Crítica: ‘O Caçador’(2008), de Hong-jin Na

Escolhendo
por dar ao filme uma atmosfera frenética, Hong-jin Na consegue captar o espectador desde o primeiro minuto. Em ‘O Caçador’
teremos um suspense em seu caráter mais substancial, fugindo de conclusões
óbvias, sem, no entanto, evitar o uso de elementos clássicos do gênero. Um
filme que consegue unir a exacerbação característica da violência do cinema
coreano a um clima de mistério que remete aos grandes filmes do gênero, como ‘O
Silêncio dos Inocentes’(1991) e ‘O Silêncio do Lago’(1988).
A trama do
filme vai se concentrar na busca de Joong-ho Eom, um “cafetão” que recentemente
largou seu emprego na polícia, por garotas que trabalhavam com ele que começam
a desaparecer. Inicialmente achando que elas teriam fugido dele, o homem não dá
muita importância ao fato. Porém, ao descobrir, por um mero capricho do acaso,
que um número de telefone dos registros batia exatamente com o último
atendimento das mulheres antes de desaparecer, o homem acaba percebendo que
aquilo era muito maior do que parecera outrora. A investigação do “cafetão”
acaba se ligando a procura da polícia por um serial killer que vinha
aterrorizando a cidade. Os fatos se encontram e a partir deste momento o filme
caminha por uma luta contra o tempo para capturar o psicopata.

O filme não
tarda a adentrar a sua aura alucinante, deixando claro para seu espectador
desde o primeiro minuto qual seria o ritmo do filme. Todo o constructo do longa
é baseado em duas vertentes, o olhar do “cafetão” atrás de suas garotas e do
assassino colocando em prática seu “modus operandi”. A grande sacada do filme é
revelar a identidade do assassino logo na primeira parte do filme, mudando o
rumo de seus desfechos. Todos os clichês do gênero são “demolidos” na primeira
hora de filme. Todas as resoluções desafiam o espectador, jamais pecando pela
falta de ousadia.
O roteiro do
filme, escrito por Won-Chan Hong, Shinho Lee e Hong-jin Na, é
muito bem conduzido. Temos aqui todos os conflitos muito bem destrinchados,
revelando todos os nuances de cada personagem ali envolvido. Os caminhos que a
trama percorre, quando falamos de um filme de suspense, também ajudam a dar um
charme especial ao filme.
Já caminhando
pelo campo da direção, teremos no trabalho de Hong-jin Na o grande diferencial que alavanca a qualidade do filme. Logo em seu
primeiro trabalho a frente da direção de um longa, Hong-jin escolhe dar ao
filme um ritmo movimentado, a câmera parece sempre estar em alerta, perseguindo
seus atores a cada ato destes. O diretor também decide fazer uma grande
homenagem ao filme ‘Memórias de Um Assassino’(2003), pegando todos seus elementos
mais importantes para conseguir guiar seu trabalho.

Entretanto, é
inserido na edição que se encontra o grande ponto que dá toda a essência do
filme. Sun-min Kim,
responsável também pela edição de ‘Memórias de Um Assassino’, já citado acima, faz
um trabalho brilhante aqui. Todos os cortes atuam para agilizar o andamento da
trama. Temos cenas que se dividem em dois ambientes, onde o filme varia de cada
ato com cortes que trabalham por criar uma sensação de paranoia no espectador.
Sun-min escolhe também por fazer uma abordagem semelhante ao arco final de ‘O
Silêncio dos Inocentes’, desnorteando seu público da melhor forma, criando
cenas fantásticas.
A trilha
sonora é outro ponto da parte técnica do filme que chama a atenção. Yong-rock Choi
e Jun-seok Kim
fazem uma composição que serve para pontuar toda a carga frenética que o filme
apresenta, sem, no entanto, sobrepujar o enredo.
As peças do
elenco fazem um bom trabalho, com o destaque para os dois protagonistas Yun-seok Kim e Jung-woo Ha. Yun-seok consegue entrar na figura do personagem que o
roteiro lhe entregou, nos propiciando um trabalho dedicado. O ator sofre uma
completa mutação durante as duas horas de filme, passando de um “cafetão”
despreocupado e sem nenhum sentimento de carinho pelos que o cercam para um
homem em completo desespero pelas circunstâncias as quais está atrelado. Já
Jung-woo adentra com perfeição a toda a aura do psicopata que interpreta,
prezando sempre por uma atuação controlada, se exacerbando apenas nos momentos
oportunos.

A reta final
de ‘O Caçador’ acaba por não ser generosa com seu espectador, nos inundando com
uma violência demasiada. As resoluções, desde os pequenos arcos até a essência
da história, são todas cruéis, nos remetendo diretamente a ‘O Silêncio do
Lago’. O filme também se baseia em alguns desfechos em histórias reais, como na
história verídica da 1ª prisão do serial killer Ted Bundy e seus desdobramentos
medonhos que se seguem.
‘O Caçador’ é
um grande filme. Um dos melhores do gênero e do país no século XXI. Um filme
que consegue ser original mesmo se utilizando de elementos clássicos. A curta
filmografia de Hong-jin não é um esboço de sua qualidade. O diretor consegue
conciliar muito bem a ação emanada de cada cena para dentro do gênero do filme,
sem que esta acabe por confundir o espectador.
Nota CI: 7,5 Nota IMDB: 7,9
Filmografia:
CAÇADOR, O.
Direção: Hong-jin Na. 2008. 125 min. Título Original: Chugyeogja.
SILÊNCIO do
Lago, O. Direção: George Sluizer. 1988. 107 min. Título Original: Spoorloos.
SILÊNCIO dos
Inocentes, O. Direção: Jonathan Demme. 1991. 118 min. Título Original: The Silence of the Lambs.
MEMÓRIAS de
Um Assassino. Direção: Joon-ho Bong. 2003. 131 min. Título Original: Salinui chueok.

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