Crítica: ‘Tony Manero’(2008), de Pablo Larraín

Aproveitando-se de um estilo direcional frio e um roteiro cadenciado, o filme nos apresenta a história de um homem sem escrúpulos, guiado unicamente por seus impulsos mais primitivos. ‘Tony Manero’ é uma obra sobre as exacerbações que uma sociedade vivendo em um período turbulento pode causar na vida de todos os envolvidos. O filme ainda trabalhará com diversos conceitos, como o sentido subjetivo de uma vida, a desconstrução da moralidade social, a noção de criatividade inserida no ser humano e a apresentação da definição psicanalítica sobre os instintos.

A trama conta a história de um homem, em meio à ditadura no Chile, no final da década de 1970, que se encontra completamente obcecado pelo personagem principal do filme ‘Os Embalos de Sábado à Noite’. O homem se veste como o personagem do filme, procura concursos de imitação e, em seus contatos sociais comuns, procura sempre arquitetar um show em um pequeno bar para uma apresentação. No geral, tudo vai bem, o personagem parece ser tranquilo e basear-se em um senso altruísta. No entanto, o andamento da obra nos revelará o oposto.

O início do filme é bastante cadenciado, explicando todos os nuances do personagem central. Aqui, não teremos uma quantidade normal de diálogos empreendidos pelo protagonista, ao contrário do resto dos personagens. Tudo que teremos para decifrar os enigmas no homem são suas atitudes. Essa fase inicial trabalha por, de certa forma, enganar o espectador, projetando uma definição apenas provisória da personalidade do homem.

O homem parece não ter um bom nível de escolaridade, recorrendo unicamente a resoluções empíricas para determinadas situações. Essa limitação, no entanto, evoca algo a mais no homem, fazendo-o despertar seu senso criativo que sempre nutre suas necessidades. Mas é por meio desse senso criativo que começamos a ter um panorama geral do que compreende a personalidade do homem.

Veremos o filme mudar sua forma, exposta nos 20 minutos iniciais, trazendo um homem completamente sem escrúpulos, capaz de aderir ao que for preciso para concluir seu objetivo. E, neste ponto, ficamos frente a um questionamento do filme sobre os padrões morais inseridos em uma sociedade tradicional que o personagem trabalha por desconstruir.

Novos modelos morais são exercidos pelo homem. Se matar, roubar e chantagear outras pessoas são tidos como ruins ou ilegais para o senso social, aqui o personagem apresenta seu próprio ponto de vista sobre o assunto. Tudo é permitido para ele. O personagem encara o mundo como uma luta entre diversas forças, querendo sempre o mesmo, onde o mais forte e adaptado sobrevive. Essa visão funciona para o homem, e seus comportamentos são sempre reforçados, criando, dessa forma, hábitos e rotinas solidificadas.

É importante trazer que esse novo padrão de moralidade dada pelo personagem não implica somente no surgimento de características ruins. Veremos, claramente, surgir um senso de subjetividade no indivíduo. O mundo e o sentido da vida visto como algo pessoal, completamente alocado no cerne do indivíduo, desprezando o consenso social que diz o que necessitamos para uma vida de qualidade. E o “parto” de todas essas ideias e comportamentos do homem parecem ser oriundos de um aparato psicológico desequilibrado.

Essa forma instintiva, puramente regida pelo princípio de prazer, buscando de todas as formas satisfazer suas mais diversas pulsões, são oriundas de um Id muito exacerbado, quando procuramos olhar o personagem pela concepção psicanalítica. O ego do homem parece atender unicamente as demandas desse Id, aparentando ter um superego precário e mal desenvolvido. Regras e morais não parecem estar fixadas no construto psicológico do personagem, promovendo uma completa alienação desse superego.

A reta final da obra ainda mostra uma degeneração mais acentuada do comportamento do homem. Rivais em sua própria residência, a saída de cartaz do filme em que é obcecado e os olhares, agora mais cuidadosos, das pessoas com quem convive provocam no personagem uma dúvida e, assim como um animal encurralado, ele ataca para consumar sua própria defesa.

A direção do chileno Pablo Larraín preza por sempre capturar os atos do personagem de uma forma crua, quase voyeur. Assim como as pessoas com quem convive, a câmera parece ter medo do que o personagem é capaz de fazer, alocando-se sob as sombras para fazer seu trabalho. Larraín também faz um bom uso do silêncio do personagem, trazendo cenas onde suas palavras somente atrapalhariam a compreensão do que está acontecendo por parte do espectador.

Adentrando ao campo das atuações, temos na interpretação do protagonista algo que influencia muito no sucesso da obra. Alfredo Castro consegue nos propiciar uma atuação de extrema qualidade. Aqui, o ator irá pautar-se unicamente por gestos calmos e olhares agressivos para reger sua interpretação. Dando substância ao seu personagem, Castro ainda consegue impactar o espectador a cada cena ultrapassada.

Tony Manero’ é uma pérola do cinema chileno. Um filme que consegue, à base de verdadeiras marteladas, questionar um senso social que ignora a subjetividade do indivíduo. Também teremos uma crítica a um espaço de tempo, no caso a ditadura chilena da época, que trabalha por desconstruir a tudo e a todos. No entanto, a obra alça voos maiores, entregando um personagem cheio de facetas, que encara o mundo como seu próprio parque de diversões. A obra de Pablo Larraín não é algo para ser vista somente por uma vez. Aqui, o espectador tem a necessidade de revisitar o filme várias vezes para poder captar todo o compêndio de elementos que o rege.

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