Crítica: ‘Praga’(2006), de Ole Christian Madsen

Propondo uma atmosfera fria e misteriosa para o desenrolar da trama contada, Ole Christian Madsen traz um filme cruel e sem concessões sobre a derrocada às ruínas de um casal. ‘Praga’ fará o paralelo de espectros do passado que ganham vida para atormentar os personagens, trabalhará por desconstruir conceitos trilhados cena após cena e tateará sob os meandros que tangem um casamento. O filme ainda entrega atuações precisas e positivas que tornam a experiência de assisti-lo muito mais aprazível e substancial.

A trama se desenvolve na viagem a Praga de Christoffer e Maja, um casal na faixa dos trinta anos de idade, que devem buscar no local o corpo do pai falecido de um deles (Christoffer) e levá-lo de volta para a Dinamarca. Após chegarem ao local e ficar ciente das obrigações necessárias para levar o corpo para a Dinamarca, o casal sofrerá com a eclosão de segredos que abalarão as estruturas de seu casamento e fará ambos questionarem tudo aquilo que tinham como certo em suas vidas.

O início do filme é lento, bastante cadenciado, explorando o dia a dia do casal logo após chegarem a Praga. Vamos nos concentrar em seus hábitos e costumes, tudo de uma maneira superficial, a fim de podermos compreender todos os nuances que regem os comportamentos dos dois quando juntos. E toda essa abordagem inicial é conduzida abaixo de uma atmosfera fria proposta.

Tudo aqui é construído para expor o distanciamento entre os dois personagens e, até mesmo, fazer o espectador se sentir alheio ao que está acontecendo. A atmosfera fria, o ritmo cadenciado de contar a história e a falta da apresentação de sentimentos reais pelos personagens são pontos centrais para tudo o que a obra irá trazer em seus desnivelamentos. E é aqui que o filme desconstrói todos os parâmetros explicitados em seu começo para elevar uma realidade muito mais dura sobre a síntese dos personagens, em especial do homem.

As máscaras construídas pelo filme são destruídas. Traições são descobertas pelo homem, fazendo o casal quebrar com o padrão de superficialidade outrora tanto repetido. Em contraponto com a descoberta dos segredos de sua esposa, o homem ainda tem que lidar com a eclosão de memórias de um passado doído sobre seu pai por tanto tempo ausente de sua vida. Esse passado age por desorientar o personagem, fazendo-o agir de forma confusa e sem coerência.

A figura de seu casamento em ruínas e as lembranças de seu pai, acabam sofrendo um processo simbiótico aos olhos do personagem. Nada em sua vida se mantém intocável. Tudo aqui é desconstruído. Acusações são feitas, comportamentos são recriminados e as esferas que ainda seguram o casal juntos são rompidas. Tudo isso com a figura de Praga ao fundo.

Aqui, é importante fazermos um paralelo dos rumos do filme, muito parecidos com os construídos décadas antes, no perturbador ‘Possessão’(1981). Os trajetos dos personagens, a atmosfera fria e inóspita proposta pelo filme, a degeneração latente do aparato psicológico dos envolvidos e a figura inexorável do matrimônio são idênticas em ambos os filmes. A diferença aqui é a de ‘Praga’ seguir uma linha mais aprazível, seja gráfica ou, propriamente, na forma do roteiro, enquanto ‘Possessão’ adere às formas mais exacerbadas de conduzir sua história.

A reta final do filme evidencia como o homem segue demonstrando um comportamento distante em meio a tudo, frio, mesmo quando defrontado com situações extremas. Ele opta por internalizar qualquer forma de sentimento, jamais exteriorizando suas emoções. Em contrapartida, a mulher, agora não tão destacada na trama, segue um padrão mais abrangente acerca de seus sentimentos, onde acusa o marido, justamente, de ser ausente no passado. Não temos concessões. Aqui não há sinais de melhora para ambos em nenhum momento da obra, mesmo em seu final, explicitando como certas estruturas de nossa personalidade são, simplesmente, inexoráveis.

Adentrando ao campo da direção, teremos um excelente trabalho efetuado por Ole Christian Madsen. O dinamarquês faz questão de utilizar o clima atmosférico, seja o da própria cidade ou o proposto pelo filme, para dar dinamicidade à obra. Como dito antes, o começo é cadenciado, lento, porém sem jamais se tornar insosso ao espectador. Conforme há a separação e destruição de parte da trama, aí, sim, ganharemos a dinamicidade trilhada pelo diretor. Os planos utilizados são sempre duros, conseguindo expor o compêndio de exacerbações que rege os personagens. E, claro, é aqui que vislumbramos a importância da camada central do elenco para o sucesso do filme.

Teremos Mads Mikkelsen e Stine Stengade à frente da camada frontal de personagens. Stengade, interpretando a personagem de Maja, segue um padrão único de atuação, promovendo sempre a exposição da densidade das situações enfrentadas ao espectador. Já Mikkelsen nos propicia uma atuação simplesmente fantástica. O ator, ajudado com os recorrentes planos fechados, focando em suas expressões diante de determinadas situações, evidencia todo o sentimento de confusão que rege seu personagem, se fazendo sempre alheio ao que acontece e nutrindo incertezas em seus comportamentos.

Praga’ acaba, de fato, se fazendo uma ótima opção no prolífero cinema dinamarquês. Um filme denso, que nutre como síntese de sua atmosfera a emanação de mistério acerca de seus desnivelamentos, expondo toda uma forma errática de agir de duas pessoas atingidas de forma danosa pela simples passagem do tempo. Apesar de curto (apenas 92 minutos de duração), o filme consegue trazer ao espectador uma trama concisa, ausente de clichês do gênero e um cerco de atuações impecáveis.

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