Crítica: ‘O Silêncio do Lago’(1988), de George Sluizer

Utilizando-se da figura do acaso para nortear sua obra, George Sluizer nos entrega aqui o maior trabalho de sua carreira. Um filme que brincará de forma aterradora com elementos cruéis do ser humano e nos mostrará como somos frágeis diante de algumas situações. Uma obra que mostrará o processo simbiótico entre dois indivíduos unidos por um evento isolado. Dois indivíduos unidos inexoravelmente até o final de suas vidas pelo que há de mais natural no ser humano. Uma verdadeira obra-prima em todos os seus aspectos.

Baseado no romance de Tim Krabbé, a história do filme nos coloca, inicialmente, para seguir os passos de Rex e Saskia, um jovem e feliz casal em férias, que, após pararem em um posto de gasolina bastante movimentado durante uma tarde de sol, encontram o momento determinante de suas vidas. Enquanto Rex espera no carro, Saskia sai para comprar algumas coisas em uma loja de conveniência e jamais retorna. É neste ponto que teremos uma verdadeira ebulição de fatos casuais surgindo desse misterioso desaparecimento. Nenhuma explicação é encontrada por Rex,somente o espectador sabe que há um terceiro elemento presente naquele posto, deixando o homem obcecado pelo que teria acontecido naquele dia. O filme se concentrará, durante os seus 107 minutos de duração, nos anos posteriores ao desaparecimento de Saskia, contrastando sempre a figura de Rex com a do terceiro elemento do posto.

O filme escolhe por sempre deixar claro, desde seu primeiro minuto, o clima sombrio que rege a vida dos três personagens centrais do filme. Seu início brincará bastante com uma noção de predestinação e revelará com sua trilha sonora melancólica e contemplativa e a utilização de uma cinematografia fria, que há algo de muito errado permeando aquele ambiente.

Essa questão da predestinação vem à tona quando Saskia revela para Rex um estranho sonho que teria tido e ficado com algum medo. Porém, o que realmente veremos nos minutos seguintes é o acaso que prenderá para sempre os dois jovens com o terceiro elemento do posto de gasolina.

Após o desaparecimento de Saskia, fica claro no jovem todo um desespero. Essa cena do posto é muito bem construída. Teremos várias vertentes diferentes e olhares alheios que despertam suspeitas. 

Após se dar conta que sua namorada havia desaparecido, esse desespero transcorre até o espectador. Todo indivíduo presente no lugar acaba se tornando um suspeito em potencial. Procuramos, assim como Rex, entender o que estaria acontecendo no lugar, procurando pistas por todas as composições de enquadramentos utilizados por Sluizer.

No entanto, diferente de Rex, logo após essa cena, teremos um esboço do que teria acontecido naquele dia. O terceiro elemento do posto, um homem chamado Raymond Lemorne, tem seu cotidiano destrinchado diante do espectador. É nesse momento que a direção de Sluizer constitui seu maior acerto.

Sluizer fará uma experiência com o ordenamento do tempo presente no filme. A história, até então cronológica, sofre um lapso após a cena do posto, retornando meses, talvez anos, para a vida de Raymond antes do evento. E esses lapsos vão se repetir por mais algumas vezes no decorrer do filme, seja para Rex lembrar detalhes sobre seus dias com Saskia ou para nos colocar novamente no posto, naquele fatídico dia, mas agora com outro olhar.

Esse primeiro retorno para um passado não tão distante, mostrando a vida de Raymond, responsável para o desaparecimento de Saskia, nos ajudará a entender o que provavelmente teria acontecido naquele posto. Sua vida pacata é esmiuçada. Entraremos na pele de um homem bem-sucedido, pai de família e um marido exemplar. Um indivíduo calmo, inteligente e muito articulado. No entanto, essa é somente a camada externa de Raymond. O homem nutre em sua essência uma vontade de se destacar perante o mundo. Em um primeiro momento ficamos confusos, não sabemos se ali se encontra um psicopata ou se teria sido um evento isolado.

