Crítica: ‘O Sétimo Continente’(1989), de Michael Haneke

 

Em seu
primeiro filme (o diretor já havia feito algumas produções para a televisão),
Michael Haneke não poupa esforços para colocar em tela aquilo que o deixa
intrigado. Haneke já disse em entrevistas que a razão de algumas pessoas agirem
ou fazerem determinadas coisas que parecem incompreensíveis para os outros é o
que lhe move. Em ‘O Sétimo Continente’, o diretor utiliza os 104 minutos de
duração do longa para mostrar exatamente isto. Um filme cru, sem concessões,
que, certamente, não é palatável para todos os públicos.
O filme
introduz o espectador à vida do casal Anna e Georg Schober e sua filha
Evi. A família parece viver uma vida tranquila em sua própria monotonia. Georg
e Anna têm empregos confortáveis, vivem em uma vida estável e com dinheiro
suficiente para propiciar a sua filha a melhor vida possível. Haneke parece nos
colocar na vida de mais uma família comum. Entretanto, nem tudo é o que parece.
A vida da família gradualmente vai se degenerando de forma silenciosa. E o
desejo de alterar a forma como vivem, de realizar uma viagem para longe de tudo
a que estão acostumados, passa a ser uma coisa cada vez mais tangível.
A atmosfera
do filme é densa desde o primeiro minuto de exibição. O ritmo proposto pelo
diretor é constante, mas sem se fazer ágil. Cada fragmento do cotidiano da
família é explorado à exaustão. Uma refeição, uma ida ao lava-rápido, a vida
escolar, no trabalho. Enfim, seja qual for a situação que os integrantes da
família passem, sempre a câmera os acompanha.
A vida
daquele casal parece acontecer sem que eles estejam cientes disto, no qual ambos
consumam-se alheios a tudo que os cercam, inclusive sua filha. Temos na figura de
Evi a verdadeira vítima da situação. A menina é completamente negligenciada psicologicamente pelos pais. Em certo momento, a menina se finge de cega na
escola porque havia visto que os acometidos daquela deficiência ganhavam uma
atenção especial. O grito de socorro da menina obviamente não é escutado pelos
pais, incapazes de escutar seus próprios pensamentos, e o martírio da menina
continua. Talvez a cena mais perturbadora do filme aconteça no lava-rápido. Em
meio à lavagem de seu carro, temos Georg e Anna sentados nos bancos da frente
do carro, enquanto Evi se encontra sozinha na parte traseira. Ali, os olhares
dos pais são tão distantes, seus rostos tão ausentes de expressão, que a
sensação é que Evi está, na verdade, sozinha no carro. É exatamente neste momento
que o espectador se dá conta que há algo muito errado acontecendo naquele
ambiente.
A direção do
filme sempre prioriza mostrar os pequenos detalhes presentes em cada cenário
explorado. Na primeira hora de filme, mal vemos os rostos de nossos
personagens. A câmera faz dos objetos os elementos principais do filme. E isso
não é um mero capricho de Haneke. Veremos nos 20 minutos finais de filme o
porquê da direção focar tanto nos objetos e qual a importância preponderante
destes para o destino daquelas pessoas.
O estilo de
filmagem do diretor austríaco também se faz totalmente visceral. Não teremos
aqui a utilização de uma trilha sonora, os comportamentos dos personagens
jamais vão ser romantizados e, sem dúvidas, o fator mais importante do cinema de
Haneke, não teremos explicações para os atos que se seguem. É importante
capturar esses três pontos centrais do cinema do diretor para poder absorver o
filme como um todo.
É importante
fazer uma menção rápida ao roteiro. Aqui, também como habitual de seu cinema,
Haneke não facilitará para o espectador. É preciso estar completamente inserido
na realidade do filme para não perder os detalhes sutis que a história oferece.
Raramente teremos resoluções comuns para determinados conflitos. Sendo
importante salientar também que nas mãos de outro diretor jamais teríamos
sucesso em colocar isto em tela.

O elenco está
discreto no filme. E isso é importante para a construção do que o diretor tem e
mente. Não há espaço para destaques de atuações inseridas na obra. Os atores, na
maior parte do filme, não têm diálogos complexos e a câmera jamais deixa que
eles demonstrem com suas feições algum outro sentimento do personagem. Quem
mais tem espaço para, no mínimo, destilar suas expressões em tela é a
personagem de Evi (Leni Tanzer). No entanto, para o
que foi proposto, Birgit Doll (Anna) e Dieter Berner (Georg) exerceram com competência seus personagens.

A parte final
do filme jamais deixa claro o que levou a família a cometer um ato tão extremo.
Porém, seus últimos passos nos dão diretrizes sobre as possíveis causas. O ódio
que eles têm dos objetos que os cercam, principalmente Georg, nos remetem ao
esforço que foi necessário para obter todos aqueles bens. O quanto a vida de
aparências no trabalho, com seus amigos e suas famílias destruíram tudo de
bom que existia em suas essências.
Adentrar ao
cotidiano maçante e mortal da família Schober é um caminho sem volta. O filme
não traz em sua cerne o objetivo de revelar as causas da ruína da família. Não,
muito pelo contrário. Aqui, Haneke parece nos fazer uma pergunta desesperada,
levantando no espectador mais dúvidas. No entanto, pelo menos temos a certeza
de que a viagem que Georg e Anna tanto planejaram tomou forma. Os Schober
finalmente se mudaram. Uma viagem sem volta para ‘O Sétimo Continente’.
Nota CI: 7,3 Nota IMDB: 7,8
Filmografia:
SÉTIMO
Continente, O. Direção: Michael Haneke. 1989. 104 min. Título Original: Der
siebente Kontinent.

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