Crítica: ‘Senhores do Crime’(2007), de David Cronenberg

Utilizando um roteiro bem construído, ‘Senhores do Crime’ vai nos trazer um embate entre ingenuidade e maturidade exposta nos dois personagens principais. David Cronenberg entrega um filme frio, que utiliza da violência gráfica em algumas cenas para martelar alguma ideia na constituição da obra. Junte isso a um ator na atuação de sua carreira e você terá um filme memorável.

A história, escrita por Steven Knight, vai nos trazer o estranho relacionamento que surge entre Nikolai e Anna e seus desmembramentos nas vidas das pessoas ao seu redor. Anna ganha a vida trabalhando em um hospital de Londres, enquanto Nikolai trabalha como motorista de uma família que pertence à máfia russa. Os dois vão se conhecer após uma jovem morrer e deixar em seu diário, que fica sob o poder de Anna, importantes escritos sobre o que havia acontecido com ela, fazendo a mulher chegar até a origem dos problemas, a família onde Nikolai trabalha, dando início a uma série de situações inesperadas.

O filme se desenvolve, desde seu ponto inicial, através de uma atmosfera fria, onde cada espectro de situação é abordado de uma maneira mais enxuta, não dando muitos detalhes para o espectador confabular ideias sobre as origens dos personagens. Não saberemos o que acaba por motivar Nikolai, ou de onde aquele homem havia saído. Já Anna, utilizando traços mais emocionais em seus gestos, até chega a transparecer alguns detalhes sobre sua vida.

Aos poucos o filme vai entregando pequenos fragmentos essenciais para entendermos o que está regendo os personagens. O brilho do roteiro está exatamente nesse ponto, onde os minutos iniciais da história te levam para uma esfera de pensamento, porém, com o desenvolvimento do filme, são desmembrados pequenos “plot twists” naturais que mudam completamente o rumo do filme.

São muito utilizados pelo filme pequenos momentos de uma violência gráfica exacerbada. Essas cenas incomodam bastante o espectador. São momentos simples, que não fazem um apelo narrativo para projetar um choque no espectador e que usam da naturalidade dos personagens em meio àquilo para passar seu recado. Todo esse incômodo é positivo para adentrarmos na constituição da personalidade de Nikolai.

Nikolai é um homem que aparenta ter sido moldado pelo mundo para agir de forma fria ao lidar com a violência que o cerca. E mais, ele a pratica sem nenhum esboço de emoção. No entanto, Nikolai passa longe de ser um indivíduo alheio ao mundo, ele se compadece das situações que julga erradas e tenta sempre escolher o caminho que ele considere o correto. O homem jamais revela todas as suas motivações, cabe ao espectador preencher o vazio que o filme deixa propositadamente sobre Nikolai.

Ao contrário de Nikolai, um homem experiente e pouco instintivo, Anna é uma pessoa que se baseia nos seus sentimentos para agir sobre o mundo. Ingênua e, por vezes, irracional, a mulher ignora a segurança de sua família para seguir suas pulsões acerca de cada situação. Essa instintividade de Anna encontra em Nikolai seu ponto de equilíbrio, o elemento que falta em sua vida e na constituição de sua pessoa. E o contrário também se aplica. Nikolai vê em Anna a figura que o tira e dá alento mediante toda a sujeira a que está acostumado.

A direção procura nos colocar no interior da vida dos indivíduos tidos como desviantes da nossa sociedade. Teremos um olhar alheio, que não tenta escolher lados ou posicionamentos éticos, sobre um pequeno aspecto de uma família pertencente à máfia russa. Cronenberg utiliza as cenas mais intensas de violência simplesmente para mostrar ao espectador o quanto aquilo é comum para aquelas pessoas, para deixar claro qualquer tipo de ideia que o ótimo roteiro não tenha consolidado. O uso dessa violência por Cronenberg é de suma importância para a construção perfeita que o filme utiliza em seu “plot twist” final.

O elenco do filme é formado por Viggo Mortensen, Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl e Vincent Cassel. Todos aqui estão ótimos em seus personagens, porém os maiores destaques vão para as atuações de Mortensen e Mueller-Stahl. Mueller-Stahl, no personagem de Semyon, consegue passar em seus atos uma sensação de medo aos espectadores em detrimento de toda a sua calma para executar cada ação. Sua atuação é comedida, procurando passar, com sua feição tranquila e ausente de exacerbação, uma crueldade maior em seus crimes. Já Mortensen atinge a melhor atuação de sua já brilhante carreira, utilizando da limitação nos seus atos, algo parecido com o que Mueller-Stahl fez, para passar a sensação de um homem que mede todos os seus passos. Sua atuação lembra bastante, claro que não na mesma perfeição, a de Daniel Day-Lewis em ‘Sangue Negro’(2007), quando usa demasiadamente de suas expressões faciais para passar firmeza em sua performance. Seu rosto passa maturidade, cada traço marcado pelo tempo em sua face é usado para dar substância e humanidade ao seu personagem.

‘Senhores do Crime’ é um ótimo filme. O melhor do diretor no século XXI. A forma como Cronenberg decide contar essa história, sabendo dosar cada elemento na hora de jogá-los em tela, é essencial para o sucesso do filme. Um filme que traz ainda em sua síntese a forma que figuras opostas encontram segurança na companhia do outro.

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