Crítica: ‘A Balada de Narayama’(1983), de Shôhei Imamura

Contendo uma história bizarra, ‘A Balada de Narayama’ é um
filme que explora as diferentes trajetórias que uma sociedade pode tomar, e o
quão estranho seus costumes e normas morais podem soar para aqueles que não
estão inseridos ali. Uma viagem pela composição do ser humano e as normas e
implicações que a vida em sociedade nos obriga a seguir.
O filme é baseado no romance de Shichirô
Fukazawa, contando a história da vida em determinado vilarejo
rural do século XIX. Entre os diversos costumes estranhos daquele lugar, um
acaba destacando-se. É implícito no local que, assim que completar 70 anos de
idade, os indivíduos deveriam ser guiados até o topo de uma montanha para serem
atirados. O filme desenvolve sua trama a partir das implicações que isto causa
na vida de uma senhora de 69 anos, prestes a completar 70, e na vida daqueles
que a cercam.
A vida dentro daquela comunidade é um verdadeiro martírio
para todos ali inseridos, sobreviver é uma grande vitória para aquelas pessoas.
Os hábitos nada convencionais vão desde obrigar a esposa a transar com todos os
homens da vila para afastar um fantasma da residência, até, em outro caso,
pedir à esposa que transe com seu irmão, homem aquele que nenhuma mulher nem ao
menos chega perto, para que o mesmo não destrua os negócios da família por
falta de sexo.
A direção de Shôhei
Imamura é um fator preponderante para criar a atmosfera
adequada à história. Aqui o diretor entrega cenas cruas, explorando ao máximo o
desprezo que determinadas situações causam no espectador. Entretanto, a genialidade
do diretor se deve em evidenciar a vida natural acontecendo ao redor do
vilarejo. A natureza reflete de forma idêntica a luta diária que passam os
habitantes do lugar. Imamura preenche o filme com diversas cenas de
acasalamentos e a luta pela sobrevivência de diversos animais. Porém, nem só de
elogios se faz a direção. A decisão de utilizar uma atmosfera crua, utilizando
longas cenas, acaba por tornar o filme um pouco entediante, fazendo pesar os
130 minutos de duração.
A composição do elenco é outro quesito que deixa a desejar
no filme. Seus integrantes acabam tendo atuações muito exageradas, destoando da
atmosfera criada pelo diretor. A exceção ao caso se deve a Ken Ogata,
protagonista do filme. Ogata tem uma atuação suave, acompanhando o clima
proposto pelo ambiente, usando da intensidade nos momentos certos. Sem dúvida a
performance de Ogata não se compara às suas atuações em filmes como ‘Minha
Vingança’(1979) e ‘Mishima – Uma Vida em Quatro Tempos’(1985), mas acaba sendo
o destaque no filme.
Muito maior do que é vendido quando recomendado, ‘A Balada
de Narayma’ transpõe seu tema central, não se resumindo apenas em questionar a
forma como uma sociedade descarta seus idosos, isolando-os como se estes já
estivessem mortos. Não, aqui o filme traz algo muito maior. Ele investiga as
motivações humanas para determinados atos, e, colocando a natureza como sua
testemunha, nos responde de forma brutal como nossas ações são cíclicas,
mudando apenas a sua forma.
Nota CI: 6,3 Nota IMDB: 7,9
Filmografia:
BALADA de Narayama, A. Direção: Shôhei
Imamura. 1983. 130 min. Título Original: Narayama bushikô.
MINHA Vingança. Direção: Shôhei Imamura. 1979. 140 min.
Título Original: Fukushû suru wa ware ni Ari.
MISHIMA – Uma Vida em Quatro Tempos. Direção: Paul Schrader.
1985. 121 min. Título Original: Mishima: A Life in Four Chapters.

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