Crítica: ‘Fúria Sanguinária’(1949), de Raoul Walsh

Trazendo a derrocada à loucura de um personagem sem escrúpulos, ‘Fúria Sanguinária’ é uma obra irretocável, conseguindo expor várias nuances diferentes, mesmo com determinados exageros, de indivíduos intrínsecos a modelos de vida erráticos. O filme ainda conta com uma narrativa aprazível e bem conduzida, uma dinamicidade inerente ao andamento das cenas e um final marcante para o cinema da época.

A trama do filme nos apresenta a história de Cody Jarrett, um criminoso impiedoso, líder de uma gangue que efetua roubos de grandes proporções, que, após ser colocado contra as paredes pelas autoridades, decide armar um plano para ter uma sentença pequena e passar menos tempo na cadeia. O filme ganhará substância quando a vida na cadeia passa a se tornar insustentável para o homem, levando-o a tentar uma fuga desesperada.

O início da obra é rápido, direcionado ao ponto central que será trazido ao público, mostrando Cody e sua gangue efetuando um roubo a um trem. Neste roubo, após algumas mortes desnecessárias de pessoas inocentes, poderemos ter um esboço do compêndio que compreende o comportamento do personagem, expondo sua maneira fria de lidar com determinadas situações e sua falta de apreço à vida humana. Falta de apreço que faz com que o homem seja visto como inimigo, até mesmo, dentro de sua gangue. Seus comportamentos exacerbados são destrinchados e, com isso, chegaremos ao cerne de sua essência quando somos apresentados a mãe do homem.

Essa mãe, ciente de todas as atitudes do filho, serve para nortear as atitudes do homem. Cody evidencia com comportamentos e abertamente declara que a única pessoa em quem confia é sua mãe. A relação simbiótica entre os dois é o que deixa, de fato, Cody uma figura potencialmente perigosa. E quando há a quebra entre essa união, o homem, completamente instável, começa a dispensar sinais de loucura contra o mundo.

Encontraremos um emaranhado de situações prejudiciais ao homem quando este vai preso, vendo-se separado de sua mãe. Longe da figura materna, Cody passa a agir sem nenhum tipo de filtro, tendo comportamentos bizarros e extremos, além de se mostrar vulnerável aos estímulos danosos do lugar.

O interessante da trama é que ela sempre abordará dois fragmentos de história. Alocaremos-nos na parte central, com a exposição da vida intensa de Cody, e, também, teremos uma expansão da história para o cerco investigativo nas autoridades para manter o homem preso. Essa dicotomia na história trabalha por propiciar ainda mais velocidade a uma trama já acelerada.

Toda essa dinamicidade ao contar sua história, sem, no entanto, perder a substância de seus personagens, deixa que o conteúdo fique mais aprazível para o espectador, evitando que algumas cenas fiquem cansativas ou insossas. Esse ritmo estará presente durante todo o filme.

No entanto, o filme reserva o melhor para a reta final. Passaremos a acompanhar o personagem central romper com os últimos esboços de sanidade que o compreendiam. Perdas familiares, traições e a iminente solidão acabam trazendo ainda mais sofrimento ao homem. Porém, mesmo com todas essas questões, o indivíduo ainda encontra forças para continuar sua rotina destrutiva, que, por fim, culminará em uma última cena apoteótica, explicitando todos os conceitos que o filme trabalhou acerca de seu personagem central.

Caminhando para o campo da direção, veremos Raoul Walsh nos propiciar um trabalho impressionante. O lendário diretor consegue dar vida ao roteiro conciso e eficiente, escrito por Ivan Goff e Ben Roberts, com planos imersivos em seu protagonista. Walsh propõe aqui uma atmosfera quente, sempre utilizando componentes do cenário ou, propriamente, o clima, para evidenciar simbolicamente a dimensão do comportamento do personagem. Nas cenas mais movimentadas, como a abertura, com o roubo do trem, ou a final, o diretor consegue trazer construções densas, fazendo o espectador realmente se importar com os desnivelamentos da história. E, claro, o diretor encontra no ator que comanda o filme o elemento crucial para tudo o que foi construído.

James Cagney, no papel de Cody Jarrett, entrega uma atuação fantástica. O ator, sempre intenso em cena, transpõe ao público uma forma de andar e gesticular rude, bem como olhares e expressões de enojamento quanto ao ambiente ao seu redor. Cagney é tão bom que, mesmo incorporando um personagem completamente desprezível, faz com que o espectador sinta certa empatia por Cody. Uma atuação soberba e que consegue sobrepujar outras figuras positivas do elenco, como Virginia MayoSteve Cochran e Edmond O’Brien.

Fúria Sanguinária’ consegue obter sucesso em, simplesmente, todas as suas investidas. Um filme com eventuais exageros ficcionais, todos bem utilizados, que consegue entregar ao seu espectador elementos substanciais sobre um personagem atravessando por uma jornada errática sobre o mundo. Direção e atuações complementam a qualidade do roteiro, fazendo com que este filme tenha seu lugar especial no cinema.