Crítica: ‘Nascido Para Matar’(1987), de Stanley Kubrick

A quarta
contribuição de Stanley Kubrick para o gênero iguala a qualidade dos
anteriores, trazendo sempre um tom sarcástico à estupidez humana. A maneira do
diretor olhar um evento presente em toda a história da humanidade é o que traz
brilho ao filme. Não ausente de erros, o filme sofre com um problema de ritmo
constante. Entretanto, ‘Nascido Para Matar’ é mais um dos bons filmes oriundos
da guerra do Vietnã. Uma obra que mostra o processo de desconstrução do ser
humano.
O filme vai
se dividir em duas partes, sendo a primeira no interior de uma academia
militar, na qual recrutas são preparados para posteriormente serem inseridos no
cenário de guerra, e, a segunda, já mostrando alguns destes recrutas e outros
soldados atuando no cenário caótico do Vietnã. São retratados durante os 116
minutos de filme todos os nuances da vida militar daqueles personagens, suas
ideias deturpadas e a inocência letal que os permeia.
Os vinte minutos
iniciais de filme talvez sejam os melhores de toda a película. Temos uma
emblemática cena dos recrutas tendo seus cabelos raspados e na tomada seguinte
um pequeno plano-sequência que nos introduz ao Sgt. Hartman, um homem em chamas, que deixa claro, em poucos instantes, que sua missão, naquele curto período de
tempo que ele teria com os jovens, seria de fazer deles verdadeiras máquinas de
guerra. No período que Hartman faz seu discurso aos jovens, temos uma
infinidade de takes, após o curto plano-sequência, de diferentes ângulos,
sempre dando ao espectador a melhor cena possível.
O bom
andamento do filme se segue até o fechamento desta primeira parte. Começamos a
enxergar o mal que determinado ambiente faz ao psicológico dos recém-chegados.
Anteriormente visto pelos jovens como uma espécie de acampamento, logo eles
começam a notar a rigidez do local. Alguns aceitam bem aquilo, outros, nem
tanto.
O foco do
filme nesta primeira parte é acompanhar os passos de dois personagens de
maneira mais destacada. Vemos a evolução das suas habilidades para a guerra e a
desconstrução de sua humanidade. Na figura de ‘Joker’ Davis, temos
um indivíduo mais seguro de si, tendo a possibilidade não só de sobreviver ao
ambiente adverso da academia, mas também de se destacar positivamente dos
demais. Já representando o oposto de Davis, temos o personagem de ‘Gomer Pyle’ Lawrence. Lawrence é um jovem desajeitado, muito acima do peso e sua falta de
articulação social o deixa exposto às crueldades implícitas ao local.
A segunda
parte do filme acaba perdendo o ritmo proposto pelo arco inicial, relatando o
ambiente inóspito presente no Vietnã. Aqui, teremos o desenrolar soturno da
trajetória dos personagens. No entanto, o que assombra de certa forma o
espectador é a naturalidade que eles agem ou tomam ciência do destino sombrio
que os aguarda. Os personagens parecem concordar com aquilo e até desejar de
certa forma. Algo que somente evidencia o quanto o ser humano é influenciável
por campanhas simplórias de guerras.
A direção de
Kubrick segue sua linha de excelência, conseguindo dar vivacidade ao filme.
Embora a segunda parte do filme seja muito inferior à primeira, ainda
continuamos completamente imersos àquele ambiente. A conhecida obsessão pela
melhor tomada possível do diretor parece continuar aqui e se fazer quase que
exclusivas ao personagem Hartman.
A trilha
sonora, desta vez comandada por Vivian Kubrick (filha de Stanley), mantém o
padrão de todos os filmes do diretor. O suspense impregnado nas melodias anda
de mãos dadas com a atmosfera proposta pelo diretor.
Já o roteiro,
baseado no romance de Gustav Hasford, é talvez o principal ponto responsável pela notável queda de produção
do filme. A passagem da primeira para a segunda parte fica comprometida em
detrimento do seguimento frágil dos diálogos e situações de seus 10 minutos seguintes,
fazendo o espectador perder um pouco o foco no filme.
Na época de seu
lançamento, todos os componentes do elenco ainda não tinham a fama que viriam a
ter nos anos seguintes. Porém, a qualidade de suas interpretações está ótima.
Temos como protagonista Matthew Modine, no papel de ‘Joker’ Davis, Vincent D’Onofrio, como ‘Gomer Pyle’ Lawrence, e R. Lee Ermey, como Sgt. Hartman. Modine está bem, entregando
uma atuação constante. Já D’Onofrio recebeu aqui seu primeiro papel de
destaque e ele não decepcionou. Porém, destaca-se, sem dúvida, a interpretação
de R. Lee Ermrey. Apesar da idade avançada, Ermrey tinha atuado em poucos
filmes até ‘Nascido Para Matar’, sendo de certa forma inexperiente para encarar
um personagem tão importante para o filme. Entretanto, ele acaba sendo o ponto
alto do filme interpretando um sargento com contornos sádicos. Podemos também
explicar a queda da segunda parte do filme devido à ausência de D’Onofrio e
Ermrey.
‘Nascido Para
Matar’ é um filme bom, mas que não chega perto de ser um dos melhores do
gênero. Sua proximidade da data de lançamento de outros clássicos explorando o
Vietnã, como ‘Platoon’(1986) e ‘Apocalypse Now’(1979), talvez coloque uma
sombra ao redor do filme. Mas a habilidade de Stanley Kubrick de dar um olhar
diferente em boa parte do filme aos demais do gênero faz com que o longa
consiga determinado destaque.
Nota CI: 7,0 Nota IMDB: 8,3
Filmografia:
NASCIDO Para
Matar. Direção: Stanley Kubrick. 1987. 116 min. Título Original: Full Metal
Jacket.
PLATOON.
Direção: Oliver Stone. 1986. 120.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *