Crítica: ‘Amarelo Manga’(2002), de Cláudio Assis

‘Amarelo
Manga’ é um filme que não faz concessões ao mostrar a vida de determinadas
pessoas imersas em um cotidiano inexorável. O primeiro longa-metragem de
Cláudio Assis é uma verdadeira conjunção de realidades aterrorizantes em suas
próprias repetições. Um filme cru, em seu melhor sentido, que nos remete às
nossas próprias vidas.

Iremos
adentrar à vida de diversos personagens inseridos no ambiente caótico da parte
carente do Recife. Conheceremos uma dona atraente de um bar e desejada pelos
homens ao seu redor, um homem gay que trabalha cuidando de um pequeno hotel da
cidade, um açougueiro acostumado com a realidade brutal do lugar, sua namorada religiosa, um homem adepto da necrofilia e um padre calmo que leva
sua vida a base dos sermões que prega. Além do notável desajuste social que
norteia os personagens, temos ainda em comum entre eles o desespero de estarem
inseridos em um ambiente intransponível. É em meio a estes personagens que o
filme segue sua história, contada em um dia.
Nada de
relevante acontece que seja diferente dos dias anteriores. Todos os eventos do
dia em questão poderiam estar acontecendo normalmente em qualquer data. Mas
isso não quer dizer que o conteúdo da vida dos personagens seja insosso. Suas
rotinas são cheias de nuances, desde a emoção do necrófilo em captar novos
corpos até a arquitetura de um plano para acabar com o relacionamento do
açougueiro e da religiosa pelo indivíduo homossexual que trabalha no motel.
O filme se
aloca claramente no existencialismo de Sartre, no qual seus personagens parecem
perecer em meio à falta de aptidão em lidar com a liberdade que lhes é
concedida. Viver com a condenação de que são livres parece ser um peso
demasiado para eles. Seus refúgios se dão pela rotina incessante a qual estão
inseridos. Todos os personagens odeiam suas vidas, mas se veem incapacitados
psicologicamente de fazer algo para sair daquelas situações.
O trabalho de
direção realizado por Cláudio Assis é ótimo. As escolhas de enquadramentos são extremamente bem feitos, com o auxílio da fotografia, conseguindo dar aos seus
atores o espaço ideal para poderem realizar suas interpretações. A famosa
quebra da quarta parede, tanto explorada na filmografia do diretor, também é bem realizada,
apesar de não se comparar ao resto de seus filmes. Assis também escolhe por dar
ao filme uma atmosfera novelesca (no bom sentido), dividindo-o em núcleos
interligados. Ora a câmera está concentrada em um bar, ora foge para um
matadouro. Tudo ali é colocado para incomodar o espectador. E é exatamente no
campo da edição e fotografia que o filme alcança seu caráter único.
A edição é
cruel com seu espectador. Não sabemos para onde a cena seguinte vai nos levar,
nem por quanto tempo permaneceremos no mesmo ambiente. Somos inundados com um
conteúdo quase que intragável durante alguns momentos logo após a uma cena
suave de um simples diálogo. Esse belo trabalho é mérito de Paulo Sacramento.
Já no campo
da cinematografia, seu tom amarelado ajuda a dar uma aura defasada aos ambientes
e indivíduos estudados. Toda a magnitude do filme é embasada em sua
fotografia. O responsável por ela foi Walter Carvalho,
que já foi o responsável por vários outros trabalhos espetaculares, como
‘Heleno’(2011) e ‘Abril Despedaçado’(2001).
O elenco
também consegue se encaixar bem no perfil de cada personagem. Temos aqui Matheus Nachtergaele, Jonas Bloch, Leona Cavalli, Dira Paes,
Chico Díaz e Jones Melo.
Não há como destacar somente uma atuação, todo o elenco está brilhante,
conseguindo dar determinada essência a todos os personagens.
Logo em seu
primeiro filme, Cláudio Assis entrega algo magistral. Sem dúvidas, o melhor de
sua curta filmografia. Um filme incômodo do primeiro ao último momento, mas que
encanta devido à pluralidade do conteúdo que entrega. São várias as
interpretações que podemos fazer da vida dos personagens do filme e todas, de
alguma forma, corretas. ‘Amarelo Manga’ representa, de um modo mais exacerbado,
nossas próprias vidas e a sociedade, na qual o conceito de liberdade é completamente
deturpado.
Nota CI: 7,1 Nota IMDB: 6,7
Filmografia:
AMARELO
Manga. Direção: Cláudio Assis. 2002. 103 min.
HELENO.
Direção: José Henrique Fonseca. 2011. 116 min.
ABRIL
Despedaçado. Direção: Walter Salles. 2001. 105 min.

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