Crítica: ‘Rejeitados Pelo Diabo’(2005), de Rob Zombie

No filme mais popular de sua carreira, Rob Zombie entrega ao espectador uma história interessante sobre alguns fragmentos das vidas de uma família de serial killers. Alocando-se mais no gênero de ação e crime do que, propriamente, no terror, o filme, apesar da superficialidade de algumas partes do roteiro, acaba elevando conceitos interessantes, como a noção de violência como algo natural na vida humana, o homem visto como algo primitivo, o senso de humanização de personagens erráticos e ainda teremos os limites morais do espectador sendo testados. ‘Rejeitados Pelo Diabo’, que bebe muito da fonte de alguns ícones do gênero da década de 1990, acaba se fazendo um bom filme.

Servindo de sequência para o filme ‘A Casa dos 1000 Corpos’(2003), a trama nos traz os membros de uma família de serial killers que, após serem descobertos pela polícia, iniciam uma fuga incessante, saindo da residência onde fizeram várias vítimas. O filme concentra os seus 107 minutos de duração explorando os passos de alguns membros dessa família na tentativa de manter suas liberdades, mesmo que tenham que exterminar qualquer coisa que veem pela frente.

O filme inicia com a proposta de ambientar o espectador sobre sua dinâmica. Aqui, veremos sempre a utilização de uma atmosfera movimentada para seguir cada conflito da trama. Assim como seus personagens, o filme tenta emanar a cada cena uma loucura e incongruência acerca de cada decisão. E, logo de início, teremos uma obra que não esconde seu material fonte para guiar a história.

Seguiremos muito do que ‘Um Drink no Inferno’ utilizou quase dez anos antes, evidenciando uma atmosfera bastante quente, um humor latente em cada cena mais exacerbada, mesmo que essa tenha um grau de violência demasiado, e explorando a ingenuidade das partes inseridas, seja as vítimas ou, até mesmo, os criminosos. No entanto, o grande material utilizado aqui é o de ‘Assassinos Por Natureza’. Rob Zombie utiliza-se de praticamente tudo o que Oliver Stone se valeu em seu filme. Personagens espalhafatosos, a utilização do cerco midiático para ambientar o espectador sobre a história dos envolvidos, a utilização de planos frenéticos, o senso quase documental e a figura de um contraponto que deseja, a qualquer custo, encerrar a trilha de sangue dos bandidos são idênticas às concebidas por Stone em seu filme. Vale, no entanto, ressaltar que essa quase cópia do material do filme de Oliver Stone passa longe de ser algo prejudicial.

Toda a violência em demasia trazida pelo filme a cada cena acaba servindo para impregnar o tema como algo natural e banal para os envolvidos. Tão comum quanto ir a um restaurante ou fazer um compra num supermercado, aqui a violência adentra ao campo da simplicidade ou, até mesmo, da necessidade de ser empreendida para a sobrevivência do indivíduo, expondo uma visão arcaica de homem. Em seu estado mais primitivo, ausente de qualquer aparato social, o ser humano é visto como um animal em sua síntese, reagindo de forma exacerbada a qualquer estímulo minimamente desconhecido, sempre amparado em comportamentos conhecidos.

Existe, também, uma provocação emitida pelo filme ao espectador, questionando até onde vão os seus limites morais para cada desnivelamento da trama. Em cenas pesadas, seja na questão gráfica ou, propriamente, por seu conteúdo implícito, o filme, sempre atenuando cada situação com o uso do lado cômico, investiga as construções morais e éticas tidas por seu público.

Conforme avançamos, as resoluções do roteiro acabam ficando cada vez mais simples e previsíveis. Já na reta final, temos o conceito de vingança desmembrado. Os personagens acabam trocando de lugar, mesmo que seja por poucos minutos, dando uma falsa e forçada sensação de justiça a indivíduos antes subjugados. Claro que essa vingança explorada é efêmera e logo as posições na trama voltam para o seu habitual.

Adentrando ao campo da direção, Rob Zombie apresenta um trabalho mediano, pecando, às vezes, em construções rasas de algumas cenas onde uma maior habilidade é requerida. O diretor também opta pela utilização de planos onde os personagens são capturados de uma maneira extremamente próxima, promovendo tomadas quase documentais (como já citado antes). Zombie tem o auxílio de uma fotografia positiva (trabalho de Phil Parmet), utilizando cores quentes, evidenciando a aura escaldante que rege aquele lugar, e dando um panorama mais bizarro para cada personagem, com enquadramentos pouco usuais.

O elenco do filme está surpreendentemente bem, consumando-se como algo fundamental para o sucesso de cada fragmento de cena. Temos Sid HaigBill MoseleySheri Moon Zombie e William Forsythe nos papéis centrais, conseguindo transmitir ao espectador todo o ar de loucura que rege o filme. Todos entregam atuações exageradas, sempre gritando e gesticulando de forma intensa em cada cena, dando um panorama da personalidade de cada personagem e de suas motivações.

‘Rejeitados Pelo Diabo’, mesmo com algumas limitações do roteiro e direção, é, de fato, um bom filme. Apesar de elencar vários conceitos interessantes ao decorrer de sua história, Rob Zombie jamais tenta levar o filme a sério, dando leveza às cenas extremamente pesadas com o uso do humor. O filme termina, em sua cena derradeira, com a execução da música “Free Bird”, criando um senso de humanidade em personagens até então vistos como monstros, consumando todas as ideias propostas durante todo o seu enredo.

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