Crítica: ‘Os Fantasmas Contra-Atacam’(1988), de Richard Donner

Variando entre temáticas, utilizando a figura do natal para contrastar o compêndio de comportamentos que compreende o ser humano, ‘Os Fantasmas Contra-Atacam’ acaba se notabilizando como uma ótima opção em meio a um gênero tão saturado. A boa direção, comandada por Richard Donner, o roteiro aprazível e a atuação de seu protagonista complementam a boa dinâmica do filme.

A trama, sugerida levemente pelo romance de Charles Dickens, nos coloca para seguir os passos de Frank Cross. Frank, um homem bem-sucedido e com o cargo de presidente de uma importante rede de televisão americana, nutre um comportamento de desprezo em relação ao seu meio social, agindo de forma dura e errática no contato com outros indivíduos. O filme ganhará sua substância quando, próximo ao período de natal, um emaranhado de fantasmas passa a atormentar o homem, cobrando que este reveja seus caminhos trilhados no mundo.

Em sua camada inicial, fazendo um contraponto entre a personalidade do personagem com o seu trabalho, veremos uma série de exposições de comerciais televisivos, explicitando o grau de superficialidade que tange aquela indústria. Concomitante a isso, veremos como Frank trata mal seus funcionários, emanando uma forma nada empática de agir.

Toda essa falta de empatia em relação ao mundo, olhando por um panorama geral, evidencia como o personagem encara o mundo. Aqui, completamente irascível, Frank enxerga as rotinas diárias, como o simples ato de cumprimentar alguém, com desdém, uma espécie de fardo. Não há espaço para atitudes aprazíveis, todo o conteúdo apresentado pelo homem é rústico e exacerbado.

Encontra-se neste ponto do filme a instância de comparação entre o personagem e a sociedade que o permeia. Frank explicita o que há de pior no ser humano, e o âmbito social, notabilizando-se como um campo extremo e em constante processo de deterioração com o passar do tempo, fomenta isso no homem. Não há divisões aqui. Frank é um produto social e seus comportamentos somente ecoam como uma troca de afetos nada positivos construídos através da vida. No entanto, é aqui que seremos apresentados à instância transformadora na vida do personagem.

Somos introduzidos aos espectros de cenas mais dinâmicos do filme, nos quais há a aparição na história dos fantasmas que alterarão o comportamento de Frank. Esses fantasmas vão atuar por levar o personagem ao lado positivo do mundo, fazendo-o examinar suas escolhas para sua vida. E a figura que mais possibilita essas mudanças, junto com a examinação da vida, é a figura do passado.

Um canto niilista (seguindo a definição nietzschiana do conceito) ao passado, a trama passará a explicitar os contrastes tênues de uma jornada permeada de nuances do personagem. O filme assume uma atmosfera nostálgica, de contemplação a um tempo que já passou, mostrando como Frank se tornou o que é no tempo presente da trama. O tempo é tratado como uma instância extremamente efêmera, na qual os prazeres e desprazeres da vida são brevemente analisados. Tudo aqui é rápido.

No entanto, ao entrar na parte definitiva do filme, a trama perde um pouco de seu ótimo ritmo. As escolhas do roteiro se caracterizam por uma exposição cautelosa acerca do destino de todos os personagens apresentados ao longo da obra, em especial de nosso protagonista. Clichês passam a se tornar corriqueiros e as cenas perdem o seu impacto. Porém, apesar dessa leve perda de qualidade, o final ainda é positivo, mostrando uma visão otimista sobre o ser humano.

Adentrando ao campo da direção, veremos Richard Donner executar um trabalho positivo. Donner, consagrado pela direção de filmes no gênero de ação, utiliza aqui construções sempre agradáveis de cena. O diretor consegue atenuar o conteúdo denso propiciado pelo roteiro em cenas leves, nutrindo um humor inerente a cada desnivelamento da trama. O trabalho de captação da atmosfera natalina também é acertado, trazendo componentes comuns à época. Porém, o maior acerto de Donner na direção é possibilitar que seu protagonista tenha um campo abrangente para reger sua atuação.

Aqui, veremos Bill Murray no comando do personagem central da história. Murray, espetacular como sempre, pauta sua atuação no que há de mais tradicional em sua filmografia, com a exposição de um humor melancólico, uma incerteza patológica no modo de agir e falar, além do seu tradicional sarcasmo. O filme ainda possui na parte secundária de seu elenco Karen AllenJohn Forsythe e o lendário Robert Mitchum.

‘Os Fantasmas Contra-Atacam’ é, de fato, um ótimo filme. Toda sua carga humana exposta em sua história faz com que o espectador sinta interesse pelos personagens apresentados na trama, sem, no entanto, se tornar algo muito pesado para o subgênero proposto. Sem dúvidas, um dos melhores filmes natalinos já concebidos.

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