Crítica: ‘Um Retrato de Mulher’(1944), de Fritz Lang

Promovendo uma trama permeada de mistérios e reviravoltas, Fritz Lang traz aqui um filme regular, com alguns equívocos em seus direcionamentos, mas que trabalha com o que há de mais positivo no gênero “noir”. ‘Um Retrato de Mulher’ misturará romance, mistério e traição em uma história sobre o poder corruptivo de uma “femme fatale” na vida das pessoas ao seu redor.

Baseado no romance de J. H. Wallis, a trama do filme se aloca na vida de um professor de meia-idade, calmo e comedido em seu comportamento, que, em uma noite comum, acaba por conhecer uma bela mulher, desenvolvendo uma atração rápida e inexorável em sua figura. A história ganha sua força quando o professor é envolvido em uma morte de um dos amantes da mulher, desnivelando consequências irreversíveis em sua vida.

A reta inicial do filme promove levemente uma aura de mistério acerca dos atos do personagem central. Sempre de forma sutil, a trama opta por fazer esse intercâmbio entre o romance e o mistério. Não fica exatamente claro os rumos que o filme seguirá neste começo. Não sabemos se seguiremos o âmbito do romance do professor com a atraente mulher que conheceu pelo simples acaso ou se entraremos no campo do mistério.

No entanto, conforme avançamos pela reta inicial da história, o filme rompe com esse indefinição, nos apresentando os componentes que irão fazer a trama se alocar completamente na aura misteriosa sobre tudo, elevando traições, mentiras, mortes e, claro, toda a inocência contida a priori no personagem central.

O filme sempre se move de forma cadenciada. Aqui, jamais teremos uma carga demasiada de acontecimentos da trama eclodindo ao mesmo tempo. Tudo é muito calmo, procurando destrinchar todo o compêndio comportamental dos personagens. Porém, é neste ponto que se encontra o maior erro do filme.

Essa decisão de levar a obra de forma lenta, tentando esmiuçar todos os nuances da trama, acaba não se fazendo produtiva. O fracasso da tentativa se aloca no roteiro superficial (adaptado por Nunnaly Johnson), que não consegue trazer a densidade necessária aos personagens e situações. O erro acaba retirando muito do brilho tradicional de um filme noir, limitando os desfechos da reta final.

Conforme nos encaminhamos para a camada final da obra, ganharemos uma leve dose de velocidade na forma de concluir determinadas situações. Passaremos a acompanhar de forma mais abrangente todo o jogo de gato e rato trazidos, no qual todas as decisões param sempre nos tradicionais clichês do gênero. A novidade aqui se aloca nos trechos finais ousados, trabalhando por desconstruir toda a trama, conseguindo surpreender o espectador.

A direção do filme, conduzida por Fritz Lang, é positiva, conseguindo caminhar sobre vários campos sem se fazer maçante. Lang, mesmo não dispensando uma qualidade semelhante aos seus melhores trabalhos, apresenta um ótimo trabalho ao captar as incertezas de seu protagonista, sabendo se aproveitar do talento do ator que comanda o filme.

O ator Edward G. Robinson comanda o filme. Robinson, sempre fazendo uso de olhares e gestos calmos, além da forma comedida de se locomover pelos ambientes, entrega uma atuação que eleva a qualidade da obra. Ao seu lado, interpretando a “femme fatale”, temos Joan Bennett, que também consegue nos proporcionar uma boa atuação, mesmo não chegando próxima ao nível de Robinson.

Não ausente de erros, ‘Um Retrato de Mulher’ se notabiliza como um filme comum em seu gênero. E isso é o bastante para que o filme seja recomendado. O que, sem dúvidas, destaca o filme dos demais é o seu final pouco usual e ousado. Além desses elementos, o filme também é a oportunidade de ter acesso a mais um pequeno fragmento da filmografia do ótimo Fritz Lang.

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