Crítica: ‘A Mulher do Lado’(1981), de François Truffaut

Utilizando de uma aura poética inerente ao cinema francês, François Truffaut nos traz uma obra sobre a mumificação do passado na vida de dois indivíduos. ‘A Mulher do Lado’ investiga o aspecto da imaturidade permanente presente em algumas pessoas, o construto de personalidade vai ser esmiuçado e, ainda, teremos o filme nos apresentando à noção de tempo como uma instituição efêmera e leve. O penúltimo filme da brilhante carreira do cineasta francês é um deleite para seu público tradicional, onde coerência e concisão são apenas alguns dos adjetivos que podem ser empregados aqui.

A trama nos colocará em um pequeno bairro rural da França, onde Bernard Coudray vive tranquilamente com sua esposa e filho. No entanto, toda essa tranquilidade acaba quando uma antiga paixão de Bernard, a bela Mathilde Bauchard, passa a morar na casa ao lado com seu marido. É neste momento que veremos uma eclosão adormecida de sentimentos invadirem os dois, levando-os a questionarem suas vidas atuais e determinados fatos incompletos do passado.

O ritmo inicial do filme sempre trabalhará para emanar mistério de sua atmosfera. Não sabemos o que rege os personagens e, quando expostos a situações em que ficam desconfortáveis, não conseguimos identificar tais comportamentos. Todo esse início servirá para elencar no espectador uma curiosidade quanto à figura do passado, até então omitida pelo filme.

O grande traquejo da obra é saber avançar por sua história sem necessidade de pressa. Teremos todos os conflitos e situações que surgem durante o filme destrinchadas calmamente, onde a possibilidade de avançar para a cena seguinte só irá se concretizar quando a atual chegar plenamente ao seu desfecho. Tudo isso traz peso ao roteiro(escrito por Suzanne Schiffman, Jean Aurel e François Truffaut).

Há também no filme um uso demasiado da figura poética que tange os relacionamentos e falas dos personagens. Este uso demasiado se faz necessário ao conteúdo que o roteiro nos propõe, servindo para o espectador poder ter um esboço do conteúdo psicológico exacerbado presente em toda aquela figura do romance proibido e do passado insuperável.

Logo o filme se pressupõe, conforme vamos tendo uma maior noção das personalidades dos dois personagens centrais, a trazer um embate entre maturidade/imaturidade. Aqui esses dois conceitos sofrerão um processo simbiótico, jamais podendo se distinguir um do outro nas figuras de Bernard e Mathilde. Toda aquela aura instintual e agressiva presente nos dois em um passado distante, retorna assim que os dois se reveem pela primeira vez. O aspecto de maturidade adquirida através do tempo, com os personagens construindo novas famílias e laços de amizades, se destroem gradualmente quando os dois se veem na presença do outro.

O filme faz questão de expor os traços incongruentes das personalidades de ambos. Bernard, antes um homem calmo, gentil e preocupado, foge para um contorno obsessivo, agressivo e dissimulado. Mathilde, antes assertiva e atenciosa, recorre a um senso manipulador, patológico e irregular. E é das disparidades de personalidades que teremos uma clara noção da figura estática do passado.

O passado é retratado, por intermédio das vidas de Bernard e Mathilde, como algo de significância única na vida do indivíduo. A vivência de algo único, forte e definitivo se torna um fenômeno empedernido no ser humano. Não empedernido como uma esquete isolada, mas uma junção de toda a vida do indivíduo. Este indivíduo se vê incapaz de projetar um futuro ou, até mesmo, analisar e agir sobre o presente. Tanto para os estoicos quanto na filosofia de Nietzsche, o passado é visto como uma estrutura danosa na vida do ser humano. Tentar reviver experiências de outrora nos fazem esquecer do aqui e agora, algo único e o mais importante para essas duas correntes citadas. E aqui, com Bernard e Mathilde, é exatamente isso que acontece. Os dois se fazem presos em um mundo inexistente, vítimas de uma incapacidade, até mesmo, social de avançar sobre o constructo da vida. Essa incapacidade determinará a derrocada de ambos os personagens.

A reta final do filme acaba tendo uma leve perda de qualidade, mas não o bastante para comprometer algo do que havia sido exposto até ali. As situações ganham uma maior aceleração, e, às vezes, perdem o peso. Porém, é com essa aceleração que o filme nos apresenta o tempo como uma unidade efêmera, quando cada ato dos personagens sobre o mundo acaba tornando-se repetitivo e o momento parece durar cada vez menos. Veremos os personagens avançarem através do tempo sem, no entanto, evoluírem ou crescerem como indivíduos.

A direção de François Truffaut vai sempre priorizar expor as feições de seus personagens mediante os conflitos que vão surgindo em tela. O francês utiliza muitas vezes planos fechados e “close-ups” para caracterizar essa relação( e transposição) entre público e espectador. Truffaut também lida muito bem com o tempo de filme, nos entregando cenas que atingem o limite no quesito artístico ou no próprio tempo corrido das mesmas. Os tropeços acabam acontecendo no campo da edição, comandada por Martine Barraqué, quando algumas cenas ficam soltas em meio ao conjunto total. Já a trilha sonora Georges Delerue vai ter uma atuação discreta sobre o filme, sempre presente apenas para pontuar algum desfecho ou momento emocional dos personagens centrais.

O elenco, formado em seu eixo principal por Gérard Depardieu e Fanny Ardant, possui aqui uma presença segura. Ambos conseguem adentrar em toda a atmosfera instável e insegura que rege as atitudes de seus personagens. Ardant sempre vai emanar em tela toda uma atração e beleza que age sobre o resto do filme. Depardieu é mais calmo, dominando cada cena apenas com sua postura.

‘A Mulher do Lado’ segue todo aquele já solidificado padrão de qualidade ao qual François Truffaut está introduzido. Truffaut expõe como a constante aura deveniente presente no ser humano aqui é inexistente. O filme trata suas figuras principais como sujeitos imutáveis, presos em uma realidade que já não mais existe. Concomitante a isso, o francês ainda enumera itens tradicionais de sua filmografia, como infidelidade matrimonial, a naturalidade da morte, a incongruência do comportamento humano e a questão da tragédia, tão popular na mitologia grega, como algo natural e um fator rígido.

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