Crítica: ‘A Hora da Zona Morta’(1983), de David Cronenberg

David Cronenberg traz aqui uma direção comedida, sem os excessos característicos de sua filmografia, nos colocando para acompanhar os dolorosos passos de um personagem envolto a uma realidade não desejada. ‘A Hora da Zona Morta’ ainda nos apresentará um conceito espectral de vida, a questão de tempo como algo solidificado e intransigente, os pesos intrínsecos que cada escolha acarreta na vida humana e uma trama que deixa de lado um ponto fixo, para desvanecer-se em várias camadas. O filme ainda se aproveita de uma trilha sonora magnífica para criar toda a densidade de sua atmosfera.

A trama, baseada no romance de Stephen King, nos colocará para seguir os passos de Johnny Smith, que, após sofrer um acidente e ficar vários anos em coma, desperta de seu sono em um mundo completamente alterado e com um estranho poder paranormal de prever o futuro ao passo que toca as pessoas. O filme irá se concentrar nessa nova vida de Johnny, com a figura do tempo perdido e a tentativa de lidar com sua nova habilidade. Conflitos surgirão e o protagonista ponderará sobre inúmeras questões éticas e, principalmente, morais para reger seu comportamento sobre o mundo. E, como qualquer grande elemento que causa diferenciação dos demais, surgem às consequências, e, no caso de Johnny, elas sempre serão mais duras.

O início do filme é veloz e vai direto ao ponto crucial de desenvolvimento. Cronenberg precisa de poucos minutos para nos colocar a par dos passos prévios de Johnny pré-acidente e seu súbito despertar do coma alguns anos mais tarde. Apesar de efêmeras, as cenas e toda a composição de diálogos são o necessário para fazermos um apanhado sobre a vida do indivíduo e seus próximos passos.

Conforme avança, veremos, pouco a pouco, o conceito de vida espectral surgir em Johnny. Os anos desconectados do mundo acabaram por ter um peso demasiado, o homem agora não consegue criar um vínculo com nada. Johnny perde sua namorada, vê seus pais envelhecerem, sua juventude lhe é usurpada e sua saúde agora se faz precária. Todos esses pontos fazem com que o homem aja como uma espécie de fantasma, vendo a vida ocorrer diante de seus olhos, mas jamais podendo participar dela. É neste ponto que veremos a crueldade das escolhas esmiuçadas pelo filme.

Johnny é obrigado pela vida a fazer determinadas escolhas, aparentemente simples, que acabarão por definir todos os seus passos mediante o ambiente em que vive. Em um primeiro momento, embasado apenas sua própria vida e, em um segundo momento, relativizando sobre um enorme emaranhado de pessoas. O homem pode seguir para qualquer caminho, mas, inabalavelmente, é condenado a escolher uma opção. A possibilidade de não agir sobre algo é inexistente.

O filme, durante toda sua execução, apresenta o tempo como uma estrutura congelada. Imutável, veremos exposto, principalmente pela figura do protagonista, dias, meses e anos se passarem sem o ambiente sofrer alteração. A questão do coma que Johnny enfrenta explicita isso de uma forma bem clara.

Os avanços do filme, apesar de sua velocidade habitual bem utilizada, são cadenciados. São apresentados vários pequenos fragmentos de determinados conflitos, sem a necessidade intermitente de nos alocarmos em um ponto fixo onde tudo resultará. Essa decisão do diretor resulta uma obra que tratará cada período da vida do protagonista com o mesmo peso.

A direção de David Cronenberg é comedida, sem a inserção de cenas mais pesadas do que o roteiro sugere e um balanceamento assertivo sobre o tempo disposto em cada cena. Os planos de Cronenberg sempre tentarão evocar o que há de melhor em seus atores, principalmente de seu talentoso protagonista. A criação da atmosfera também é algo que fica em evidência no filme, com cenários gélidos e estruturas decadentes e retrógradas. Esse ótimo trabalho na criação da atmosfera se completa com a trilha sonora.

Comandada por Michael Kamen, cada composição inserida nessa trilha sonora vai trabalhar por transpor ao espectador a clima dos ambientes explorados e, mais especificamente, dos aspectos psicológicos de Johnny. Essa trilha vai evocar mistério a cada subtrama superada, elencando no público um senso de antecipação pelo que será mostrado nos quadros seguintes. Também teremos sempre as composições presentes aqui emanando um ar triste e melancólico acerca de tudo que permeia o filme.

O elenco conta com bons nomes que acabam desempenhando atuações convincentes e que conseguem dar um ar verossímil necessário ao que é mostrado a cada cena. Como Cronenberg se vale de um estilo de direção amparado por uma grande exposição dos atores, era essencial que elas entregassem performances positivas para o filme. Teremos nomes como Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom e Martin Sheen, todos impecáveis em suas propostas. O papel central da trama, no entanto, é de Christopher Walken. Walken guia o filme com maestria. Cada fragmento de cena que o ator está presente é constituído por uma atuação forte, com sua habitual fala mansa, com aquele seu tom rouco, e gestos atabalhoados, que reverberam sobre o ambiente.

‘A Hora da Zona Morta’ é um suspense cheio de nuances que atuarão por dar um peso filosófico aos dramas do personagem principal. Um filme regido em um ritmo único, que sempre preservará uma substância triste, como a trilha sonora sugere. Seu diretor, David Cronenberg, sabe exatamente o que o roteiro adaptado de Jeffrey Boam lhe propõe, e isso é, talvez, o maior acerto do canadense.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *