Crítica: ‘Código Desconhecido’(2000), de Michael Haneke

Haneke, em mais uma crítica aos caminhos trilhados pela sociedade ocidental contemporânea tradicional, questiona a falta de entendimento social entre os seres humanos. Visceral e com um estilo filmográfico cru, ‘Código Desconhecido’ trabalhará, sempre tendo a sociedade como força propulsora para a trama, com a injustiça social, o poder do acaso e explicitará pontos do lado insosso da existência, além de evidenciar os diversos caminhos que a vida humana percorre.

A trama abordará, em especial, as vidas de três personagens ligados unicamente por um incidente envolvendo esferas podres da injustiça social. A partir desta premissa, o filme passará os seus 118 minutos de duração investigando os laços sociais dos personagens, explorando cada âmbito, não importa o quão pequeno sejam, de suas jornadas no mundo.

Logo em sua cena de abertura, expondo uma aura claustrofóbica, somos apresentados a um jogo de mímica, regido por crianças com deficiências auditivas, no qual jamais, nós (espectadores) ou os próprios participantes do jogo, saberemos a resposta. Esse começo, explicitando a ausência de respostas, ou, até mesmo, entendimento, de forma singela e simbólica, propicia resquícios do que acompanharemos a seguir.

Guiando-se pelo que há de mais comum na filmografia do diretor, o início trabalha de forma dura com o espectador. Não somos apresentados aos personagens, situações ou eventuais direcionamentos da trama, tudo o que temos são fragmentos do filme pulsando em nossa frente sem explicação. Explicação que, aos poucos, vai sendo introduzida com a ultrapassagem de cena para cena.

Todo aquele simbolismo da cena inicial servirá para montarmos o quebra-cabeça que irá compreender o cerne da história. Teremos, então, a exposição de um compêndio de personagens, com abordagens efêmeras, se encaminhando para a cena mais importante do filme, que norteará toda a trama.

Nesta cena, na qual o acaso trabalhará pela primeira vez no filme, teremos os três personagens centrais da história, em companhia com mais outro secundário, sendo vítimas de um incidente social. Normal como o simples ato de jogar algo no lixo, um dos componentes da cena outorga no ambiente um ato de exacerbação contra a síntese do ser humano, sem nem ao menos se dar conta do efeito danoso de seu ato. A partir do ato deste componente, em um emaranhado de repulsa ou, até mesmo, normalidade, outros personagens são introduzidos na cena, resultando, como habitual em sociedades tradicionais, a culpa sempre ser atribuída ao mais fraco. Utilizando esse episódio de injustiça social, com a ausência de um intercâmbio social factível, o filme se propõe a trazer os desnivelamentos do acontecimento nas vidas de todos os envolvidos.

O filme emprega um ritmo lento, trabalhando ao máximo o que cada cena pode oferecer em conteúdos implícitos. Assim como a cineasta Chantal Akerman eternizou décadas antes em ‘Jeanne Dielman’(1975), o sentido dos elementos trazidos ao espectador não precisam ser sempre evidentes e de fácil compreensão. Ambos optam por empregar cenas em que todo o cerne da existência humana esteja escondido. O ponto mais claro desta ideia, assim como sua ligação com a obra-prima de Akerman, se aloca na cena em que a personagem de Juliette Binoche passa roupas, expondo toda a camada insossa que a existência pode conter, em um plano cadenciado e longo. Talvez seja essa a cena do filme que mais explicite a genialidade do cinema de Michael Haneke.

Vale a pena destacar mais um fragmento importante, talvez perdido no grande compêndio de cenas do filme. Há, como em filmes como ‘O Vídeo de Benny’(1992) e ‘O Sétimo Continente’(1989), ‘Caché’(2005) e ‘O Tempo do Lobo’(2003), a inclusão de uma cena em que acontece o abatimento de animais. Essa cena representa toda a forma exacerbada de agir que o ser humano aprendeu a desenvolver em nossas sociedades, banalizando a vida e a violência.

A reta final trabalha em comunhão com todos os caminhos trilhados pelo filme. Aqui, seguiremos nas rotinas dos personagens, aprendendo um pouco sobre suas formas de agir e tendo uma noção das discrepâncias entre classes. No entanto, como uma jogada irônica do acaso, na famosa cena do cuspe com a personagem de Juliette Binoche, veremos indivíduos outrora beneficiados por uma injustiça social, agora sendo vítimas dela. Tal cena nos mostra que, diferente do senso comum, as esferas da injustiça social atingem todo o âmbito social, mesmo que de formas e magnitudes diferentes.

Inserindo-nos na direção do filme, veremos um trabalho impecável de Michael Haneke (também responsável pelo roteiro). Haneke, de forma bastante parecida que conduziu o filme ’71 Fragmentos de Uma Cronologia do Acaso’(1994), limitará a quantidade de cenas trazidas ao espectador, utilizando, na grande parte das vezes, planos longos, a fim de captar toda a densidade das situações da trama. Esses planos longos, efetuando-se como pequenos planos-sequência, tornam a necessidade de cortes e a atuação da edição menores, dando mais visceralidade ao que está sendo exposto.

No âmbito do elenco, não obteremos espaço para o destaque dos atores. O que compreende a beleza do filme é a sua atmosfera, seu ambiente. No entanto, comandando grande parte das ações do filme, temos a atriz francesa Juliette Binoche. É sempre repetitivo falar sobre a atriz, tendo o simples fato que a francesa sempre atinge o grau mais alto de atuação em seus filmes, mas vale citar a intensidade de Binoche em algumas cenas mais densas.

Assistir a um filme de Michael Haneke é ter acesso ao que há de melhor no cinema. Aqui, mesmo não se amparando no que tem de mais substancial na filmografia do diretor, temos uma grande conjunção de histórias que trabalham sobre a vida em suas mais diversas ramificações. Um filme duro, que exige muito de seu espectador, mas que promove, ao seu término, um sentimento de avaliação das instâncias que compõem a vida.

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