do cinema do diretor, veremos aqui a utilização de vários
estilos de filmagens, quebrando com a forma rotineira de se fazer cinema. Park
empreende no filme uma câmera que sempre procura pela melhor tomada. Cada
enquadramento do diretor arranca suspiros de seu público. Hora a câmera
persegue algum personagem, desenvolvendo um sentimento de ansiedade no
espectador, na outra, preza por uma câmera estática, deixando a encargo dos atores
emitirem qualquer ação. Teremos também tomadas fascinantes em 360° que mostram
toda a linda paranoia contida no lugar.
Ainda teremos
uma atmosfera quente dada pelo diretor ao filme, sempre buscando tonalidades
fortes, com o auxílio da magnífica cinematografia de Chung-hoon Chung,
para tatuar as cenas na cabeça de quem as assiste. Esse trabalho na criação da
atmosfera se deve muito também ao grande trabalho feito por Jae-beom Kim e Sang-beom Kim
na edição do filme, dando um tom frenético a cada cena.

Todo o elenco
do filme está muito bem, evidenciando a direção de Chan-wook Park, que acaba
por ser ótima também na condução de seu time de atores. O destaque vai para as
atuações dos dois protagonistas que formam o casal do filme. Soo-jung Lim e Rain conseguem dar vida a toda a estranheza atmosférica
proposta pelo diretor, dando, a cada close em seus rostos, expressões
aleatórias de completa fuga da realidade.
A visão
precisa de todos os envolvidos na produção deste filme, fizeram com que a
experiência de assisti-lo seja única. A forma de trazer ao espectador todos os
dramas enfrentados por aqueles que sofrem da psicose talvez seja a visão que
mais humaniza e dá um tom realístico a patologia. ‘Eu Sou Um Cyborg, e Daí?’ é
uma verdadeira eclosão de conteúdos inconscientes dados para o espectador tirar
suas próprias conclusões. Essa quebra entre o ego e a realidade externa é
relatada no filme com rara felicidade, dando a essa outra realidade inexistente
criada pela psique da protagonista um tom fascinante.
Nota CI: 7,3 Nota IMDB: 7,1
Filmografia:
EU Sou Um
Cyborg, e Daí. Direção: Chan-Wook Park. 2006. 105 min. Título Original: Ssa-i-bo-geu-ji-man-gwen-chan-a.
FABULOSO
Destino de Amélie Poulain, O. Direção: Jean-Pierre Jeunet. 2001. 122 min. Título Original: Le fabuleux destin d’Amélie Poulain.

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