Crítica: ‘As Duas Inglesas e o Amor’(1971), de François Truffaut

Contendo os
elementos que François Truffaut demonstrou ter pleno domínio durante
toda a sua carreira, ‘As Duas Inglesas e o Amor’ é um filme poético sobre um
triângulo amoroso condenado ao fracasso devido ao acaso. Um filme longo, não
por seus 130 minutos de duração, mas pelo conteúdo ali exposto, que segue a
linha de qualidade dos outros trabalhos do diretor.
O filme,
baseado no romance de Henri-Pierre Roché, se propõe a contar a vida de Claude Roc, um francês que acaba por
conhecer a figura de Ann Brown, uma inglesa de passagem por Paris. Claude e Ann
desenvolvem um laço de amizade e ela o convida para passar um tempo em sua
casa. Claude aceita o convite e após algum tempo vai conhecer a casa da moça,
onde conhece sua mãe e sua irmã Muriel, por quem desenvolve uma paixão
instantânea. Ann incentiva e apoia o relacionamento, mesmo se sentindo atraída
por Claude. A história ganha força quando Muriel finalmente se deixa levar por
seu romance e aceita se casar com Claude. 
Porém, as mães dos dois de opõem a ideia, somente aceitando o casamento
se os dois concordassem em passar um ano separados, para poderem assimilar todo
o contexto do relacionamento a qual estão inseridos. Ambos aceitam sem objeção,
sem saber que por este estariam condenando o futuro de ambos. A trama se passa
no início do século XX.
O caminho do
filme segue um infindável emaranhado de determinados fatos que ora afastam o
casal, ora os une. A personagem fundamental do filme se encontra em Ann Brown.
É a partir dela que todas as histórias avançam e se ligam, mesmo ela sendo a
personagem com menos tempo em tela. Ann é a figura com mais conteúdo da
história. É dela que vem as atitudes mais contundentes e assertivas no filme.

O roteiro
adaptado do filme é do próprio Truffaut, em parceria com Jean Gruault.
Truffaut e Gruault conseguem dar substância a história, alocando em 130 minutos
a parte relevante da vida dos personagens, sempre dando espaço para que cada
uma das histórias se desenvolva por si só, nem sempre contando com o
protagonista como elemento principal. A escolha também de colocar uma figura
narrativa independente dos personagens, ajuda a nortear o espectador.
A direção de
Truffaut segue sua linha tradicional de se fazer filmes, lembrando muito o
clima de filmes como ‘Um Só Pecado’(1964) e ‘Beijos Proibidos’(1968),
anteriores a este, e repetindo em ‘A História de Adèle H.(1975). O francês
escolhe por uma direção contemplativa, sempre deixando em evidência os cenários
a volta dos personagens e, assim como Ingmar Bergman imortalizava em seus
filmes, utilizando o ‘close-up’ em seus personagens, onde o ator fala
diretamente com o espectador.

O elenco
conta Kika Markham e Stacey Tendeter nos papeis das irmãs Ann e Muriel Brown, respectivamente. Tendeter tem
uma performance regular, já Markham consegue se destacar mais, tendo uma boa
atuação. No papel de Claude Roc temos o já conhecido ator dos filmes do diretor
francês Jean-Pierre Léaud. Léaud está muito bem, como sempre,
propiciando ao espectador uma atuação calma e concisa, pecando apenas na falta
de intensidade em alguns momentos.
‘As Duas
Inglesas e o Amor’ é um filme que consegue fugir um pouco dos tradicionais
clichês do gênero, não sendo, porém, imune a eles. Um filme com um ritmo bem
limitado, como vários outros filmes baseado em romances do século XX e XIX.
Entretanto, o que atrai o espectador é o modo de se contar a história proposto
por Truffaut. O diretor não ousa aqui, não veremos nenhum elemento que não
esteja presente em seus filmes anteriores, porém é exatamente isto que oferece
o charme do filme.
Nota CI: 6,8 Nota IMDB: 7,5
Filmografia:
DUAS Inglesas
e o Amor, As. Direção: François Truffaut. 1971. 130 min. Título Original: Les deux Anglaises et le continent.
SÓ Pecado,
Um. Direção: François Truffaut. 1964. 113 min. Título Original: La peau douce.
BEIJOS
Proibidos. Direção: François Truffaut. 1968. 90 min. Título Original: Baisers
volés.
HISTÓRIA de
Adèle H. Direção: François Truffaut. 1975. 96 min. Título Original: L’histoire
d’Adèle H.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *