Crítica: ‘A Professora de Piano’(2001), de Michael Haneke

Explorando os nuances que tangem o conceito de perversão, Michael Haneke entrega uma obra contemplativa. Um estudo fiel sobre a vida de uma mulher perversa em completo estado de desconexão com o mundo que a cerca. Teremos abordados temas como, por exemplo, a relação perturbadora entre mãe/filha, falta de assertividade nas relações interpessoais, a degeneração do aparato psíquico no perverso e o conceito de sofrimento em perversão. Um filme cruel em suas investidas, assim como a protagonista, desprezando os limites impostos pelo espectador. Como se tudo isso não fosse o bastante, ‘A Professora de Piano’ ainda entrega a maior atuação feminina da história do cinema.

O filme vai contar a história de Erika, uma professora de piano, extremamente fria em suas relações sociais, que acaba por viver uma vida dupla, entregando parte de seu dia ao estranho hábito de frequentar cinemas pornôs. A frieza da mulher é unicamente despejada na sua máscara social, já que na presença da mãe ela acaba por se comportar como uma espécie de adolescente. E sendo tratada como tal. A trama do filme ganhará sua substância com o surgimento de um aluno completamente obcecado na figura da professora, desenvolvendo por ela uma paixão inescapável. Os dois vão aos poucos desenvolvendo um estranho tipo de relacionamento, no qual os limites morais e éticos serão atingidos, fornecendo à professora toda a sua fragilidade psíquica.

O início do filme serve para alocar o espectador na vida de Erika, mostrando primeiro sua relação com sua mãe, uma figura castradora responsável provavelmente por grande parte dos problemas que afligem a mulher. Sua mãe a trata de uma maneira adolescente, como se Erika tivesse 15 anos, não deixando a filha chegar mais tarde do que deveria em casa, inspecionando todos os tipos de objetos da mulher e regendo, até mesmo, a forma como a filha se veste.

Essa relação passa longe de ser problemática unilateralmente. Erika também estimula esse comportamento por parte da mãe, deixando com que ela dite sua vida profissional. As duas ainda evidenciam esse laço praticamente inquebrável com o ato de dormirem na mesma cama.

Nas cenas seguintes, somos inundados com a frieza que Erika acaba levando sua vida em meio ao convívio social. A mulher trata todos que a cercam de forma mecânica. Todas as suas frases e esboços de expressões faciais parecem ser controladas, uma espécie de roteiro ético e social. Seu relacionamento com seus alunos, além de ser frio, também se faz cruel, punindo severamente com ameaças veladas qualquer tipo de comportamento que lhe pareça ameaçador.

É em meio a essa frieza, essa máscara social tangida pela normalidade, que haverá o grande contraponto da obra. De forma abrupta somos introduzidos aos hábitos completamente surreais da protagonista. Em um momento, estamos inseridos na vida tediosa e normal de Erika, no outro, estamos adentrando em um cinema pornográfico onde a mulher assiste os filmes com um ar passivo, nutrindo hábitos de cheirar lenços que os homens do local usavam para ejacular.

Tudo que se segue após essa cena, preponderante para as ambições do filme, acabam enojando o espectador. Ficará claro, se até aqui nós ainda tenhamos alguma dúvida sobre a natureza da mulher, o fator perverso que lhe acomete, atingindo atos de parafilias, como voyeurismo, sadismo e, principalmente, o masoquismo.

Seria importante, antes de nos inserirmos na questão conceitual da perversão que acomete Erika, ressaltar o esboço de trilha sonora que o filme nos propicia. Fora as aulas e apresentações de piano, o único momento que temos a introdução de um esquete de trilha sonora é exatamente nesse corte abrupto citado acima, entre normalidade e o patológico. As composições musicais clássicas que são entoadas no caminho da mulher para o cinema pornô delimitam o quão crucial é esse momento para o filme, esse corte imediato entre uma realidade insossa e a outra praticamente intragável. O diretor já havia usado esse modelo de corte por meio de esboços de trilha sonora em ‘Violência Gratuita’(1997), quando a música serve para tirar a realidade social e pacífica da família do filme, para lhes apresentar o conceito cruel da violência instintual do mundo. Os modelos usados são idênticos nos dois filmes e essenciais para essa quebra forçada no espectador entre uma realidade e outra.

Essa realidade bidimensional que Erika vive é sempre guiada por sua falta de sentimentos em relação ao mundo que a cerca. Esses sentimentos ausentes é algo que incomoda a própria protagonista, nos quais a mulher simplesmente anseia por algo que lhe faça se sentir viva. E é neste momento que teremos uma cena magistral que homenageia um clássico de Ingmar Bergman.

A cena em questão é quando Erika se tranca no banheiro, pegando uma gilete e cortando sua área genital. Essa cena encontra sua ligação histórica no filme ‘Gritos e Sussuros’(1972), quando Karin, personagem interpretada por Ingrid Thulin, pega um pedaço de espelho quebrado e corta sua vagina. Os simbolismos destes atos se encontram, nos quais ambas as personagens procuram com o ato imprimir em si algum tipo de sentimento, nem mesmo que seja a sensação de dor. Karin procura algo que a faça acordar do pesadelo melancólico que sua vida se tornara. Já Erika procura na dor algo mais ligado ao fetichismo, quando a busca por sentimentos sempre se ligará nas pulsões sexuais da mulher.

