Crítica: ‘Assédio Sexual’(1994), de Barry Levinson

Nutrindo uma história monótona demais para compor um filme de 128 minutos, ‘Assédio Sexual’ acaba sendo mais um exemplo de como um bom diretor pode fazer um trabalho de qualidade mesmo com um roteiro extremamente limitado em mãos. Barry Levinson estava muito inspirado na realização deste filme, tentando ao máximo tirar o melhor possível da história para tentar entregar a seu público um suspense de qualidade. Junte isso a um elenco bom e uma trilha sonora envolvente e você quase terá um filme que valha a pena. Sim, quase.

O filme nos levará até a vida de Tom Senders, um homem competente e bem-sucedido no seu emprego que, de repente, se vê envolto em um jogo de gato e rato com os mandatários de sua empresa, após ser acusado de ter assediado sexualmente sua chefe, com quem já teve um caso outrora. A história vai se desenvolver na luta de Senders para não perder seu emprego e salvar o relacionamento com sua esposa.

A trama do filme começa interessante, dando a impressão ao espectador de que entraremos em um jogo letal do protagonista com a “femme fatale” que se caracteriza sua chefe, ao estilo de ‘Instinto Selvagem’(1992). No entanto, a história acaba se revelando muito mais insossa do que aparentava. O filme não tem exacerbações em seu enredo, todos os conflitos contidos no roteiro, baseado no romance de Michael Crichton, são ausentes de tensão. O protagonista em nenhum momento vê sua vida em risco pelo que está sendo acusado. Toda a tentativa de suspense emanado do filme se concentra em diálogos vazios de uma seção judicial entre Senders e a chefe.

A reta final do filme é completamente ausente de sentido. A trama, que até então era lenta, agora se tornaria completamente alheia. O filme tenta introduzir elementos tecnológicos para criar uma tensão em quem o assiste, porém a construção das cenas, no quesito do roteiro mesmo, é tão pobre que acaba apenas servindo como uma espécie de alívio cômico para o longa.

O ponto alto do filme é a direção de Barry Levinson. O diretor dá o máximo para expelir de cada cena alguma substância que venha a dar sentido ao filme. Toda a construção de cenário e os enquadramentos utilizados por Levinson trabalham para criar um ar paranoico em seu espectador. Em vários momentos do filme o diretor escolhe por evidenciar determinado objeto ou gesto de determinadas pessoas para criar uma atmosfera de desconfiança no seu público. Outra coisa que chama a atenção é a composição precisa da trilha sonora de Ennio Morricone, conseguindo se inserir perfeitamente nas cenas de maior mistério presentes no filme.

O elenco também ajuda a tornar o filme mais palatável, contendo nomes como Donald Sutherland, Caroline Goodall e Dylan Baker. Todos executando seus personagens com extrema destreza. E ainda contamos com uma dupla de protagonistas onde seus nomes falam por si. Michael Douglas e Demi Moore estão incríveis em seus personagens, sempre conseguindo dar mais relevância à história do que o roteiro entregava.

‘Assédio Sexual’ está longe de ser um suspense que faça seu público se ajeitar na poltrona, contendo um tema de difícil acesso e um roteiro fraco. Porém, a grande devoção de seu diretor e seu elenco em alavancar o filme trouxe certo charme à obra. Um suspense mais alocado para o gênero drama, que se tivesse 30 minutos a menos se faria um entretenimento de fácil acesso.

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