Conforme o filme avança um pouco, teremos a clara sensação que Raymond é na verdade um sociopata. O homem rege seus passos unicamente para seu próprio benefício. Todas as suas relações pessoais, seja com mulher ou filhas, são sempre com um objetivo particular, para ganhar algo com aquilo. Seus passos são estudados, sentimentos alheios são completamente ignorados para o homem atingir seu objetivo pessoal. Raymond atua sobre o mundo, mas jamais deixa com que este faça o mesmo sobre ele.

Junto com os passos do homem, o acaso novamente faz seus estragos no filme. Veremos uma sucessão de eventos improváveis que culminarão na presença de Raymond no posto de gasolina naquela tarde ensolarada. E a ideia de Sluizer, junto com o roteiro, é essa, sempre nos trazer como somos frágeis. É nos trazer como a figura do livre-arbítrio é inexistente nessa relação ser humano/mundo. Isso ficará bem claro nos minutos finais do filme.

Os avanços da trama são mascarados e repetitivos. O filme se apoia quase que exclusivamente em dois eixos para guiar o rumo da história: a relação de Rex de obsessão com aquele dia mesmo anos depois e o sentimento ainda de incompletude em Raymond nesse mesmo período. E esses eixos sofrerão uma junção na reta final da obra, expondo toda a similaridade e familiaridade presente entre Rex e Raymond.

O laço inexorável que une os dois protagonistas do filme é composto pela cena do posto. O interessante aqui é que o filme trabalhará a questão do tempo como uma entidade congelada, imutável depois desse evento. É como se todos os personagens tivessem ficado presos naquele dia, em uma espécie de pesadelo inescapável. O único objetivo dos personagens depois daquele ponto foi reviver o dia, seja em busca de respostas, no caso de Rex, ou pelo puro prazer de uma lembrança satisfatória, no caso de Raymond.

A direção, como dito acima, atuará bastante com os lapsos cronológicos, procurando por deixar o espectador preso em algumas situações do filme. Sluizer também focará em uma direção contemplativa diante de seus personagens centrais, sempre seguidos pela câmera. Também teremos bastante o uso da cor branca em cenas mais simbólicas, contrastando com a fotografia fria de Toni Kuhn. Esse branco será usado sempre que o roteiro foge para um senso de predestinação nos personagens.

Vale destacar um pouco mais da bela trilha sonora. Comandada por Henny Vrienten, ela está presente no filme para que o espectador compartilhe do sentimento de vazio presente nos personagens. Suas composições surgem sempre como fator preponderante para o desencadeamento de determinadas situações subsequentes. Elas nos ajudam a absorver e entender o conteúdo mostrado em tela.

O elenco está longe de se destacar aqui, são atores limitados em suas performances. Entretanto, o trabalho de Sluizer transcorre até sua relação com os atores, fazendo que estes entreguem sempre o seu melhor. Rex e Saskia, interpretados por Gene Bervoets e Johanna ter Steege, se pautam na fraqueza de seus personagens. Suas atuações vão ser sempre regidas por dúvidas e uma insegurança em cada ato. O momento de maior brilho da atuação dos dois vai para um olhar específico de Johanna ter Steege durante determinado momento do filme que martela no espectador qualquer ideia que este ainda não tenha absorvido da história. Porém, o destaque aqui é para o ator que interpreta Raymond, Bernard-Pierre Donnadieu. Donnadieu entrega uma atuação comedida, sem excessos, mas cheia de intensidade. O ator consegue emanar em cada cena um medo, seja nos personagens a sua volta ou nos próprios espectadores.

‘O Silêncio do Lago’ é um filme de suspense fantástico. É o tipo de filme que trará uma sensação de incômodo no espectador ao seu término. Seu conteúdo perturbador fica impregnando em nós. É o típico filme que não acaba conforme sobem os créditos, ele é revisitado por semanas, talvez meses, pelo espectador. Todo o conteúdo que mostra o quanto somos impotentes diante da vida nos fazem questionarmos nosso próprio papel no mundo. E esse é o maior objetivo que um filme deve possuir: sempre trazer perguntas para seu espectador tentar responder e ponderar sobre elas.

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