Há nesses pequenos comportamentos da protagonista uma sensação de distanciamento do real, da realidade externa inerente a ela. Erika vai entrar em um emaranhado de atitudes onde trata as pessoas a sua volta como meros objetos na busca por seus objetivos. A mulher passa a ser cada vez mais ausente em seu trato social. Em outro momento, decide, como um animal encurralado, atacar uma aluna por simplesmente despertar a atenção do jovem com quem desenvolveria sue relacionamento.

O desenvolvimento do romance atípico com o jovem é todo pautado nessa busca por sentir algo em sua vida. E é neste momento que chegaremos no ponto derradeiro do processo de evolução da perversão em Erika, quando finalmente atinge o estado masoquista. O masoquismo vem como ponto final na busca incansável da mulher por sentimentos reais.

Esse masoquismo presente em Erika é colocado em forma de palavras na cena em que escreve uma carta para o jovem com quem está se relacionando, pedindo para ele seguir um série de regras, nas quais ela iria se sujeitar completamente a ele. O momento em que ele lê a carta em voz alta para ela, com um ar de completa consternação àquilo, é ímpar no cinema e extremamente perturbador.

Concentrando-nos nos espectros do personagem do jovem veremos sua ingenuidade, querendo apenas vivenciar aquela paixão que nutria pela personagem da professora, sem ter ideia do que consistia a essência da mulher. E no momento em que lê a carta, ele é submetido a um choque de realidade onde essa paixão pela mulher abre espaço para o completo enojamento por sua pessoa.

Para Erika, o jovem é apenas um objeto pelo qual ela pode alcançar a satisfação sexual. Ali não está presente um ser humano, mas, sim, um falo, um objeto que pode lhe proporcionar dor e etc. Já para o jovem, a priori, antes da carta, a mulher era uma aventura romântica pela qual ele sempre ansiara. Esses contrapontos cruéis acabam por levar a relação para lados opostos, causando a completa quebra do aparelho psíquico que ainda sustentava o mínimo possível Erika no mundo e uma completa perturbação no jovem um tanto quanto inocente, levando o mesmo a uma confusão da forma em que pretende agir posterior à descoberta da carta com a mulher.

A reta final do filme vai se ater ao processo de degeneração do construto psicológico de Erika até chegar ao estágio de completa loucura. É questionado pelo filme também o conceito de sofrimento do perverso, de como aquela falta de pertencimento ao mundo e ao meio social acaba marcando a vida dessas pessoas. Erika quer mudar, quer se sujeitar a um processo de mutação em um ser social. A cena que evidencia isso é quando ela implora pela reconsideração do jovem, prometendo dar a ele tudo que ele queria a priori. Quando ele aceita a proposta dela, a mulher acaba tendo uma reação física de repulsa, que mostra a impossibilidade de algo próximo ao desenvolvimento de sentimentos. Erika é incapaz de mudar e sofre por isso.

O ato final é interpretativo. Não sabemos ao certo o destino que Erika levara. O roteiro de Haneke, baseado no romance de Elfriede Jelinek, deixa a encargo da imaginação do espectador projetar os passos tristes de professora.

A direção de Michael Haneke foge um pouco da forma como vinha se consumando em seus filmes anteriores, se comparando mais ao estilo empreendido por ele posteriormente em ‘Amor’(2012), por exemplo. Esse estilo esquece a obsessão nos objetos que permeiam os ambientes, dando um foco na completude da personagem protagonista, com enquadramentos fechados, que sempre procuram preservar o estado psicológico que se encontra a mulher. O brilho do trabalho de Haneke é se conscientizar que possui em mãos uma atriz sem frescuras, disposta a ir ao limite do aceitável para consumar sua atuação.

Isabelle Huppert está completamente genial no filme. A atriz consegue dar uma intensidade na própria frieza da personagem, aproveitando os enquadramentos fechados em sua face para dar ao espectador toda a anomalia que tange aquela mulher. Huppert compadece o público em alguns momentos, já em outros nos deixa completamente enojados. Ela é frenética em cena, cada segundo projetado da atriz em tela trabalha por deixar o espectador completamente extasiado. São vários os momentos onde a atriz ultrapassa sua consistência padrão, atingindo níveis incríveis de atuação, como na cena onde coloca em prática o lado voyeur da personagem, espiando um casal fazendo sexo em um carro, quando, com a câmera fechada em seu rosto, vai às lágrimas pela empolgação do momento. São 131 minutos de filme em que veremos mais de uma dezena de momentos como esse. A maior atuação feminina da história do cinema. O nível que a francesa empreende em suas atuações, e mais especificamente nesta, atriz nenhuma conseguiu chegar perto.

‘A Professora de Piano’ é um estudo acurado sobre os construtos psicológicos de um perverso. Haneke ainda questiona o senso comum e, até mesmo, alguns profissionais da área que afirmam que os acometidos da perversão (sempre entendendo o tema pela visão psicanalítica) não possuem um sofrimento intrínseco a seu ser. O diretor acaba por mostrar, com a personagem de Erika, o quanto existe, sim, um sofrimento exacerbado na constituição do aparato psíquico no perverso. Um filme difícil de ser digerido, que ainda relata o quanto um vínculo demasiado intenso com a família pode ser prejudicial no desenvolvimento do ser humano.

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