Crítica: ‘O Dinheiro’(1983), de Robert Bresson

Partindo do pressuposto básico do dinheiro como o reforçador universal mais influente nas relações interpessoais, Robert Bresson nos traz todos os desdobramentos dessa relação patológica entre o ser humano e esse elemento. Teremos analisadas diante de nós várias construções que, conforme a evolução do ser humano através do tempo, foram ficando cada vez mais egoístas e voltados unicamente para o ganho pessoal. O filme traz o contato social como uma forma do indivíduo obter vantagens, e não para um bem comum a todos. Como último fator, ainda veremos o filme nos apresentar a teoria do acaso como uma conjunção de fatores preponderantes para nossa atividade no mundo e ainda fazer uma crítica ao sistema social e econômico que imperou no século XX e continua comandando as ações até hoje.

A história do filme segue, inicialmente, a trajetória de uma nota de dinheiro falsa. Essa nota vai caminhar de mão em mão, até, finalmente, ter seu destino final que norteará os caminhos da trama. O filme trabalhará, durante os seus curtos 85 minutos de duração, por esmiuçar como essa nota falsa e toda a contextualização no inconsciente coletivo do ser humano sobre o dinheiro pode influenciar em vidas alheias, deixando-as marcadas e condenadas, sem a oportunidade de nenhum tipo de reviravolta.

Os minutos iniciais da obra nos apresentarão toda uma noção do dinheiro como um item presente em todos os tipos de intercâmbio social. Esse dinheiro vai reger as relações de uma rica família, atuar sobre uma pequena loja de fotografias e guiar os passos de um trabalhador inocente. É importante ressaltar que esta figura do dinheiro atuará como uma espécie de divindade nas relações sociais, onde cada conversa emanada no filme sempre terá o dinheiro como primeira ou última motivação.

O filme também apresenta todas essas relações sociais expostas como uma coisa utilizada unicamente para um ganho pessoal. Todos os diálogos sempre terão o benefício pessoal como substância. O problema, entretanto, aqui, é que por mais danosa que essa atitude já seja, ela ainda visará não somente o ganho pessoal, mas, também, o prejuízo do outro indivíduo. E esse benefício próprio sempre será regido pelo dinheiro.

O dinheiro é definido, tendo em vista uma perspectiva behaviorista sobre o ser humano, como o reforçador universal mais influente nessa relação indivíduo e mundo. Essa perspectiva de dinheiro como um reforçador universal é simples e embasada na forma de que sempre, quando expostos a este reforçador, teremos nossos comportamentos repetidos e solidificados, aumentando enormemente a probabilidade de estes se repetirem. Ou seja, um indivíduo, como no exemplo do filme, que sempre quando inicia uma conversa com sua mãe ganha, ao seu término, uma quantia em dinheiro, terá essa atitude de iniciar uma conversa com essa mãe fixada e repetida sempre.

É neste momento que temos uma clara noção de como o dinheiro irá agir sobre as relações interpessoais e aumentará a probabilidade de elas se repetirem. Esse dinheiro também terá um efeito punitivo muito forte, onde a sua ausência poderá servir para construir novos comportamentos ou extinguir outros. É o dinheiro usado como ferramenta de controle e previsibilidade do comportamento humano.

A reta final do filme nos apresentará, finalmente, a figura de acaso como cruel e definitivo. Os personagens centrais acabam adentrando em um emaranhado de situações adversas que atuarão para determinar e destruir toda uma construção de personalidade de outrora. Cada espectro de cena evidenciará uma conjunção aterradora do conceito de acaso eclodir em tela, onde uma simples nota de dinheiro poderá destruir dezenas de vidas.

Esses últimos minutos também irão fazer uma crítica a um sistema social que atua por destruir indivíduos, ao invés de recuperá-los. Seja no âmbito prisional, familiar ou empregatício, todas essas relações vão, inexoravelmente, fazer um trabalho contra o ser humano, e, apesar de esse modo de agir seja algo inerente ao sujeito, estando presente no mundo desde sempre, as críticas jamais vão se fazer inúteis, apesar de apresentarem um contorno niilista sobre a vida.

A direção de Robert Bresson focará em nos mostrar determinados objetos, sempre utilizando planos fechados, deixando tatuado na cabeça do espectador a importância daquilo para o desenvolvimento do filme. Bresson também escolhe por criar uma atmosfera crua, onde cada diálogo reverbera em um tom maior mediante as cenas. Vale salientar que Bresson também escreve o roteiro, baseado num conto de Leo Tolstoy, e consegue essa maior flexibilidade na adequação de cada cena. Porém, talvez o maior erro do filme seja o de escolher não utilizar uma trilha sonora, deixando algumas cenas mais pesadas do que deveriam.

O elenco surge como uma ferramenta de segunda importância para o filme. Os atores acabam tendo uma exposição baseada mais em suas completudes físicas do que, propriamente, em suas atuações. Os diálogos do roteiro são mais enxutos, contribuindo para esse distanciamento entre ator e espectador.

‘O Dinheiro’ acaba se notabilizando como um filme regular em sua execução, mas brilhante em sua proposta. A decisão de trazer para as telas uma questão tão difundida no mundo, entretanto, ignorada pela grande maioria, é de uma sutileza e pontualidade precisas. Um filme atemporal, que acaba por se enquadrar nos dias atuais e, muito provavelmente, permanecerá em voga em um futuro próximo.

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