Crítica: ‘Felicidade’(1998), de Todd Solondz

Abordando
pequenos temas complexos para conseguir chegar até o ponto central de sua
trama, ‘Felicidade’ acaba se definindo como uma comédia trágica. São esmiuçados
aqui tudo o que acaba por compreender a vida em sociedade. Um filme polêmico,
que, em virtude da direção suave de Todd Solondz, consegue ser bonito mesmo com seu conteúdo que mostra o que de pior um
ser humano e suas construções sociais podem oferecer.
A história do
filme vai se concentrar em mostrar pequenos fragmentos das vidas de vários
indivíduos envolvidos em um emaranhado de rotinas, conflitos psicológicos e
exclusão social que os ligam. Além do claro desejo de conseguir alcançar a tão
sonhada felicidade. O filme vai nos mostrar como esses conceitos intrínsecos a
sociedade moderna oprimem os que não se encaixam neste modelo social,
destruindo suas vidas sem que estes nem se deem conta.
Nos
personagens contidos no filme teremos inúmeros arquétipos sociais destrinchados
pelo roteiro. A maior ligação que podemos ver em suas personalidades é o fato
de estes serem rotulados como os típicos fracassados da sociedade. Teremos o
indivíduo fora de forma que obtêm prazer fazendo ligações aleatórias para falar
obscenidades para mulheres, um senhor com mais de 60 anos insatisfeito com a
vida com sua esposa, decidindo deixá-la, um psicólogo com uma vida familiar bem
estruturada com tendências a pedofilia, uma mulher com mais de trinta anos,
tomada pelos seus romances fracassados e etc. Esses são apenas alguns dos
personagens que compartilharão suas histórias conosco.

O mérito do
filme se faz por em nenhum momento dar contornos maléficos aos personagens.
Todos os conflitos emanados no filme são explorados em todas as suas
implicações. É mostrada tanto a visão do causador do conflito, quanto dos
indivíduos afligidos pelas consequências. O filme não faz nenhum tipo de
concessão em seu roteiro, sendo bem cru em todos os desmembramentos de diálogos
e traumas. As formas de suavizar o conteúdo passado vêm pela direção.
O roteiro,
também responsabilidade de Todd Solondz, utiliza o máximo do que cada personagem pode oferecer. A forma como os
personagens acabam se ligando uns com os outros também é uma grande sacada para
agilizar o processo de conhecimento dos indivíduos ali inseridos. Todos esses
relacionamentos formam uma grande teia entre os personagens.

Solondz
mantém o bom desempenho em sua direção. Aqui o diretor escolhe por fazer um
trabalho bem solto, não ficando exclusivo, ou dando prioridade, a algum dos
personagens. Todos os nove indivíduos que o filme se propõe a contar suas
histórias acabam tendo uma narrativa praticamente igual a dos outros. Solondz
ainda trabalha com uma abordagem mais lúdica, evidenciada por pela trilha
sonora do filme, realizada por Robbie Kondor,
e a composição de cenários e ambientes. A fotografia com um grande arsenal de
cores, propiciada por Maryse Alberti,
também ajuda muito a criar a atmosfera do filme.
Nos inserindo
no campo das atuações, temos um grande compêndio de grandes atores extremamente
dedicados na realização de seus personagens, sendo localizado neste ponto o que
alavanca o filme. O elenco conta com Philip Seymour Hoffman, Dylan Baker, Ben Gazzara, Jane Adams,
Lara Flynn Boyle e Cynthia Stevenson. Todos muito bem no filme. O destaque acaba sendo pela coragem de Dylan
Baker e Philip Seymour Hoffman de aceitarem interpretar personagens tão
extremos. Ainda temos uma participação incrível de Jon Lovitz
na cena de abertura do filme. Lovitz dá uma pequena amostra em cinco minutos de
tela do que o filme iria oferecer.

O filme ainda
procura durante seus 134 minutos de duração fazer uma espécie de denúncia ao
guia considerado como essencial proposto pela sociedade para uma vida
satisfatória. A liberdade de escolha é usurpada do indivíduo logo em seus
primeiros anos de vida, criando neste uma realidade única e inexorável. Ao se
tornar adulto, o indivíduo que acaba por se fazer minimamente diferente do
padrão comum de seu ambiente, seja por completudes físicas ou até de
relacionamentos, irá internalizar em seu âmago um sentimento de vazio, sem se
dar conta que aquilo que vive também é uma forma de vida. O crime da situação,
como exposto em simplesmente todos os personagens do filme, é o próprio
indivíduo se subjugar perante suas próprias definições, vindo daí nossos
grandes problemas, como assassinatos em massa, suicídio e ódio social.

É preciso
nutrir uma coragem e confiança demasiadas para logo em seu terceiro filme
empreender uma obra tão extrema. Solondz é um diretor ímpar em todo o meio
cinematográfico. Sua obsessão pela figura do fracassado norteia sua filmografia
e, mais do que isso, dá substância a este filme aqui. ‘Felicidade’ é a grande
obra-prima do diretor. Um filme que trabalha por mostrar o quanto o ser humano
é uma raça falida. O conceito niilista de felicidade impregnado na sociedade
acaba sendo apenas uma forma de negar o mundo que se apresenta diante de nós.
Um desserviço a nossa natureza, condenando nossas pulsões instintuais e
agravando problemas inerentes a nossa espécie. O filme termina com uma música
singela que trabalha por colocar em forma de versos toda a ideia central da
obra.
Nota CI: 7,5 Nota IMDB: 7,8
Filmografia:
FELICIDADE.
Direção: Todd Solondz. 1998. 134 min. Título Original: Happiness.

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