Crítica: ‘Chatô – O Rei do Brasil’(2015), de Guilherme Fontes

Polêmico em todo o seu longo processo de produção, ‘Chatô – O Rei do Brasil’ vale toda essa espera. Utilizando uma história não cronológica, fazendo um estudo do comportamento de seu protagonista e se valendo sempre do que há de mais tradicional no âmbito cultural nacional, o filme é uma das maiores surpresas dos últimos anos. Seu diretor estreante, Guilherme Fontes, proporciona aqui um trabalho irretocável do primeiro ao último minuto de execução. O filme ainda se constituirá por pautar-se em vários momentos com referências em ‘Scarface’(1983), ‘Bugsy’(1991) e, principalmente, em ‘O Show Deve Continuar’(1979).

O filme, baseado no livro de Fernando Morais, vai acompanhar os passos de Assis Chateaubriand, uma figura polêmica e um dos nomes mais influentes no Brasil entre as décadas de 1940 e 1960. Jamais adquirindo uma substância biográfica, o filme nos traz toda a vida do personagem, alternando entre diferentes esferas temporais e evidenciando seu comportamento excêntrico e sua problemática relação com Getúlio Vargas.

Seguiremos sempre um ritmo um tanto quanto onírico aqui. Desde as primeiras cenas, veremos que o filme descarta uma linha temporal habitual, alternando entre diversos fragmentos não ordenados da vida de Chateaubriand. Em um momento estamos inseridos em sua juventude obcecada por conhecimento e, na cena seguinte, no entanto, veremos o homem em sua vida adulta, depois de obter seu poder financeiro e pessoal, nutrindo uma vida sexual bastante ativa. Durante todos os 102 minutos de projeção, ficaremos fazendo esse trajeto desordenado que acaba por funcionar perfeitamente.

Ao longo do filme, veremos diferentes nuances dos comportamentos dispostos pelo protagonista. Sua personalidade obsessiva, controladora, excêntrica e, quase sempre, assertiva é entregue aos olhos do espectador cena a cena, sem pressa ou qualquer tipo de afobação no roteiro. Toda essa construção produtiva do filme acerca do personagem acaba incutindo diretamente em sua natural leveza.

Apesar de buscar diversas referências, de história ou estilo, americanas, o filme sempre se preocupará em manter seus pés bem firmemente no cenário nacional. Costumes e maneirismos, bem como toda uma atmosfera cultural, estão contidos aqui. Seu protagonista, Chateaubriand, é um testemunho de amor a tudo isso que permeia o agir do brasileiro no mundo. Seja dispondo gestos positivos ou, em sua maioria, negativos, inabalavelmente, Chateaubriand é um espelho do brasileiro comum.

Conforme a história avança, e principalmente em seu eixo final, teremos uma constante exposição de cenas que só acontecem na cabeça de nosso protagonista. Como uma espécie de julgamento moral, Chateaubriand é atingido por tudo aquilo que um dia havia ferido. Antigas namoradas, parceiros de profissão e companheiros políticos fazem sua aparição nesse julgamento para atirar a última pedra sobre o homem. Um calvário inexistente, mas, não menos, danoso.

Durante toda sua duração o filme faz bastante o uso de referências de obras americanas de sucesso do mesmo nicho. A história épica da construção de um império, pautado sempre no poder, pegará suas referências de ‘Scarface’. O constructo psíquico exacerbado do protagonista, com uma exposição de seus comportamentos atípicos, pegará diversos fragmentos do que já havia sido mostrado em ‘Bugsy’. No entanto, o maior campo de referências usado pelo filme é de ‘O Show Deve Continuar’. A história, construções de cenas, alguns dos comportamentos do protagonista e toda a atmosfera onírica presentes aqui já haviam sido expostos no clássico musical da década de 1970. Teremos planos praticamente idênticos, principalmente aqueles condensados com Chateaubriand no hospital e os fragmentos finais de seu julgamento moral inexistente. Todas essas referências, mais necessariamente a última, somente dão mais brilho a toda completude do filme.

A direção de Guilherme Fontes é o ponto de maior destaque em toda a obra. Fontes trabalha muito com planos que não medem esforços para captar a melhor cena, com uma grande variedade de ângulos, sempre tendo como foco uma absorção completa dos cenários utilizados. Seu estilo direcional se guia, também, por uma câmera móvel, jamais se pautando em quadros fixos, procurando sempre seguir a ação de cada cena. Se a cena em questão, por exemplo, acontecer em uma sala e lá estiverem três personagens, essa câmera trabalhará por expor todos na mesma medida e com uma disposição de planos variados.

Vale também destacar a edição e cinematografia do filme. A cinematografia, comandada por José Roberto Eliezer, vai se pautar no uso de cores bem contrastadas e saturadas, utilizando tons fortes que trazem peso às cenas mais substanciais do filme. A edição, feita por Felipe Lacerda, vai aderir à proposta de Guilherme Fontes na direção e trabalhar por dar dinamicidade a simplesmente todas as cenas, com uma infinidade de cortes que jamais deixa que o filme perca ritmo.

O elenco não destoa do resto do filme e também desempenha um papel impecável. Vamos ter nomes como Andrea Beltrão, Leandra Leal e Paulo Betti formando as bases secundárias do filme. Todos regem atuações mais alocadas no senso exagerado de cada situação. Esse exagero é essencial para toda a proposta do filme. Como protagonista, veremos Marco Ricca dar um verdadeiro show no papel de Chateaubriand. Exagerado, como seus companheiros, Ricca utiliza de uma atuação debochada, com falas contundentes, um sotaque criado aceitável e expressões físicas ricas em movimentos. O ator consegue criar uma aura única a seu personagem, deixando o espectador ansioso a cada cena ultrapassada pela exposição do conflito seguinte. Atuação magistral desse grande nome do cinema nacional e é sempre válido apontar e enaltecer atores como este.

‘Chatô – O Rei do Brasil’ é uma obra que merece atenção no cenário nacional. Atuações de extrema qualidade, parte técnica irretocável e uma direção dedicada são apenas alguns espectros do que rege esse grande filme. Guilherme Fontes, devido as incontáveis polêmicas sobre o filme, algo que não é trabalho desta crítica enumerar, dificilmente terá novas chances para dirigir obras em um campo comercial mais expandido durante os próximos anos, mas seu trabalho exercido aqui é digno de atenção. Um filme que passa muito rápido e acaba deixando o espectador com o sentimento de querer ver mais da história de nosso protagonista.

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