Crítica: ‘Viagem a Darjeeling’(2007), de Wes Anderson

Explorando o aspecto do luto, laços familiares problemáticos e a estranheza no ser humano, Wes Anderson nos entrega mais um filme extremamente aprazível. Nutrindo atuações competentes, um roteiro positivo e uma direção dinâmica, ‘Viagem a Darjeeling’ acaba não entrando ao campo dos melhores filmes da carreira de Anderson, mas, sem dúvidas, consegue captar e entregar o proposto ao espectador e se manter sempre assertivo durante os seus curtos 91 minutos de duração.

A história toma forma na busca de três irmãos, um ano após a morte de seu pai, que tentam redescobrir a si mesmo, bem como criar novamente um laço familiar afetivo entre eles, decidindo fazer uma viagem de trem atrás de sua mãe que vive em outro país. A trama ganha sua substância quando somos inundados com os sempre divertidos confrontos surgidos entre eles durante a viagem, evidenciando suas dores e eventuais alegrias.

Logo em sua cena inicial, somos apresentados a uma sequência movimentada da busca de um homem de meia-idade para pegar o trem onde o filme rege sua trama. Aqui, o filme brinca com seu espectador, dando a falsa impressão que o personagem apresentado, interpretado por Bill Murray, será parte integrante da história. No entanto, subvertendo fatores, a busca do homem fracassa, e, conforme temos um plano com a iminência da perda do trem pelo homem, somos introduzidos de forma brilhante a um dos componentes que, de fato, fará parte da trama.

Todos esses elementos, pequenos quando vistos de forma separada, são os responsáveis por fazer com que o filme ganhe sua dinâmica. Ao longo da obra, vários pequenos aspectos ou personagens aparentemente irrelevantes são tratados com cuidado pelo roteiro, trabalhando por desenvolver algo mais amplo do que a simples imposição da parte central do filme. E esse emaranhado de situações difusas propicia uma atmosfera convidativa ao espectador.

O filme sempre seguirá um ritmo único do primeiro ao último minuto, jamais perdendo sua dinâmica ágil, mesmo quando se é inserido fragmentos mais calmos de cenas, como o contato direto dos três irmãos com a morte em certo ponto da trama. Esse feito sempre difícil de ser alcançado acaba diminuindo eventuais pontos fracos do roteiro, fazendo o espectador sempre remontar para a beleza da execução de cada cena.

Conforme nos inserimos na reta final do filme, conseguiremos denotar apenas conclusões superficiais acerca das personalidades de cada um dos irmãos. Mesmo com a abordagem do filme tendo o foco diferencial a esses personagens, o material apresentado não é o bastante para um estudo das motivações de cada um. Esse aparato diferencial da história passa longe de ser algo prejudicial para seu desenvolvimento, conseguindo evidenciar ao espectador personagens mais densos e complexos.

Outro conceito também trabalhado é a noção do estranho intrínseco ao comportamento humano. Cada personagem exposto durante o filme entregará elementos e atitudes erráticas aos olhos alheios, fazendo sentido, talvez, unicamente para si mesmos. Essa decisão do filme, algo comum e obrigatório na filmografia de Wes Anderson, traz conforto ao espectador, sabendo conciliar de forma pontual a melancolia inerente aos atos de alguns personagens com as exacerbações comportamentais de outros.

Concomitante ao compêndio de fragmentos e elementos expostos na trama, veremos como os irmãos utilizam a viagem para construírem algum laço de similaridade entre eles, inexistente em outrora, mesmo que tênues, conseguindo, finalmente, enxergarem-se, de fato, como seres da mesma família. E, assim como começa, expondo cenas quase idênticas, o filme termina com os irmãos buscando o trem, já em processo de partida, que os levará de volta para casa. No entanto, agora não veremos somente um componente dos irmãos, mas, sim, todos correndo atrás do trem, explicitando o senso de comunhão que aqueles indivíduos tiveram acesso durante a substancial viagem.

Adentrando ao campo da direção, teremos um trabalho pautado no que há de comum em sua filmografia por Wes Anderson. O diretor faz bastante um balanceamento entre planos mais ágeis e a outros mais cadenciados, expondo personagens ou objetos. Anderson vai pautar toda sua direção, sempre com a bela fotografia de Robert D. Yeoman (como o habitual, bastante colorida), em enquadramentos simétricos, respeitando um padrão na concepção de suas cenas. Outro ponto que vale ser citado é a bela montagem feita nas cenas que passam ao espectador o ambiente interno do trem, conseguindo, sempre, evidenciar um senso um tanto quanto claustrofóbico sobre a atmosfera do lugar, com uma limitação de movimentação dos personagens.

Já nas atuações, não diferindo do resto da obra, teremos interpretações irretocáveis de Owen WilsonAdrien Brody e Jason Schwartzman compreendendo o eixo principal. Cada um dos atores acaba emanando um padrão diferente de atuações, onde Wilson se faz mais excêntrico, Brody expondo um ar melancólico em seus atos e Schwartzman se consumando como a esfera mais reservada do filme, sempre muito ponderado em suas pontuações e comportamentos.

Viagem a Darjeeling’ é um filmes que entrega ao espectador todos os pontos prometidos em sua reta inicial, apresentando um ‘road movie’ leve, despreocupado, mas extremamente sagaz no momento de dar substância aos seus personagens. Uma obra imprescindível para quem gosta do trabalho de Wes Anderson, mesmo não se enquadrando como um de seus melhores filmes. Algo que, é bom que se diga, não é nenhum demérito, visto a qualidade de seus trabalhos mais impactantes.

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