Crítica: ‘No Vale das Sombras’(2007), de Paul Haggis

Baseado em
fatos, ‘No Vale das Sombras’ nos surpreende apresentando um thriller calmo,
utilizando-se de um roteiro feito com extrema inspiração e atuações
competentes. O cineasta Paul Haggis acerta o tom e nos brinda com um filmaço. São duas horas de uma
construção precisa da psique de um pai afogando-se em seus próprios conceitos.
Logo no
início do filme, após a apresentação da trama central, temos uma cena
fundamental para adentrar à síntese do personagem principal (protagonizado por
Tommy Lee Jones). Na cena, o personagem inicia uma viagem à procura de
respostas sobre o desaparecimento de seu filho, e acaba se deparando com uma
bandeira de seu país colocada de cabeça para baixo. O pai para seu carro e
orienta de forma calma e contundente um indivíduo, claramente ignorante sobre
os costumes locais. Cena que aparenta ter pouca importância para o filme, mas
que se evidencia, posteriormente, como a chave central para a compreensão do que o personagem vive, suas crenças e regras morais.
A procura do
pai é por esclarecimentos do motivo de seu filho, um militar que devia estar
voltando do Iraque recentemente, não se apresentou em sua base. Aqui,
diferentemente de ‘Desaparecido – Um Grande Mistério'(Costa-Gravas), outro grande filme com temática
parecida, o pai sabe, após poucas conversas, que o caso é mais grave do
aparentava a priori.
No decorrer
do filme, vamos nos dando conta, assim como o personagem, do tamanho do fardo
que ele carrega. Temos uma vida construída a partir de valores morais
rígidos. Patriotismo, senso de dever e integridade são construtos básicos do
personagem. A vida militar para ele é uma obrigação. Obrigação esta que ele
passa a seus filhos. Formados a partir desses ensinamentos, o caminho trágico
que ambas as vidas tomam acabam por refletir diretamente o que o pai causou em
seus caminhos. O personagem vive uma espécie de catarse durante a investigação,
dando-se conta na jornada de suas responsabilidades. Somos inundados com o
sofrimento e culpa que ele passa a expressar a cada olhar.
A ignorância
do pai se deve ao fato de acreditar que seu filho era um exemplo de moralidade.
No transcorrer da trama, ele vai tomando ciência dos horrores que seu filho
viveu no Iraque e o quanto isso o mudou de maneira cruel. Seus atos agora eram
cruéis, assim como a vida no Iraque. Somos apresentados a isso por intermédio de
vídeos presentes em um celular recuperado pelo pai.
O elenco aqui
está muito bem. Temos participações de Josh Brolin, Susan Sarandon, Jason
Patric e James Franco compondo seu núcleo. Charlize Theron interpreta uma policial
que se mostra disposta a esclarecer o caso do desaparecimento ao lado do
protagonista. Sua performance aqui é boa, nos apresentando uma mulher com uma
vida familiar complicada e no âmbito profissional limitada a subir em sua
carreira em virtude de casos com as pessoas certas. Entretanto, o destaque é para a atuação de Tommy Lee Jones. Uma atuação contida, demonstrando sensibilidade ímpar para representar o pai obstinado. A cada cena sua, temos
uma aula de boa interpretação. Limitando-se a olhares, expressões faciais e
palavras calmas, ele consegue nos introduzir à vida daquele homem.
Os aspectos
técnicos são discretos. Uma direção que tem como sua maior preocupação dar ao
protagonista a liberdade e conforto para guiar a trama, assim como a
fotografia. Já a trilha sonora pontua nos momentos certos seu tom nostálgico e
contemplativo.
‘No Vale das
Sombras’ é um relato fiel da vida de muitos americanos patriotas que se veem
presos a uma ideologia defasada, sem se dar conta do quão venenoso isso pode
ser as suas futuras gerações. O filme seria bom sem a presença de Tommy Lee
Jones como protagonista, porém sua presença aqui torna o longa-metragem único.
Nota CI: 7,5 Nota IMDB: 7,2
Filmografia:
VALE das
Sombras, No. Direção: Paul Haggis. 2007. 121 min. Título Original: In
the Valley of Elah.

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