Crítica: ‘Touro Indomável’(1980), de Martin Scorsese

Contando sobre as exacerbações humanas mediante a vida, ‘Touro Indomável’ mostra a jornada de um personagem errático em seu dia a dia. Relacionamentos sociais, pessoais e familiares são destrinchados, sempre com o intuito de evidenciar o processo autodestrutivo inexorável ao qual está submetido esse indivíduo. Uma obra-prima do cinema proposta por Martin Scorsese que, ainda, entrega uma das maiores atuações já vistas por parte do ator Robert De Niro.

Baseado na vida do boxeador Jake LaMotta, a trama traz ao espectador vários fragmentos da jornada de um homem envolto em uma rotina de comportamentos intensos e destrutivos. Ao ponto que consegue transbordar toda a violência inerente à sua espécie para dentro dos ringues, obtendo sucesso e vindo a tornar-se um dos maiores de sua época, o homem acaba vindo a sofrer os efeitos colaterais disso em sua vida privada. Passaremos 129 minutos acompanhando o processo degenerativo de Jake LaMotta, seus maiores prazeres e, claro, sua inevitável ruína.

O filme inicia com uma abertura, com a música Intermezzo, de Pietro Mascagni, mostrando toda a beleza que emana do boxe, com o homem aparentemente se aquecendo em um ringue, fazendo o contraponto com o comportamento extremo do personagem. Essa cena inicial, concebida com extrema felicidade, serve para nos ambientarmos nas duas vertentes que regem a vida de LaMotta.

Bastante dinâmico em seu ritmo, o filme consegue, desde seu começo, substanciar uma grande parte da vida do personagem sem tornar-se longo ou insosso. Cada cena tem a sua importância para a montagem do quebra-cabeça sobre as atitudes do homem. E amparando-se nessa dinamicidade, começamos a ter um panorama inicial sobre os desnivelamentos que o filme pretende aderir.

LaMotta segue, mesmo antes de ganhar evidência em sua carreira no boxe, um padrão de comportamentos lesivos, seja para seu âmbito familiar, como seu irmão e sua esposa, ou para si próprio, impedindo de obter todos os avanços que seu talento lhe propiciara. Irascível, LaMotta se nega a promover um intercâmbio social que, possivelmente, lhe ajudaria em sua trajetória profissional, optando por escoltar-se em suas próprias forças, fazendo-se um ser solitário e errante. Aqui, a única força que o homem permite que faça alterações em sua vida é a de seu irmão.

Seu irmão serve como freio social para suas atitudes extremas. Assim como um animal irracional, LaMotta é guiado por seu irmão em todas as esferas de sua vida. No âmbito profissional, esse irmão vai gerenciar sua carreira, escolhendo rivais e trabalhando nos bastidores para LaMotta conseguir a oportunidade de disputar o cinturão de sua categoria. Já no âmbito pessoal, esse irmão vai ser responsável por simplesmente tudo que o homem faz, servindo para ponte, por exemplo, para LaMotta conhecer a segunda esposa exposta no filme. No entanto, conforme avançamos pela vida do boxeador, veremos uma degeneração de sua essência já errante.

Conforme os anos avançam, os comportamentos do homem em relação ao seu meio vão ficando cada vez piores, mais extremos, provocando-lhe mais sofrimento. LaMotta chega ao degrau mais alto de sua carreira, conquistando o cinturão tão sonhado. Mas nem isso é capaz de atenuar sua derrocada. Muito pelo contrário, faz o homem afundar ainda mais. Nada é capaz de suprir suas necessidades, seu humor fica cada vez mais instável. E, amparando-nos na figura desse processo degenerativo, as atitudes do homem promovem a perda da única instância de sua vida que ainda impedia seu completo declínio: seu irmão.

Movido, aparentemente, por amor à figura de LaMotta, esse irmão segue seus passos no mundo unicamente visando o bem-estar do personagem. Uma espécie de processo simbiótico entre os dois é trazida ao espectador durante boa parte do filme. No entanto, a raiva, obsessão e paranoia do homem acabam fazendo desse irmão um ponto de suspeita, servindo para corromper a única coisa realmente positiva construída em sua vida.

A reta final do filme somente explicita as consequências de uma vida guiada sempre no limite. Mas, veremos também, que a figura da maturidade acaba atingindo o homem em certa etapa, fazendo-o recobrar experiências passadas e reconhecer os erros que permearam sua vida. O tempo, que também lhe retirara o boxe, dá a LaMotta uma nova vida, essa muito menos grandiosa do que em outrora, que, no entanto, pode lhe oferecer uma “calma de espírito” jamais alcançada antes.

Adentrando ao campo da direção, veremos Martin Scorsese entregar um dos melhores trabalhos de sua carreira. Aqui, Scorsese opta por nos colocar sempre no cerne da essência do personagem, transpondo, em cada cena, uma aura exacerbada que atua sobre ele. Cada plano do filme expõe uma devoção inerente ao personagem central. A fotografia de Michael Chapman, simplesmente irretocável, também ajuda a dar substância à proposta de Scorsese e do roteiro.

No elenco, com Robert De Niro e Joe Pesci encabeçando o filme, teremos atuações soberbas. Ambos estão fantásticos, conseguindo, com interpretações intensas, causar completamente a imersão do espectador. Porém, apesar do destaque para ambos, é De Niro quem, certamente, mais se destaca. Sua intensidade passa longe de ser apenas no campo dos diálogos, promovendo uma atuação bastante física, inclusive, provocando alterações consideráveis em seu corpo (algo bastante comum na filmografia do ator) para viver todas as etapas do personagem.

Obra-prima, ‘Touro Indomável’ expõe o que há de melhor na carreira de seu diretor. Um filme, em sua síntese, sobre o eterno processo de mudança ao qual o ser humano e o mundo estão, inexoravelmente, inseridos. Aqui, vários são os momentos brilhantes de cenas que ficam para a história do cinema, mas vale destacar o fragmento final, com o personagem central, diante de um espelho, recitando frases do clássico “Sindicato de Ladrões” (1954), explicitando todas as angústias vividas por ele naquele momento.

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