Crítica: ‘O Samurai Dominante 1 – Musashi Miyamoto’(1954), de Hiroshi Inagaki

Capítulo inicial da saga do personagem Musashi Miyamoto, ‘O Samurai Dominante 1 – Musashi Miyamoto’ apresenta uma história acerca do processo de amadurecimento de um homem, sempre fazendo um contraponto com o espírito social da época em que a trama acontece. Dirigido pelo lendário diretor japonês Hiroshi Inagaki, o filme apresenta seus pontos fracos, como o omissão de elementos importantes da jornada do personagem e o ritmo inconstante, mas que se destaca em trazer uma história envolvente, além de seu carismático e extremamente talentoso protagonista.

A trama do filme, baseada no romance de Eiji Yoshikawa, traz a história de Musashi Miyamoto, um jovem que dispensa um comportamento exacerbado no lugar em que vive, e seu sonho de se tornar um samurai. O filme se norteará durante os seus 93 minutos de projeção destrinchando os passos de Miyamoto nesta busca, expondo os diversos percalços, dores e prazeres do personagem durante a jornada.

Os fragmentos iniciais do filme procuram sempre emanar uma atmosfera de aventura sobre os passos dos personagens centrais, em especial do protagonista. Aqui, sempre prezando por cenas rápidas e pouco trabalhadas conceitualmente no roteiro, o filme procura desenvolver e apresentar o ponto central de sua trama, trabalhando desde o começo por evidenciar que a obra se alocará na busca de um homem por seu sonho de se tornar samurai.

No entanto, são essas tentativas de construções rápidas que perpetuam o maior erro do filme. Há uma tentativa de contar uma grande proporção das vidas dos personagens em somente 93 minutos de filme, ocasionando uma perda de substância em vários pontos da história. Fatores potencialmente irrelevantes para o espectador e no interior da história são suprimidos, no qual o roteiro presume que a mensagem esteja implícita, sem a necessidade de mostrar as cenas. Quando decidimos olhar para a figura geral, essa parte suprimida de história, sem dúvidas, se faz pequena. Porém, no momento em que assistimos ao filme, a falta destes fragmentos acabam ficando evidentes e, de certa forma, diminuindo um pouco a importância que damos aos personagens.

Conforme avançamos sobre o filme, pouco a pouco, ganharemos em dinamicidade, no qual os personagens passam a evoluir, deixando para trás antigos erros e comportamentos danosos. Passaremos a enxergar Miyamoto, nosso protagonista, não mais como um jovem em jornada errática sobre o mundo, mas, agora, como um homem marcado pela vida na construção de seu sonho. As esferas exacerbadas de seu comportamento jamais são completamente sobrepujadas, mas elas acabam por ficar menos lesivas ao indivíduo. O único ponto que, talvez, não diminua com o andamento da história no personagem é sua indissociável vontade de poder intrínseca a sua personalidade. Seu inerente desejo de se elevar perante o mundo. Seu inerente desejo de tornar-se algo grande e contrariar antigas previsões pessimistas de companheiros do vilarejo no qual cresceu.

A reta final do filme somente trabalhará por complementar toda a rápida evolução da trama. Não há espaço para acontecimentos grandiosos, como eventuais batalhas entre os personagens, guiando-se unicamente por cenas calmas, representando toda a chegada a um grau de maturidade em Miyamoto.

Guiando-nos para o campo da direção, veremos o há de mais comum e espetacular no cinema japonês das décadas de 1950 e 1960. Comandada por Hiroshi Inagaki, a direção se pautará em planos sempre densos para evidenciar o cerne dos personagens ou, até mesmo, das batalhas. Inagaki utiliza uma câmera que preza por percorrer todos os cenários disponíveis, conseguindo propiciar um panorama geral ao espectador do compêndio que compreende cada cena.

No elenco, teremos nomes como Mariko OkadaRentarô Mikuni e Kaoru Yachigusa compondo a camada secundária do filme. Esses componentes acabam se fazendo regulares na proposta de cada personagem. O destaque do filme, claro, vai para o ator Toshirô Mifune, protagonizando a obra. Mifune, como é tradicional em seu modelo de atuação na década de 1950, se pauta por uma intensidade inerente em falas, gestos, olhares e comportamentos. O ator acaba, também, tendo uma atuação bastante física no filme, lembrando muito sua atuação em ‘Os Sete Samurais’(1954), estando sempre “elétrico” na maioria das cenas.

Não ficando notabilizado como uma das grandes obras do cinema japonês da década de seu lançamento, ‘O Samurai Dominante 1 – Musashi Miyamoto’, no entanto, consegue abrir de forma acurada a trilogia sobre seu personagem central. Não ausente de erros, o filme tem seu ponto forte na direção habilidosa de Inagaki e na presença sempre impactante de Toshirô Mifune à frente do protagonista. Um filme que, certamente, merece atenção, acabando por cumprir sua proposta.

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