Crítica: ‘Uma Mulher Sob Influência’(1974), de John Cassavetes

Utilizando seu estilo cru, quase documental, que acaba por priorizar as construções naturais de cenas, John Cassavetes entrega com este filme uma obra intensa, que trata da derrocada à loucura de uma mulher. Um filme difícil de ser digerido, que vai explorar cada fragmento de cena da maneira mais contínua possível, onde seu diretor pouco se importa se isso será atrativo ou não para o espectador. ‘Uma Mulher Sob Influência’ é uma obra simples em sua construção, porém extremamente complexa em todos os seus desdobramentos.

O filme vai contar a história de uma família de classe média dos Estados Unidos que possui a difícil missão de lidar com a instabilidade mental de um de seus integrantes. A família é composta pelo casal Nick e Mabel Longhetti e seus três filhos pequenos. Nick tem a tarefa de trabalhar em um difícil serviço braçal, que acaba por consumir muito de seu tempo. O homem ainda tem que lidar com toda a instabilidade de sua esposa, que correntemente é acometida de comportamentos estranhos e perigosos. Iremos nos concentrar durante todo o filme nessa relação problemática entre a família, a luta de Nick em mantê-los unidos e a deterioração do estado psicológico de Mabel.

Os desnivelamentos iniciais do filme vão se limitar a mostrar os primeiros passos de Nick e Mabel, já em um ponto complicado de seu relacionamento, tanto na vida no trabalho do homem quanto o dia a dia turbulento de dona de casa da mulher. Esses pontos da vida do casal são levados à tela de maneira cadenciada, explorando um pequeno número de situações, mas procurando tirar o máximo de cada uma delas.

Nesses primeiros passos veremos a introdução do comportamento exacerbado de Mabel, agindo de forma quase que frenética em todos seus atos, onde uma simples resposta negativa do marido acaba por resultar em atitudes completamente ausentes de sentido. Esse comportamento disfuncional e autodestrutivo é evidenciado quando Mabel sai à noite, quando o marido está no trabalho, conhece um homem em um bar e acaba levando este para sua casa e passando a noite com ele. Mabel, no entanto, parece não ter conhecimento de seus atos.

A mulher troca o nome das pessoas, perde a noção de tempo, possui dificuldade em manter a atenção em algo por mais de alguns segundos e acaba tornando uma simples missão de pegar seus filhos do ônibus da escola uma tarefa hercúlea. Esse estado da mulher vai se agravando continuamente, implicando em sérias consequências até mesmo no comportamento do marido.

Nick passa a não possuir mais tempo para cuidar de si, tendo que se dividir entre o cuidado da esposa, trabalho e dos filhos. E, conforme a esposa vai perdendo o controle de seus atos, Nick acaba sofrendo um processo de exasperação junto com ela. Esse prolongamento no sofrimento do homem continua até ambos, ele e Mabel, chegarem a um ponto crucial de suas vidas. Nick se vê incapaz de continuar na situação quando percebe que até mesmo seu estado mental estava se deteriorando e notava que a vida de seus filhos corria certo risco. Mabel acaba chegando em um ponto de completa insanidade, acarretando em sua internação.

É nesse ponto que veremos o quão importante era a figura de Mabel na constituição de pessoa de Nick. O relacionamento do homem com seus filhos agora é regido por sua inabilidade em detectar quais são as necessidades das crianças. Cassavetes explicita aqui como esse modelo familiar tradicional americano é essencial para o pleno desenvolvimento de todos os indivíduos ali inseridos.

A reta final do filme traz a figura do retorno de Mabel e toda sua luta para não perder o controle novamente. Veremos o quanto aquele sofrimento na mulher é único a ela. Ela possui noção de seu estado. E, o mais triste, sabe que irá perecer novamente ao seu constructo psicológico comprometido. As cenas finais são simbólicas para representar como aquela família já vislumbrara a felicidade. Como, em outrora, eles já tiveram uma vida de normalidade. E essa figura da normalidade, tão desprezada por alguns indivíduos presentes naquela sociedade, traz um sentimento nostálgico aos dois.

A direção de John Cassavetes segue o modelo básico ao qual estamos acostumados em seu cinema. Teremos uma câmera focada em pegar sempre as expressões faciais de seus atores, utilizando enquadramentos extremamente próximos de suas faces. Será feito também uma completa análise do ambiente explorado, onde simplesmente todos os atores que compõem o quadro são incluídos em cada plano fechado, mesmo que estes não tenham o mínimo de importância para a história.  O diretor utiliza um modelo documental de filmar cada cena, deixando com que estas se encaminhem com toda a naturalidade possível. Cassavetes escolhe por limitar a quantidade de situações do filme, procurando destrinchar ao máximo cada cena. E, por fim, Cassavetes, com esse estilo documental preocupado nas expressões de seus atores, vai fazer um paralelo, junto com seu roteiro, sobre a concepção de loucura e cinema.

A proposta aqui é dar um olhar assertivo sobre tudo o que acaba por constituir as formas de loucura. A perspectiva é dar um olhar humanista, voltado para o indivíduo que sofre da patologia em questão. No caso, Mabel. Porém, indo além, veremos como tudo o que cerca o indivíduo acometido do distúrbio também é extremamente afetado. O emaranhado de loucura que rege o indivíduo acaba, como se fosse uma espécie de doença contagiosa, se alastrando para os componentes a sua volta, fazendo com que estes fiquem impossibilitados de continuar suas vidas.

Cassavetes ainda fará um estudo direto sobre a forma de como o indivíduo acometido pelo distúrbio encara o mundo. Mabel acaba se encaixando nos principais sintomas do transtorno de personalidade borderline, se fazendo instável emocionalmente, tendo uma desconexão com a realidade, uma senso de percepção completamente comprometido, medo exacerbado do abandono e comportamentos completamente impulsivos. É enumerando cada sintoma que veremos o quão perturbador é o estado que Mabel se encontra, de como é sofrível esse estado. E tudo isso só poderia ser colocado em tela da forma que aconteceu em detrimento da atuação arrebatadora de sua protagonista.

A atuação de Gena Rowlands, como Mabel, é irretocável. A triz usa e abusa de trejeitos aleatórios e soltos da realidade, dando um verdadeiro desfile de expressões faciais completamente ausentes de sentido, tratando por evidenciar o estado de sua personagem. Não parece que estamos assistindo uma atuação, a sensação é a de que ali, de fato, se encontra uma pessoa sem um pingo de sanidade. Rowlands também se faz elétrica em cada cena, destilando uma intensidade inerente a sua essência em cada momento em tela.

O resto do elenco também está ótimo, muito pelo bom trabalho de direção de atores de Cassavetes, com destaque para Peter Falk, interpretando Nick, que consegue transmitir ao espectador toda a inexatidão de suas atitudes com seu modo de andar e seu olhar expressando um cansaço em virtude daquelas situações.

‘Uma Mulher Sob Influência’ é uma obra impactante sobre os diferentes nuances do conceito de loucura em uma sociedade contemporânea. Um filme longo, com 155 minutos de duração, que procura explorar pequenos momentos intensos da vida de uma família em um período difícil. O maior acerto de Cassavetes é ignorar o passado e o futuro da família. O cineasta se propõe a mostrar esse período abordado da vida deles e nada mais. O destino da família Longhetti nós não sabemos, mas podemos confabular sobre o caminho difícil ao qual estão condenados.

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