Crítica: ‘Um Método Perigoso’(2011), de David Cronenberg

David Cronenberg adentra em um campo rústico, problemático e, inquestionavelmente, atraente. Decidir trazer para as telas alguns fragmentos de uma das mais importantes parcerias da história da psicologia é uma coisa bastante difícil. Biografias trazidas ao cinema geralmente ficam insossas ou inverossímeis. É extremamente difícil contar algo verídico e interessante ao mesmo tempo. Bom, aqui, em ‘Um Método Perigoso’, isso passa longe de se tornar realidade. Um filme interessante do primeiro ao último minuto. Veremos relações profissionais e pessoais se entrelaçando, teorias levantadas e levemente aprofundadas, características pessoais trazidas à tona e, até mesmo, desgostos levados para a vida inteira.

A trama do filme vai trazer os passos de Carl Jung mediante o campo da psicologia. Veremos inicialmente suas aspirações profissionais aflorarem, uma atração irredutível pela figura de Sigmund Freud surgir em virtude dos preceitos postulados pelo austríaco e o surgimento de uma paciente que traz em sua essência mais do que revelava a priori. Durante os 99 minutos de duração do filme veremos diversos momentos da vida dos três elementos principais do filme(Jung, Freud e Sabina Spielrein) mostrados de uma forma superficial, mas extremamente acurada.

O filme seguirá uma linha atmosférica já tradicional de obras biográficas para contar a história, sempre prezando por um ar contemplativo diante dos protagonistas. Diferente do que o diretor se acostumou a fazer, aqui não teremos um início que evoca mistério ou confusão no espectador. Tudo aqui é contado de uma maneira bem cadenciada e linear. Cronenberg até tenta colocar pequenos trechos que possam gerar algum tipo de choque em quem assiste, utilizando de uma carga sexual intensa. Essa tentativa não traz choque ao espectador, mas são justificadas e necessárias para trazer peso ao filme.

Esse início servirá para destrinchar diante de nós o desenvolvimento da relação, até aqui, profissional, como médico/paciente, com a inicialmente histérica Sabina Spielrein. Entraremos também na vida pessoal de Jung, vendo seus problemas matrimoniais crescendo aos poucos. E, por fim, todo um incômodo de Jung com os rumos de sua carreira, até decidir alterar completamente seu caminho.

Jung acaba vendo em Sabina um ponto onde se apoiar no momento que decide fazer uso de um método Freudiano para tentar curar a mulher. Logo com essa segurança e com a recuperação gradual de Sabina, Jung transpõe a relação profissional com a mulher e passa a nutrir por ela um desejo maior. E é nesse ponto que o filme acaba ganhando força e se encaminha para os desnivelamentos da relação “proibida” dos dois.

A substância da relação dos dois é tida por uma espécie de transvaloração de valores, atingindo níveis fetichistas, onde o masoquismo, algo muito comum à vida de Sabine, ganha força. Esse envolvimento entre os dois acaba, de certa forma, ajudando a vida pessoal de Jung. A relação com sua esposa melhora e sua vida profissional finalmente acaba entrando no caminho que ele desejava.

O relacionamento de Jung com Freud é contado de uma maneira bem ponderada pelo filme. É contado aqui o começo da relação dos dois, através do contato por carta, a união repentina e paternal de Freud com o pupilo e a derrocada do bom convívio entre eles. O misticismo surgido em Jung e a eclosão da descoberta de seu relacionamento com Sabina são citados por Freud posteriormente no filme como as razões preponderantes para o fim do relacionamento de amizade.

A reta final do filme traz a nós indivíduos mais maduros e ressentidos sobre os desfechos de todas as relações expostas no filme. O filme acaba ficando levemente apressado em algumas tomadas de decisões e se rende a alguns clichês do gênero nos últimos minutos. Mas nada que venha comprometer algo do que foi criado.

A direção de David Cronenberg é sutil na maior parte do filme, prezando por planos mais abrangentes, pegando toda uma completude dos ambientes explorados, sempre com a fotografia belíssima de Peter Suschitzky. Cronenberg ainda se apropria da qualidade da trilha sonora de Howard Shore para delegar a ela o trabalho de evocar determinados sentimentos no espectador nas cenas mais densas.

O elenco do filme conta com um trio de peso para viver personagens tão complexos. Michael Fassbender, Viggo Mortensen e Keira Knightley são os responsáveis por viver Carl Jung, Sigmundo Freud e Sabina Spielrein, respectivamente. Fassbender e Mortensen estão simplesmente impecáveis. Não há espaço para nenhum tipo de ressalva, cada gesto, olhar e expressão facial são regidos por uma intensidade inerente aos atores. Fassbender tem uma atuação mais impetuosa, sendo guiado muitas vezes por comportamentos confusos. Já Mortensen reflete toda a calma e segurança de seu personagem histórico para consumar sua atuação. O ponto de desequilíbrio do filme surge em Knightley e sua performance extremamente exagerada. A atriz exacerba todo tipo de diálogo em que participa. Gritos e gesticulações demasiados atrapalham o andamento da história, assim como incomodam o espectador. O único ponto inverossímil do filme é a caracterização da atriz em sua personagem.

‘Um Método Perigoso’ é um ótimo filme. Seu ritmo contínuo e seu roteiro bem construído faz com que o filme abra mão de uma edição enérgica para dar agilidade à história como é comum e necessário em biografias. Trazer dois dos melhores atores deste século somente ajuda a dar peso e seriedade a essa obra. Um filme leve e fácil de ser digerido que serve como uma boa porta de entrada no universo que permeia esses dois grandes nomes do século XX.

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