Crítica: ‘A Liberdade é Azul’(1993), de Krzysztof Kieslowski

Dando início à trilogia das cores, Krzysztof Kieslowski entrega aqui um filme sensível e silenciosamente intenso sobre o processo de luto de uma mulher. ‘A Liberdade é Azul’ focará, durante os seus 98 minutos de duração, em todas as etapas enfrentadas pela mulher nesse tão doloroso processo. Para contar essa história, teremos uma direção quase impecável do maior cineasta polonês do cinema, uma cinematografia estonteante e uma trilha sonora que atua por transpor a confusão psicológica da protagonista.

A história vai girar em torno de Julie Vignon, uma mulher de 33 anos, que vê sua vida ganhar contornos cruéis após sofrer um acidente de carro e perder seu marido e filha. O filme irá nos trazer os passos da mulher depois desse triste acontecimento e sua luta para dar um novo sentido para sua vida.

O início do filme trabalhará por entregar ao espectador uma visão completa de tudo que permeia os ambientes explorados. Sempre prezando pela sensibilidade, teremos enquadramentos que tentarão expor a dimensão da situação enfrentada pela mulher, como a cena em que é informada que sua família havia falecido com a câmera pegando exclusivamente seu olho. Uma cena simples, mas que acaba por evidenciar todo o peso da notícia naquele exato momento.

O processo de luto se iniciará quando Julie retorna para sua casa e percebe o peso insuportável que sua vida ganhara. Julie vê que qualquer contato com os objetos e indivíduos que compunham sua vida de outrora somente lhe traria mais dor. E é neste momento que veremos uma espécie de morte simbólica da mulher refletida na sua completa fuga desse mundo pré-tragédia.

Julie demonstra uma repulsa inicial por simplesmente tudo que lhe faça relembrar do passado. Ela trabalha por se desvencilhar de todos os bens físicos e qualquer esboço de contraste humano que tinha, dando início a uma nova vida. O único elemento que transpõe as duas vidas de Julie é um objeto decorativo azul que evoca determinados sentimentos na mulher. Essa fuga passa longe de ser algo patológico para Julie. Pelo contrário, essa tomada de decisão somente acelera seu processo de luto. Novos contatos sociais surgem dali, novos sentimentos emanam e o ódio pelos caminhos da vida é extinto. É importante salientar que a ideia de sofrimento jamais é atenuada na mulher. O filme deixa claro que esse sofrimento passará a ser parte integrante e inseparável de Julie. E cabe a ela saber viver com isso.

O filme também expõe as características da personalidade de Julie. A mulher sempre passa segurança em suas decisões, uma assertividade preocupante para as situações que estão lhe afligindo. A solidão é algo ansiado por ela durante esse processo de luto. O único momento de incapacidade para lidar com a vida surge quando exposta a uma situação que requer que ela tire uma forma de vida contida na figura dos ratos que surgem em seu apartamento.

A reta final do filme irá nos trazer os desmembramentos de todas as atitudes tomadas por Julie e suas importâncias para o final(ou encaminhamento saudável) de seu processo de luto. Aos poucos, Julie começa a se reconectar com sua vida que deixara para trás. E Julie encontra segurança na figura mais improvável. É com a oportunidade de gerar uma nova vida que a mulher finalmente consegue encontrar forças para continuar sua vida. A possibilidade de saber lidar com a figura da morte que tentara excluir há pouco tempo agora passa ser uma opção.

Já adentrando ao campo da direção, teremos o fator que traz o brilho do filme. Como dito acima, Krzysztof Kieslowski preza por enquadramentos variantes, seja em objetos ou um ambiente por completo, que entreguem ao público toda a carga emocional que rege a figura de Julie. Em outros momentos, teremos planos que vão seguir alguns passos da mulher, como, por exemplo, um simples caminhar pela rua, intensificado por um fragmento mostrando a mulher se autopunindo ralando sua mão em uma parede. Kieslowski sempre vai trabalhar com essa intensidade presente nas menores cenas. É exatamente isso que deixa o filme mais dinâmico e traz um peso maior a cada cena.

Essa intensidade é também exposta na trilha sonora de Zbigniew Preisner, que sempre procura evidenciar determinado sentimento da protagonista. Ela é regida por um ritmo crescente. A cada cena ultrapassada as composições utilizadas acabam ficando mais frequentes.

Outro ponto que certamente merece destaque é a cinematografia impecável do filme. Comandada por Slawomir Idziak, ela também seguirá a linha da trilha sonora na questão da exposição crescente nos tons azuis presentes no filme. Essa exposição começa cautelosa nos minutos iniciais, porém começa a tomar conta do quadro gradativamente conforme a obra avança.

Esse azul serve para transpor ao público os nuances psicológicos que acabam por reger a constituição de Julie. Tranquilidade, melancolia, serenidade e frieza são atribuídas à cor e se adequam precisamente na fase que a mulher se encontra.

Toda essa construção quase impecável do filme jamais se justificaria caso a protagonista do filme não seguisse esse padrão de excelência. E ela segue. Juliette Binoche, na época com 29 anos, é um emaranhado de emoções exacerbadas. Toda a construção de sua personagem e atuação é feita através da utilização do silêncio nas cenas mais impactantes. A mera expressão facial da atriz serve para elencar no espectador todo o simbolismo presente nas cenas. Uma atuação simplesmente impecável e uma das melhores de sua carreira.

‘A Liberdade é Azul’ é uma obra-prima em todos os seus aspectos. Um filme que mostra de maneira única as diferentes fases de um indivíduo inserido a um processo de luto. Toda a sensibilidade presente na hora de mostrar fragmentos duros do filme ajuda na absorção da obra pelo espectador. Seu diretor jamais apela por cenas chamativas ou gratuitas para emitir emoções em quem assiste o filme. As emoções emanadas no espectador são genuínas, fruto do roteiro e direção competentes. Kieslowski nos mostra aqui toda a beleza contida na tragédia da vida humana.

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