Crítica: ‘Paixões Que Alucinam’(1963), de Samuel Fuller

Abordando os diferentes nuances que tangem os conceitos de loucura, Samuel Fuller tenta aqui criar uma história atraente sobre um jornalista dominado pela ganância e derrotado por ela. ‘Paixões Que Alucinam’ é uma obra impactante, não ausente de generalizações superficiais, que consegue dar um olhar mais atento aos diferentes tipos de arquétipos dos acometidos por diferentes transtornos mentais.

A história contada pelo filme gira em torno de Johnny Barrett, um jornalista espirituoso e inconsequente, que decide armar todo um plano para ser internado em um hospital psiquiátrico onde um assassinato não resolvido havia acontecido. A motivação do homem é simples, desvendar o mistério e ganhar um enorme reconhecimento em seu ramo após escrever um artigo sobre o fato. A trama do filme vai se concentrar nos passos de Johnny dentro do hospital, sua busca pelos desnivelamentos do assassinato e seu contato com a loucura ali dentro.

O filme começa com a seguinte frase dita pelo poeta grego Eurípides: “Aqueles que deus deseja destruir, ele primeiro os leva a loucura”. E é baseado nessa frase inicial que o filme vai construir toda a sua substância. Aqui são questionados os limites aceitáveis de uma vontade de poder desmedida. A figura da loucura surge como uma espécie de praga punitiva pelos pecados cometidos pelo protagonista.

Toda a construção do filme acontece em um ritmo praticamente idêntico durante os 101 minutos de sua duração. Esse ritmo não chega a ser lento, mas em alguns momentos fica claro que a trama tiraria proveito de uma agilidade maior. O protagonista vai seguir uma linha narrativa única, explorando e sendo introduzido nas vidas de diferentes indivíduos inseridos no lugar.

A tentativa inicial bem-sucedida do homem em transparecer um estado mental deteriorado lhe dá um passaporte para caminhar e ser aceito pelos pacientes do local, explorando seus medos, angústias e prazeres, sempre com o intuito final de conseguir os elementos para desvendar o assassinato. E é por meio desses diversos contatos de Johnny no interior do local que talvez tenhamos o ponto alto do filme, nos trazendo a constituição de vida de alguns dos pacientes do hospital.

Conheceremos o jovem veterano de guerra atormentado pelo que viu, chegando a desenvolver uma obsessão nos construtos militares. Já em outra ponta teremos um jovem negro que, devido as constantes violências físicas e psicológicas sofridas em sua vida por sua cor, desenvolve outra personalidade, sendo agora um indivíduo que sente ódio dos negros, pregando violentamente contra eles. E, por fim, somos apresentados brevemente a um paciente que utiliza parte do seu tempo no lugar pintando diferentes coisas, mas que possui uma regressão a infância quando colocado sob algum tipo de pressão.

É por meio de todo esse contato com a loucura que Johnny acaba se familiarizando com ela de uma forma negativa. Naquele ambiente todos acabam agindo sempre no limite. Qualquer tipo de gesto pode ser o ponto de partida para uma grande confusão entre os pacientes no lugar. O filme sabe mostrar essa exacerbação que impera no lugar. E todo esse contato demasiado com o lugar acaba sobrepujando a motivação inicial de Johnny, despertando no homem um completo senso de confusão, o levando a quebrar seu contato com a realidade em alguns momentos.

Pouco a pouco Johnny vai sendo consumido pela loucura. Fuller evidencia a loucura como um vírus que se espalha pelo ar. Todos naquele ambiente estão contaminados, inclusive os médicos e enfermeiros. É esse paralelo que o filme faz, mostrando como o ambiente determina o nosso desenvolvimento. É mostrado aqui como o meio que nós vivemos determina inabalavelmente nossa completude como indivíduos no mundo. O conceito de livre-arbítrio é descartado por Fuller.

A direção do filme acaba seguindo uma estética defasada de se construir as cenas, parecendo algo oriundo da década de 1940. Fuller escolhe também por montagens de cenas diversificadas, tentando sempre utilizar enquadramentos que evidenciam a loucura presente em cada indivíduo do hospital psiquiátrico. Vale destaque para a sequência em que o protagonista sonha com sua namorada. Os recursos utilizados ali, a colagem de duas cenas em dimensões diferentes, acaba incomodando e se fazendo um pouco longa demais, porém se faz necessária para o que o filme nos propõe.

O elenco do filme está bem. Todos os componentes conseguem se enquadrar perfeitamente nos personagens que lhes foram oferecidos. Nenhum ator acaba pecando pelo excesso, algo que seria plausível em personagens tão intensos, não dando um ar muito teatral ao filme.

‘Paixões Que Alucinam’ é um filme regular que, pelo tema abordado, se faz necessário para resgatar um pouco da história entre essa relação entre loucura e cinema. Mesmo com a estilização de algumas situações, para que o filme se torne mais palatável e se enquadre em um modelo comum de cinema da década, Fuller entrega uma visão interessante sobre o assunto.

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