Crítica: ‘Lady Vingança’(2005), de Chan-wook Park

Emanando uma
intensidade presente em cada “frame” que compõe esta obra, ‘Lady Vingança’ é o
filme que encerra a magistral trilogia da vingança. Um filme potente, que
introduz o espectador a uma espécie de conto de fadas ao avesso. Chan-wook Park
mantém e exacerba toda a estética presente em ‘Oldboy’(2003), seu filme
interior, utilizando aqui cada fragmento de cena para extasiar quem as assiste.
Ainda teremos presente na obra o conceito da violência usada de forma
terapêutica, fazendo uma grande homenagem a um clássico do cineasta Ingmar
Bergman.
A trama vai
contar a vida de Geum-ja Lee,
uma mulher que perdeu parte de sua juventude na prisão após confessar ter
sequestrado e matado uma criança de cinco anos. Geum-ja cumpriu uma pena de 13
anos, onde cada segunda encarcerada serviu para a mulher planejar uma vingança
contra os responsáveis por seu aprisionamento. E agora, livre, a mulher irá
colocar seu plano em prática, em um misto de insanidade e moralidade.

O filme acaba
por ter um início bem dinâmico, sempre nos introduzindo a história como se
estivéssemos acompanhando um conto de fadas um tanto quanto perverso. Todo o
filme segue uma linha ativa de se contar a história de Geum-ja, porém esse seu
começo serve para alocar o espectador completamente ao lado dos personagens ali
expostos.
A personagem
principal é trazida a nós como se fosse uma espécie de divindade, utilizando
maquiagens carregadas, sempre se notabilizando pelo tom branco, e sendo tratada
com extrema contemplação por aqueles que a rodeiam. Geum-ja se notabiliza pela
sua intensidade contida na sua forma suave de agir. A mulher parece ter perdido
qualquer resquício de humanidade no interior da prisão, mesmo que tenha
praticado diversos atos bondosos lá dentro, agindo com um distanciamento em
relação à realidade a qual está inserida. Suas relações interpessoais são
sempre regidas por um olhar perdido e palavras que soam completamente
programadas. O fascínio que Geum-ja emite aos outros personagens acaba por se
transferir ao espectador. Tudo isto, claro, devido ao trabalho preciso de
atuação da atriz que a interpreta.

Yeong-ae Lee está simplesmente irretocável no papel da
personagem principal do filme. Cada gesto, olhar, expressão corporal ou físico
transmitem ao espectador tudo o que acaba dando substância a sua personagem. O
fator que se destaca em sua atuação é, sem dúvida, seu olhar perdido quando a
câmera é dada a ela. É impressionante ver a evolução desta atriz, pegando como
base essa e outra atuação em filmes do Park. Extremamente limitada em ‘Zona de
Risco’(2000), onde sua presença acaba deixando sua personagem um tanto quanto
limitada, aqui em ‘Lady Vingança, cinco anos depois, a atriz parece ser uma
pessoa completamente diferente. Yeong-ae transmite uma simbiose com a câmera,
sabendo cada atalho que os enquadramentos oferecem para elevar seu nível de
atuação.
O resto do
elenco acaba não conseguindo, obviamente, igualar o nível de perfeição atingido
por Yeong-ae, porém eles passam longe de estarem mal no filme. Muito pelo
contrário, todos os seus componentes estão fantásticos em seus papéis, com
destaque para a presença de Min-sik Choi, sempre destilando seu sarcasmo habitual em tela, desta vez de uma
forma muito menos física do que na contribuição anterior entre ele e o diretor.

A direção de
Chan-wook Park acaba seguindo seu padrão, utilizando a estilização da violência
para reger sua obra. Existe aqui uma conjunção de elementos trazidos pelo
diretor, a fim de propiciar a seu espectador uma imersão ao filme. Esses
elementos vão desde a câmera que segue a protagonista, em uma divisão entre obsessão
e contemplação, até a exploração completa dos ambientes que o filme traz
consigo.
Vale destacar
também o belo trabalho de Chung-hoon Chung
no comando da cinematografia do filme, trazendo cores fortes e um quadro sempre
com o uso da profundidade para equiparar a atmosfera da obra com o que se passa
na cabeça da personagem principal.
Não
seguiremos aqui uma linha cronológica precisa da ordem dos fatos que tangem a
vida dos personagens. Estaremos sempre alternando entre os acontecimentos
atuais e o passado dos personagens, principalmente Geum-ja. Essa linha não
cronológica vai aos poucos diminuindo durante o prosseguimento do filme, onde
essa falta de uma desconexão entre os fatos acaba causando uma ligeira perda na
qualidade da obra.

A reta final
do filme trabalha por trazer para a tela a ideia da violência sendo utilizada
como uma forma de terapia por seus personagens. O ato de provocar uma espécie
de dor a outro indivíduo, torturando um dos personagens do filme, trabalha por
trazer paz às vidas de indivíduos acometidos por fatores cruéis em suas
histórias. Pouco importa se o indivíduo torturado é ou não o responsável pelas
dores dos personagens. O que vale aqui é a eclosão de conteúdos inconscientes,
uma pulsão de morte, que, quando solta, causa um alívio no indivíduo. E a
maneira como o filme conduz todas essas cenas, extremamente importantes para a
conclusão da obra, remete diretamente ao clássico ‘A Fonte da Donzela’(1960),
de Ingmar Bergman, onde são aplicados exatamente os mesmos preceitos sobre essa
violência desmedida contra os agressores.
‘Lady
Vingança’ coloca um fim à trilogia da vingança do jeito que era necessário. Um
filme que somente enaltece toda a qualidade do diretor em trazer histórias
fascinantes para o cinema, filmando-as de uma maneira única. O filme ainda
debate conosco a causa e efeito de atos empreendidos pelos personagens ali
inseridos. Debate conceitos morais e éticos que tangem a nossa sociedade,
mostrando o quão importante é, de certa forma, nos limitarmos para preservarmos
a sanidade e racionalidade incumbidas ao ser humano. A obra ainda transgride
sua temática exagerada para tecer fortes críticas à banalização das necessidades
humanas.
Nota CI: 6,9 Nota IMDB: 7,6
Filmografia:
LADY
Vingança. Direção: Chan-wook Park. 2005. 112 min. Título Original: Chinjeolhan
geumjassi.
OLDBOY.
Direção: Chan-wook Park. 2003. 120 min. Título Original: Oldeuboi.
ZONA de
Risco. Direção: Chan-wook Park. 2000. 110 min. Título Original: Gongdong
gyeongbi guyeok JSA.
FONTE da
Donzela, A. Direção: Ingmar Bergman. 1960. 89 min. Título Original:
Jungfrukällan.

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