Crítica: ‘Porto’(1948), de Ingmar Bergman

Explorando as construções erráticas impostas pelos âmbitos familiares e sociais, ‘Porto’ conduz uma trama com pontos positivos e negativos, tendo como principal atração a figura de seu diretor. Aqui, veremos o sueco Ingmar Bergman comandar o filme, trabalhando com temas que não são os favoritos de sua filmografia, mas que, também, não se fazem inéditos.

O filme nos coloca para seguir os passos de Berit, uma jovem desiludida com a vida e maltratada por sua mãe, que, em uma tentativa desesperada de suicídio, conhece Gosta, um jovem pouco usual para o espírito social da época, que nutre certo desprezo em relação às obrigações sociais. Prosseguiremos pelos 100 minutos de duração do filme esmiuçando esse novo relacionamento entre os dois, vislumbrando os prazeres e dores de suas vidas.

Em um esboço inicial, o filme apresenta a cena da tentativa de suicídio da personagem central, oferecendo um espectro do que compreende a personalidade da garota. Após esse pequeno fragmento, somos introduzidos a um emaranhado de situações, alternando entre passado e presente, acerca dos desnivelamentos dessa tentativa de tirar a própria vida, assim como entenderemos um pouco sobre o compêndio social que rege a trama.

Esse arco social é apresentado como uma estrutura danosa ao indivíduo pelo filme. Tanto a garota quanto o rapaz por quem desenvolve um relacionamento são esferas desprezadas pela sociedade. Aqui, qualquer estímulo oriundo da camada social, sempre sendo evidenciado como pregadores de regras e valores, são destrutivas para os personagens. E não ficaremos restritos somente ao nível social.

Agora ficando limitados somente à figura da garota, entenderemos como sua mãe atua por limitar os caminhos de seu desenvolvimento. Em um misto de inveja e ciúmes, essa mãe castradora, olhando por uma visão psicanalítica, domina qualquer forma de interação social da filha, escolhendo para ela punições e eventuais recompensas. Nessa relação entre mãe e filha tudo é muito rústico, não há espaço para construções que agreguem a alguma das partes.

No cinema de Bergman, os dois temas centrais expostos pelo filme acabaram não sendo tão recorrentes em sua filmografia. Laços destrutivos familiares e a ameaça social ao indivíduo foram trabalhados em filmes como ‘Morangos Silvestres’(1957), ‘Através de Um Espelho’(1961) e ‘Sonata de Outono’(1978). Talvez os três exemplos não sejam tão impactantes sobre seus temas quanto ‘Porto’, mas também trabalham com os conceitos de forma contundente.

Vale ressaltar, no entanto, que não teremos um ritmo positivo empregado pelo filme. Os avanços da trama são travados, pouco aprazíveis. Nada na história se move de forma fluida. Isso compromete bastante a densidade dos conceitos trabalhados, transmitindo ao espectador temas que não se desenvolvem completamente.

Seguiremos, como é tradicional na filmografia de Bergman da década de 1940, uma atmosfera crua. Edição e trilha sonora se fazem pouco atuantes, delimitando eventuais reforços para o conteúdo exposto pelo roteiro. Concomitante a isso, o roteiro é cadenciado e, quando transposto em cenas, tudo fica muito lento.

A reta final da trama somente explicita todo o conteúdo trabalhado anteriormente. Somos introduzidos aos desnivelamentos acerca das vidas dos personagens. Diferente do que trilhou habitualmente em seus filmes, aqui os desfechos são positivos aos personagens, desprezando o comum pessimismo ou, até mesmo, sobriedade dos finais de Bergman.

Bergman que nos traz uma direção regular neste filme. Não há espaços para a tradicional genialidade do cineasta. Não há, nem mesmo, espaço para ousar, fugir aos clichês tradicionais do cinema da época. Essas escolhas, ou limitações impostas pelo estúdio (algo que Bergman vivenciou bastante nesse começo de carreira), não sinalizam, necessariamente, algo ruim ao filme.

No campo do elenco, veremos atuações tão regulares quanto a direção por parte dos atores Nine-Christine Jonsson e Bengt Eklund. Ambos não conseguem se destacar. Suas atuações são limitadas e em cenas mais impactantes eles não conseguem trazer substância aos conteúdos da história. A sorte de Bergman na captação de seu elenco estava reservada para anos subsequentes.

Apesar de trabalhar com temas extremamente relevantes, ‘Porto’ peca na apresentação de um ritmo inconstante e uma atmosfera pouco aprazível. A direção e o elenco regulares norteiam os elementos restantes da obra. No entanto, os equívocos contidos no filme não comprometem a experiência total de assistir à obra.

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