Crítica: ‘Sede de Sangue’(2009), de Chan-wook Park

Trabalhando
por modernizar e, de certa forma, humanizar os mitos sobre vampiros no cinema,
Chan-wook Park entrega ao seu espectador um filme diferente da parte maciça do
gênero. Um filme que consegue captar o interesse de seu público gradativamente
durante sua longa duração. Divertido, incômodo e levemente assustador, ‘Sede de
Sangue’ é um dos filmes mais originais sobre o tema em anos.
A trama vai
contar a história de um padre que nutre em seu âmago um desejo inerente de
fazer bem ao mundo. Após ficar sabendo de um experimento que poderia salvar
várias vidas, se fosse bem-sucedido, o padre se inscreve nele sem pensar duas
vezes, mesmo sabendo dos riscos. Após o experimento vir a falhar e o padre
quase morrer, vindo a ser salvo por uma transfusão de sangue, ele acaba por
desenvolver uma grande sensibilidade por via de seus sentidos, além da força
descomunal. O único problema disso é que o homem logo passa a nutrir um desejo
por sangue quase que incontrolável, vindo a sofrer severos problemas de pele se
não saciar sua fome. O filme ganha forma quando o padre acaba por se envolver
com uma mulher casada e tem que questionar todos os seus construtos sociais e
morais de sua vida.
O filme, a
priori, acaba por ter um ritmo bem lento. Tudo é desenvolvido com extrema
preocupação de mostrar a personalidade do padre. São explorados aqui todos os
seus dilemas antes e depois da estranha patologia que o acomete. Veremos como o
padre resolve manter suas regras morais rígidas mesmo após a doença, escolhendo
por saciar sua sede das formas mais inofensivas possíveis. Teremos um longo
tempo até o desenvolvimento da trama principal. Porém, toda essa lentidão é
essencial para a absorção da parte mais empolgante do filme.

O ritmo
começa a se acelerar depois de um pouco mais de uma hora de filme, mostrando o
padre perdendo o controle sobre seus meios de adquirir sangue. O homem ainda
tem que lidar com a afloração de sua sexualidade, consumando sua relação Tae-ju, esposa
de um conhecido. O padre, apesar de todos seus novos “poderes”, conserva uma
ingenuidade em sua personalidade, sofrendo com toda a malícia de Tae-ju.
A forma como
se desenrola o relacionamento entre os dois é o que dá verdadeira substância ao
filme. Ignorando todos os seus ideais religiosos, o padre se entrega a uma
rotina de perversão com sua parceira. E é em determinado ponto dessa perversão
que o filme começa a aumentar seu ritmo, passando a ficar quase que frenético
nos seus 40 minutos finais.

Tudo o que o
filme construiu começa a ser demolido, onde entraremos em uma rotina de
perseguições e mortes. O filme acaba por modificar completamente a atmosfera
criada antes, para apresentar ao público uma outra, muito mais atraente. Vale
destacar uma cena fantástica da reta final do filme, dentro de uma casa, que
levará o espectador diretamente ao clássico ‘O Massacre da Serra
Elétrica’(1974).
A direção de
Chan-wook Park é boa, apesar de não chegar nem perto de seus melhores
trabalhos. Park acaba por colocar uma quantidade demasiada de cenas em que os
efeitos visuais são necessários. Isso não seria um problema se eles não fossem
tão limitados. O diretor poderia facilmente suprimir várias cenas com os
efeitos sem perder nada da trama. Porém, os equívocos param por aí. O coreano é
ousado, usando uma câmera que se move atrás da melhor tomada. O uso do sexo,
algo recorrente em toda a filmografia do diretor, atua por dar o tom de
proibição ao filme.

Já adentrando
aos campos da trilha sonora e fotografia, teremos aqui também a realização de
um bom trabalho. Realizada pelo experiente Yeong-wook Jo,
a trilha sonora segue o tradicional caminho trilhado pelo compositor nos filmes
anteriores do Park, entregando ao filme um ar mais carregado de adrenalina
mesmo nos momentos mais calmos. A fotografia, comandada por Chung-hoon Chung,
consegue captar a sensação de paranoia presente na atmosfera do filme pelos
olhos do padre, mostrando a cada enquadramento o quanto a vida daquele sujeito
está uma completa bagunça. As ressalvas são feitas ao seu tom acinzentado que
acaba dando um ar muito poluído ao filme nas cenas realizadas em ambientes
externos.

O elenco está
muito bem dirigido pelo diretor no filme. Aqui todas as peças mostradas tem
alguma importância para o desmembramento da trama e conseguem entrar nos
personagens que o roteiro lhes oferece. Indo as camadas mais importantes das
atuações encontraremos o “affair” do padre, interpretada por Ok-bin Kim.
Kim entrega ao filme uma atuação extremamente concisa, sendo essencial para a
absorção do que a história tem a contar pelo espectador. Demonstrando sempre
uma perversidade em seus gestos, a atriz consegue nos convencer que estamos
diante de uma pessoa perigosa e pouco maleável. Já como protagonista o filme
tem a oportunidade de ter o incrível Kang-ho Song. Qualquer análise que possamos fazer das interpretações de Song podem
soar superficiais em detrimento da qualidade do ator. Song consegue trazer ao
personagem um homem calmo, demasiadamente comedido em suas atitudes, passando
com um simples olhar ou expressão facial toda uma mensagem ali inserida.
‘Sede de
Sangue’ segue toda a estranheza contida no filme que o antecede na filmografia
do diretor coreano. Assim como em ‘Eu Sou Um Cyborg, e Daí?’(2006), Park traz
ao espectador um filme completamente surreal, aproveitando do aspecto bizarro
para pontuar uma ideia. Junte a isso um tema fascinante, atuações precisas e
uma direção competente e teremos um baita entretenimento de qualidade.
Nota CI: 6,8 Nota IMDB: 7,1
Filmografia:
SEDE de
Sangue. Direção: Chan-wook Park. 2009. 133 min. Título Original: Bakjwi.
EU Sou Um
Cyborg, e Daí?. Direção: Chan-wook Park. 2006. 105 min. Título Original: Ssa-i-bo-geu-ji-man-gwen-chan-a.
MASSACRE da
Serra Elétrica, O. Direção: Tobe Hooper. 1974. 83 min. Título Original: The Texas Chain Saw Massacre.

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