Crítica: ‘Big Jato’(2016), de Cláudio Assis

Cláudio Assis
realiza aqui o filme mais otimista de sua carreira, desprezando sua habitual
escolha pelo lado podre da humanidade e alterando levemente a estética de sua
direção. ‘Big Jato’ é uma obra um tanto quanto onírica, que acaba conseguindo,
por meio do uso recorrente de seu lado poético e sua suavidade, encantar seu
espectador a cada minuto de sua duração.
O filme,
baseado no livro de Xico Sá, se propõe a contar sobre a vida em uma pequena
cidadezinha fictícia do interior de Pernambuco. Nada acontece na pequena
cidade. Os dias se repetem e seus moradores acabam vivendo em uma espécie de
redoma, sem a possibilidade de vislumbrar uma forma de viver diferente daquela.
É nesse clima de prisão que conhecemos Chico, um adolescente sonhador que, por
influencia do irmão de seu pai, um radialista da estação local, deseja um dia
viver de sua poesia. Chico vive com sua família em uma situação de limitações
financeiras, nutrindo uma relação conturbada com seu pai, um homem moralista que
tem como seu ganha-pão o trabalho de limpar as fossas dos habitantes locais com
seu caminhão, o possante “Big Jato”.
A história
ganha forma exatamente nesse conflito de Chico com seu pai. Seu pai é um homem
honesto e trabalhador, mas que enxerga na bebida um escape para a realidade cruel
que o destino lhe ofereceu. O homem acaba por enraizar em seu âmago um ódio
inerente à figura de seu irmão, cuja persona se revela tudo aquilo que ele não
é. Chico vive nessa ambivalência de valores, não sabendo direito a quem seguir.
Teremos sempre a escolha de colocar, em curtos períodos de tempo, uma fuga da trama
principal, amenizando o impacto da história com versos poéticos entoados por um
residente da cidade local em conversas paralelas com Chico. E são exatamente
nessas conversas que Chico revela seus dilemas mais íntimos e suas indagações
sociais e materiais.
O ritmo
proposto por Claudio Assis é contundente, conseguindo criar uma atmosfera única
ao longa. No personagem de Chico, temos expostos todos os conflitos presentes na
adolescência, como a afloração de sua sexualidade, a busca por uma
identificação interna e uma desvinculação das figuras familiares que o limitam.
É de suma
importância destacar também a figura da cidade no inconsciente coletivo
daqueles que ali residem. Peixe de Pedra é uma entidade em particular, com suas
histórias, clima e construtos de indivíduos únicos guiando a forma de como seus
habitantes levam suas vidas.
A direção do
Cláudio Assis é mais uma vez primorosa. O diretor, desta vez, escolhe por alterar
minimamente a estética de seu filme, dando a este uma atmosfera mais limpa e
tradicional do cinema nacional. Entretanto, estão presentes no filme alguns
elementos tradicionais do universo do cineasta, como a câmera aérea dando um
panorama visual pouco usado por outros diretores, a quebra da quarta parede, na qual os personagens falam diretamente com seu espectador, colocando o mesmo
dentro da história, e seus pequenos planos-sequência utilizados em alguns
momentos.
Vários outros
componentes da equipe do filme se destacam, como o roteiro de Hilton Lacerda que sabe adaptar uma história com caminhos diferentes e pouco explorados, a
cinematografia de Marcelo Durst,
talvez a melhor de todos os filmes do diretor, e a edição sempre precisa de
Karen Harley, responsável por outros dois trabalhos de Cláudio Assis.
Na ponta do
filme, temos Rafael Nicácio no papel de Chico e Matheus Nachtergaele interpretando tanto o pai quanto o tio do protagonista.
Nicácio consegue propiciar ao filme uma interpretação muito positiva, dando
sempre um tom de ingenuidade e indecisão ao seu personagem. Já Nachtergaele é o
grande destaque do filme, tendo uma atuação extremamente intensa nos dois
personagens, conseguindo, no entanto, condensar seu ritmo para dar a impressão
ao espectador que ali realmente estão duas pessoas diferentes.
‘Big Jato’ é
um filme excelente, que consegue entregar o que há de melhor no cinema
brasileiro. A sensibilidade para tratar de temas espinhosos, como rejeição
social e pobreza, dá a substância necessária ao filme. Porém, quando é para ser
mais cruel e visceral, também alcançaremos o sucesso. Mais um trabalho
impecável de Cláudio Assis, se consolidando de vez entre os melhores diretores
do país.
Nota CI: 7,0 Nota IMDB: 6,7
Filmografia:
BIG Jato.
Direção: Cláudio Assis. 2016. 97 min.

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