Crítica: ‘O Homem Invisível’(1933), de James Whale

Oriundo de uma década produtiva para o gênero de horror no cinema, ‘O Homem Invisível’ apresenta uma trama bem trabalhada, com uma construção cautelosa de seu protagonista, para conseguir reger toda a densidade da sua proposta de explicitar a figura destrutiva da fome pelo poder do ser humano. Um filme curto, mas extremamente pontual em suas investidas.

Baseado no romance de H.G. Wells, a trama apresenta a história de Jack Griffin, um cientista dedicado por novas descobertas, que se encontra bastante otimista com seu último projeto. A história ganhará força quando o projeto científico de Griffin o torna invisível, lhe propiciando novas formas de reconhecimento e poder, mas também afetando seu aparato psicológico, lhe legando um processo degenerativo inexorável.

A parte inicial do filme, apesar de possuir uma introdução veloz do personagem central, entrega informações ao espectador de forma bastante condensada. Toda a atmosfera da obra é regida em cima do personagem central do cientista, onde personagens secundários são pouco explorados. Em virtude disso, cada elemento disponibilizado pelo filme acaba sendo relevante apenas para a construção de um quebra-cabeça acerca das motivações do personagem.

Os nuances da personalidade de Griffin são estudados. Andando sempre com roupas que escondam sua nova “patologia”, o personagem acaba tendo seu vínculo social parcialmente comprometido. Entenderemos, conforme avançamos gradualmente pela trama, como o homem acaba agindo de maneira intempestiva com seu meio social, dispensando um padrão de superioridade no contato com outros indivíduos. Outra figura entregue pela trama é a da obsessão que permeia Griffin.

Essa obsessão, exposta mesmo antes de adquirir sua invisibilidade, age como força propulsora para cada tomada de decisão futura do personagem. Aqui, sua sede por reconhecimento o faz romper com amarras morais, lhe outorgando um novo padrão de agir sobre o mundo. Cada indivíduo que, de alguma forma, ofereça perigo ao homem tem sua vida ceifada. Griffin acaba nutrindo um sentimento de onipotência em relação ao seu meio, chegando a conseguir derrotar uma vizinhança inteira por mero capricho.

Conforme avançamos para a reta final do filme, os desnivelamentos da trama passam a ficar um pouco apressados, desprezando a boa construção de outrora. Até mesmo por sua curta duração (apenas 71 minutos), o filme passa a entregar unicamente cenas de ação, não há espaço para uma síntese de cenas mais trabalhadas. No entanto, essa queda de qualidade não tira o brilho do filme.

Comandado pelo lendário diretor James Whale, o filme consegue apresentar uma trama concisa utilizando poucas locações. Whale consegue dar dinamicidade às cenas mais intensas unicamente com movimentos de câmera mais frenéticos, como a perseguição alocada no hotel onde o personagem se refugia. O diretor também consegue emanar uma loucura ascendente em cada ato do personagem somente com enquadramentos densos, mostrando a face exacerbada do homem, não fazendo o uso de palavras.

Adentrando ao campo do elenco, como já dito acima, há espaço substancial somente para o protagonista, comandado pelo ator Claude Rains. No entanto, mesmo Rains acaba tendo sua atuação sobrepujada, obviamente, pela proposta do filme, onde suas aparições em tela do personagem acabam se norteando por grandes casacos e o rosto completamente enfaixado. Ainda participam do elenco, vale citar, a atriz Gloria Stuart e o ator William Harrigan.

As adaptações do icônico personagem do romance de H.G. Wells foram várias, desde séries até filmes feitos para a televisão, no entanto, é aqui que temos o primeiro (quando falamos na questão de longa-metragem, porque temos um curta de 1909 que se baseia no romance) e melhor trabalho de ‘O Homem Invisível’ (filme que ainda ganharia mais duas sequências de menor qualidade). Um filme que traz o que há de melhor da década, expondo um bom roteiro e uma direção extremamente bem conduzida.

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