Crítica: ‘Quando Fala o Coração’(1945), de Alfred Hitchcock

Tateando sob os meandros da construção psicológica do ser humano, Alfred Hitchcock nos entrega um filme sobre personagens com personalidades opostas, unidos por laços inexoráveis. ‘Quando Fala o Coração’ alternará em seus desnivelamentos, caminhando pelo romance e mistério, além de trabalhar com o conceito cruel do arco psicopatológico no homem. O filme ainda traz atuações impecáveis de Ingrid Bergman e Gregory Peck no comando dos protagonistas.

A trama do filme, sugerida pelo romance de Frances Beeding, trará a história da Dra. Constance Petersen, uma psiquiatra respeitada e conhecida por sua ética inabalável em sua profissão, atuando em uma clínica para pessoas com psicopatologias. Quando surge a inserção de outro importante médico que trabalhará na clínica, a Dra. Constance se vê repentinamente interessada na figura do homem, chegando a apaixonar-se por ele. No entanto, nem tudo é o que parece, e a personagem terá que lidar com o embate entre sua ética profissional e os desejos de sua vida privada.

O início do filme assume um caráter didático, instruindo o espectador cautelosamente sobre a teoria em que a trama se apoiará para construir sua história: a psicanálise. Aqui, há uma introdução dinâmica e aprazível sobre o que compreende a teoria, possibilitando que o espectador não se perca futuramente nos caminhos trilhados pelo filme.

A dinâmica imposta na introdução à psicanálise não é acompanhada quando falamos sobre a trama em si. Os desnivelamentos iniciais são cadenciados, mostrando, pouco a pouco, os construtos de personalidade da personagem central com seu modo de atender seus pacientes e de lidar com seus companheiros de profissão. Concomitante a essa introdução da personagem, veremos o filme também trabalhar com a figura do novo médico, expondo os espectros iniciais de seu comportamento.

O filme, vale a pena destacar, não fica restrito somente aos dois personagens centrais. A história aqui se engendra por cada item do compêndio de indivíduos da trama. Cada personagem, seja ele relevante ou não para a trama, terá sua cota de exposição para que o espectador abalize sua importância ali. E não é só isto. Teremos estudadas as formas das médicos do lugar regerem seus hábitos de intercâmbio social, sempre se valendo de jogos psicológicos com seus companheiros.

Conforme avançamos sobre a trama, contendo o que há de mais tradicional na filmografia de Hitchcock, o filme promove cada vez mais um aumento na atmosfera de mistério que permeia cada ato dos personagens. Mesmo nas cenas mais calmas e, aparentemente, inocentes, há uma condução de tensão ao espectador. Isso faz com que desconfiemos de determinadas intenções dos componentes do filme, mesmo que, futuramente, essas suspeitas tornem-se infundadas.

Outro ponto que caracteriza o sucesso do filme é a sua profundidade acerca dos conceitos trabalhados. Poderíamos facilmente, sem que houvesse problemas para a história, seguir uma linha superficial sobre as construções no campo das psicopatologias. No entanto, o roteiro vai além, fornecendo aspectos densos e com sua comprovação teórica sobre, simplesmente, todos os caminhos percorridos pela história e seus personagens. Há a introdução, até mesmo, de uma linha sobre o transtorno dissociativo de identidade (chamado comumente de TDI) em um dos itens da trama.

Porém, já nos encaminhando para a reta final da obra, veremos um decréscimo evidente. O filme passa a ficar rústico em seus desnivelamentos. O roteiro adere a clichês tradicionais e a saídas pouco trabalhadas para determinados mistérios da história. Aquela escolha por reger o filme sob um ritmo cadenciado é esquecida neste final. Tudo passa a ficar muito apressado, não deixando espaço para o espectador destrinchar de forma produtiva cada cena. No entanto, vale mencionar, esses erros passam longe de descaracterizar o compêndio completo do filme.

Na parte da direção do filme, Alfred Hitchcock apresenta um bom trabalho. Existe toda uma imposição de um clima atrativo ao público, tentando, a cada cena ultrapassada, emanar uma atmosfera de mistério cada vez maior. Hitchcock também sabe como poucos construir representações psicológicas no espectador sobre determinados objetos expostos no decorrer do filme e sua eventual importância para a história. Os usos de planos fechados e o comum “zoom in” para explicitar um acontecimento importante da trama também estão presentes.

Adentrando ao campo do elenco, talvez a instância mais produtiva de todo o filme, teremos as presenças, como citado acima, de Ingrid Bergman e Gregory Peck. Ambos estão ótimos, mas a atuação intensa e irretocável de Ingrid Bergman acaba por sobrepujar completamente o talento de Peck. A atriz rege sua personagem por um modelo suave de interpretação, conseguindo dominar todas as cenas em que está presente.

Quando Fala o Coração’ é, de fato, um bom filme. Sua construção acurada e cautelosa sobre os conceitos abordados norteiam a obra. Os erros presentes na reta final, mesmo sendo importantes, não acabam limitando a experiência produtiva do filme. Seguindo, a presença de um bom elenco e a atuação irretocável de Ingrid Bergman ajudam na transposição ao público de toda a densidade da história.

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