Crítica: ‘Reflexões de um Liquidificador’(2010), de André Klotzel

Guiando-se por um senso criativo exasperado, André Klotzel entrega aqui uma obra perspicaz e honesta sobre a vida em seus eixos mais puros. ‘Reflexões de um Liquidificador’ ainda vai ponderar sobre questões existenciais, fará uma leve fuga da realidade e irá transpor, na figura de um objeto inanimado, o fator que elevará o ritmo da trama e trará substância ao filme.

A trama é simples e pontual, trazendo a história de Elvira, uma mulher já com certa idade, que acaba por registrar um boletim de ocorrência sobre o desaparecimento de Onofre, seu marido. O filme passará os seus 80 minutos de duração nos trazendo pequenos fragmentos do presente e passado desses dois personagens, sempre com o intuito de desvendar o mistério sobre o desaparecimento da trama. No entanto, o filme traz um detalhe a mais em sua síntese, a figura de um liquidificador falando que conversa com a protagonista do filme.

 O filme sempre terá em sua essência um desprendimento da realidade para contar sua história. Há aqui uma licença poética exercida pelos realizadores para poder dar agilidade no que é passado ao espectador e fazer com que este se sinta atraído pelo que o filme tem a mostrar. E isso acontece.

Em detrimento de um orçamento enxuto, o filme terá que se adaptar a uma limitação de ambientes explorados, focando na casa de Elvira para reger a maioria dos conflitos e resoluções da história, e um tempo de duração pequeno, onde as situações não possuem muito tempo para serem expostas em sua completude. Para poder fazer isso, a direção sempre se norteará por uma criatividade ímpar.

O mistério que permeia a trama sempre será exaltado, onde as pistas passadas ao público são soltas de forma dosada, procurando provocar o senso investigativo do espectador. A história possui vários pontos distintos, desde a relação de Elvira com a polícia e a investigação em si até suas conversas com sua vizinha, por isso se faz necessário a separação de duas vertentes distintas dentro de uma mesma história que acabará por se ligar em determinado ponto da obra. Essas vertentes serão divididas no presente, com a investigação em curso, e o passado, onde veremos a relação de Elvira e Onofre ser destrinchada e o surgimento das conversas da mulher com seu liquidificador.

É importante, neste ponto, destacar o papel crucial que essa figura do liquidificador tem sobre o filme. O liquidificador atuará aqui como uma espécie de narrador velado da história, introduzindo-nos os personagens, suas vivências e, até mesmo, suas próprias motivações no mundo. Inicialmente podendo ser avaliado como uma figura da psique esquizofrênica da protagonista, o liquidificador, conforme o avançar da trama, “chutará” essa possibilidade. Esse liquidificador fará parte de toda aquela licença poética citada acima. Seu papel aqui, além de narrador, é de despejar em tela todo um questionamento existencial sobre nosso papel no mundo, os mistérios de nossa origem e a condenação a ser uma entidade pensante. Tudo isso é conduzido de maneira magistral pelo filme, fazendo o espectador se sentir completamente atraído por aquele objeto falante.

A direção, que parte de um pressuposto inventivo já citado acima, dá a possibilidade do roteiro pouco usual, escrito por José Antônio de Souza, conseguir sucesso. A limitação de locais para gravar passa longe de ser um problema para André Klotzel. Aqui ele faz dessa limitação uma arma para apenas poder investigar com maiores detalhes a casa onde se passa a maior parte do filme, conseguindo nos mostrar os inúmeros objetos que circundam o lugar e a vida daqueles personagens em meio àquilo. Tudo isso feito com a utilização de uma câmera “curiosa”, que sempre procura por um ponto novo naquele ambiente para trazer ao público.

Vale também destacar a trilha sonora e a edição do filme que fazem um excelente trabalho em atenuar o conteúdo transmitido ao espectador. A edição, comandada por Leticia Giffoni, atuará para dar agilidade em cada espectro de situação e fazer com que a utilização de cenas mais gráficas sejam dispensadas para completar determinados conflitos. Em contrapartida a isso, a trilha sonora, trabalho de Mário Manga, irá transpor ao público toda a estranheza que rege a atmosfera do filme, utilizando composições leves, que pontuarão cada cena na medida certa.

O elenco é composto por peças que terão algum papel bastante importante para a história. Todos exercem atuações que se enquadram na proposta no filme, sempre com entonações e expressões faciais levemente alteradas. A protagonista do filme, a atriz Ana Lúcia Torre, segue esse padrão, entregando sempre cenas mais exacerbadas. O maior acerto da atriz, no entanto, se faz nos diálogos sozinha, onde conversa com o liquidificador. Este liquidificador, por sua vez, narrado pelo excelente Selton Mello, é o grande destaque. Selton Mello consegue fazer com que o espectador se sinta comovido com a história de vida daquele objeto, utilizando de sua já conhecida fala rápida para agir sobre o filme.

‘Reflexões de um Liquidificador’ é uma pérola do cinema nacional. A decisão de quebrar parcialmente com a forma convencional de contar uma história é o que dá substância a obra. E o trabalho esforçado de André Klotzel a frente da direção somente evidencia isso. Um filme leve, um ótimo entretenimento para qualquer momento do dia e que nutre todo um senso questionador existencial em seu âmago.

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