Durante 110
minutos temos personagens se revelando, um diante do outro, deixando cair suas
máscaras e embarcando nos grandes dilemas que a vida oferece. Louis Malle foge de seu estilo habitual para tentar entregar um filme sobre a
história de um jantar, sobre os problemas de duas pessoas, suas alegrias e, o
mais importante, suas vidas.
No início do
filme, somos apresentados ao personagem Wallace Shawn, um homem de meia idade, desiludido, que tem que lidar em seu dia a dia
com a ideia de que tomou as escolhas erradas em sua vida. A trama vai se
desenvolver a partir de um evento que terá que participar naquele dia em
questão. Shawn irá reencontrar um velho amigo, Andre Gregory,
para um jantar. O jantar em questão levanta dúvidas na cabeça do homem,
fazendo-o refletir se iria aguentar todo o jantar na companhia de seu amigo.
O jantar em
questão acontece sem maiores percalços para Shawn. Muito pelo contrário, o
homem destrincha conceitos e, quando não o faz, escuta seu amigo atentamente
revelar seus ideais, além do que este havia feito de sua vida durante todo
aquele tempo sem se encontrarem. Neste jantar veremos surgir os mais variados
tópicos para conversas, sendo em sua maioria questionamentos existenciais e a
crítica a normas morais e éticas inseridas naquela sociedade.

O andamento
do filme não acontece de maneira natural. Os diálogos se desenvolvem de maneira
truncada, com os atores esforçando-se para dar vivacidade às suas falas, porém
sem consegui-lo. Os atores não parecem completamente à vontade, muitas vezes
dando a impressão no espectador de que este está assistindo a uma peça de
teatro. A dinâmica da conversa do jantar muitas vezes acaba sendo unilateral,
com Ande Gregory portando-se como se fosse uma espécie de guru e Shawn seu fiel
discípulo.
A decisão de
Louis Malle de fugir do seu estilo estético e fazer algo parecido com o que
John Cassavetes faz à maestria acaba fracassando. Malle, que já era um nome
gigante do cinema muito antes de Cassavetes se tornar um nome a ser lembrado,
apesar de mais novo, não consegue recriar uma atmosfera factível que o
americano faz em seus filmes. O jantar acaba sendo prejudicado pelos cortes
recorrentes, dando um panorama dos dois homens em questão, quando seria mais
indicado reduzir a edição e deixar seus atores comandarem seu filme.

É importante
colocar roteiro e atuações na mesma diretriz, já que os atores utilizam seus
nomes reais no filme e são responsáveis integralmente pelo roteiro, apesar de
não parecer. Shawn e Gregory falham em dar substância à conversa. Os diálogos,
apesar de aparentarem serem recheados de temas complexos e interessantes, são
extremamente superficiais. Os personagens não aparentam estar em uma conversa,
mas, sim, estarem realizando uma palestra para um terceiro integrante naquele
jantar, no caso, seu espectador. As atuações também passam longe de serem boas,
soando robóticas e sem um pingo de autenticidade. Talvez se encontre neste
ponto o grande fracasso do filme, e o que o diferencia da qualidade das obras
de Cassavetes. Vale salientar também que o americano tinha nomes como Ben
Gazzara e Gena Rowlands
nos seus filmes, algo que já coloca os filmes em outro patamar. Entretanto, a
maior referência é o filme ‘Os Maridos’(1970), sendo muito parecido com a
proposta de Malle aqui. E é olhando para uma clássica conversa de bar no filme
de 1970 que notamos como ‘Meu Jantar com Andre’ poderiam ter alçado voos mais
elevados.
Apesar dos
inúmeros equívocos do filme, conseguimos abstrair do longa uma ideia
interessante. Apesar de superficial, temos uma base mínima dos conflitos que
aqueles personagens vivem em suas vidas. Muitas das histórias e pontos de vista
expostos aqui geram a empatia do público. ‘Meu Jantar Com Andre’ não é um filme
ruim, ele apenas acaba destoando em qualidade na carreira do brilhante diretor
Louis Malle. Seus 110 minutos de duração poderiam facilmente ser condensados em
90 para contar a história do jantar.
Nota CI: 6,3 Nota IMDB: 7,8
Filmografia:
MEU Jantar
Com Andre. Direção: Louis Malle. 1981. 110 min. Título Original: My Dinner with
Andre.
MARIDOS, Os.
Direção: John Cassavetes. 1970. 131 min. Título Original:
Husbands.