Crítica: ‘Adaptação’(2002), de Spike Jonze

Escolhendo por transmitir ao espectador toda a grande variedade de comportamentos inábeis de um personagem em uma jornada errática pelo mundo, ‘Adaptação’ consegue obter êxito ao guiar seus objetivos. Seu diretor, Spike Jonze, despreza a qualidade estética de suas cenas, a fim de destrinchar os caminhos tortuosos que o filme decide seguir. O filme ainda seguirá a noção de similaridade com o espectador na forma que o personagem exibe seus comportamentos, vai transpor uma inabilidade social de diversos indivíduos e fará um contraponto familiar sobre anseios que jamais podem ser concluídos.

A trama segue os passos de um roteirista que, após ser incumbido da missão de adaptar para o cinema um livro de sucesso, encontra-se inserido em um misto de inabilidade social ao lidar com as pessoas e uma inveja no contato familiar com seu irmão. O filme ganhará sua dinamicidade quando o homem acaba por descobrir que a autora do livro que ele tem que adaptar escondia alguns segredos.

O início do filme atua por alocar o espectador em toda a estranheza e desconforto que guia a vida psicológica do personagem principal. Aqui, teremos uma grande gama de cenas aleatórias, de histórias diferentes e imagens reais, todas exacerbadas, que fazem o paralelo com a intensidade errática que o homem passa em um simples jantar com uma produtora de cinema. Essa inabilidade em lidar com fatores comuns a vida em sociedade também é explicitada quando o personagem conversa com uma mulher que gosta, sendo incapaz de demonstrar seus afetos de uma forma palpável.

Todo o padrão de comportamentos demonstrados pelo homem na parte inicial serve, também, para trazer similaridade ao espectador, fazendo este se sentir parte de algumas situações empregadas. Essa similaridade é possível pela ótima decisão do roteiro de utilizar uma figura narrativa do próprio personagem sobre seus dramas, expondo de forma leve toda a forma do homem pensar. E é aqui que somos apresentados à figura do irmão do protagonista.

Representando tudo o que o personagem central não possui, o irmão em questão, também roteirista, se move de uma forma fácil sobre o cotidiano. Dinheiro, ideias criativas, desembaraço social e o fácil convívio com mulheres tornam o homem um contraponto a tudo que seu irmão possui em sua vida. Esse irmão de “sucesso”, nos amparando no âmbito simbólico, emana toda uma boa construção de seu aparato psicológico, com diferentes instâncias de seu pensamento agindo de forma saudável, apesar de pender para o lado dos instintos primitivos.

Id do sujeito, aquela instância do construto psíquico responsável pelos atos e vontades relacionados ao sexo, pulsões instintivas, violência e o desejo de aqui e agora, é mais evidente, tendo um maior poder sobre seu Ego. Já no personagem principal, esse Id é praticamente inexistente, mal desenvolvido, fazendo com que seu Ego seja subjugado por um Superego, instância responsável pelas construções morais e éticas do sujeito, patológico e irredutível. Essas diferenças psicológicas dos irmãos são preponderantes para os desnivelamentos finais do filme.

Os momentos finais do filme servem para desconstruir as noções básicas construídas pelo personagem central durante o filme. Cada consequência de determinados atos servirão para afrouxar as amarras que tanto imputavam no homem uma sensação de estar alheio a tudo. As cenas mais intensas do filme, apesar de trazerem dor ao personagem, também se guiam como soluções catárticas encontradas pelo simples acaso.

Adentrando ao campo na direção, veremos um trabalho conciso de Spike Jonze. Jonze, muito diferente do maior filme de sua carreira, o aclamado ‘Ela’(2013), descarta uma construção mais estética de seus planos. Aqui, todas as cenas seguem um padrão esquizofrênico, onde alterará entre ângulos pouco aprazíveis e uma conjectura de cenários que prezam pela exposição de uma atmosfera suja e desconexa, sempre se pautando na fotografia escura de Lance Acord. Essas construções de cenas servem como uma espécie de mapa interno da psique em completo estado de confusão do protagonista.

O elenco do filme é positivo para a dinamicidade da história. Temos, nos papéis secundários, as presenças de Meryl Streep e Chris Cooper, empregando atuações medianas, mais movimentadas do que o habitual nas filmografias de ambos. Nos personagens principais teremos Nicolas Cage, que se divide, interpretando os dois irmãos. Cage propicia uma atuação soberba nos dois personagens, conseguindo evidenciar todas as diferenças presentes nos irmãos, fazendo o espectador quase acreditar que ali se encontram dois atores diferentes.

Diferente da grande maioria dos filmes, ‘Adaptação’ escolhe por desmembrar, durante os seus 114 minutos, as construções psicológicas erráticas de seu protagonista, mostrando um personagem único. A experiência de assistir a obra não traz ao espectador um grande prazer, mas faz com que este reflita sobre os temas expostos. Um bom filme em sua constituição integral, entregando uma direção competente, atuações positivas e um roteiro conciso e pontual em suas investidas.

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