Crítica: ‘Noite de Estreia’(1977), de John Cassavetes

Adentrar ao
universo que permeia os filmes de John Cassavetes é um maravilhoso caminho sem
volta. É cinema em sua mais pura essência. É o resgate da aura muito presente
nos anos 1940 em Hollywood, entregando o filme a seus atores, deixando-os guiar
as películas. Entretanto, Cassavetes vai a fundo em seus objetivos. Além de
entregar o comando de seus filmes para seus atores, ele investiga o que há de
mais íntimo nos personagens de seus filmes, destrinchando a psique de cada um
ali presente. Assistir a um filme de John Cassavetes é caminhar pelo que há de
mais bonito a respeito da sétima arte. E em ‘Noite de Estreia’ todos estes
elementos estão presentes.
O filme vai
relatar os dramas vividos pelos integrantes da equipe de uma peça de teatro
após sua atriz principal, e grande estrela da peça, sofrer um colapso emocional
após uma fã morrer na sua frente. Dali em diante, temos um verdadeiro caos
instalado da equipe de produção, toda uma luta para tentar executar os ensaios
até a noite de estreia, enquanto sua protagonista se afunda cada vez mais em
uma rotina de autodestruição inexorável.
A proposta do
filme é focar na personagem da protagonista da peça, Myrtle Gordon,
em primeiro lugar, destrinchando todos os detalhes surgidos após o trágico
incidente. Anterior ao acidente, Myrtle parece alheia a qualquer acontecimento
fora de sua vida profissional. Seu sucesso em sua vida profissional cria uma
persona diferente em Myrtle, subjugando a pessoa ali existente outrora. Em um
célebre diálogo com seu parceiro de cena, Maurice Aarons,
na casa do ator, destaca o quanto aquela personagem era norteada por suas
interpretações. Na cena, Maurice questiona Myrtle de forma acusadora, indagando
se ainda existia alguma emoção presente na atriz, algum resquício de humanidade
nela, nos remetendo diretamente a cena clássica entre Erland Josephson e Liv Ullmann, no arrebatador ‘Gritos e Sussurros’(1972).

A figura do
acidente, da vida desperdiçada, surge como uma espécie de sacrifício. A
mensagem é clara, seria preciso uma vida humana ser perdida para uma outra ser
recuperada. E nada mais simbólico do que o sacrifício de uma fã. Myrtle
finalmente sente algo. Ela sente a significância daquele incidente em sua vida,
o quanto aquilo estava diretamente ligado a ela. O que se segue então é uma
erupção catártica inigualável. Myrtle passa a questionar todo seu ser. Todo o
material recalcado em seu inconsciente de sua vida ressurge de uma maneira
cruel. Uma ebulição de sentimentos mal resolvidos em forma de sintomas. A atriz
agora passa a ser perseguida por um espectro da fã morta, como se essa evidenciasse,
com sua presença, o conteúdo latente da situação, da tragédia em si.
Myrtle agora
já não consegue atuar. Sua vida vai se encaminhando para um buraco de
autoflagelação e abusos na procura por uma cura de seus males. Procurando a
cura para a apatia inserida em sua vida. Procurando por um sentido em sua vida
vazia.

Toda a
instabilidade da atriz é transmitida a equipe de produção. Todos aqui parecem
se mobilizar para tentar colocar a atriz de volta aos eixos para que a peça
aconteça. O maior atingido parece ser o personagem Manny Victor,
que luta com todas as suas energias para que sua peça aconteça. Manny também
não é isento de problemas pessoais. Seu casamento parece estar em ruínas, em
uma inescapável rotina de aparências. Porém, Manny consegue deixar todos seus
problemas isolados de sua vida profissional.
A direção de
John Cassavetes é soberba. Aqui, Cassavetes não altera seu estilo e sua
estética, a única diferença de seus trabalhos característicos é a edição um
pouco mais presente. A câmera é entregue para seus atores fazerem seus
trabalhos. O diretor dedica os 144 minutos de filme para o talento de seus
protagonistas, abusando de ângulos que focam os rostos dos atores. Seu roteiro
também é outro ponto de destaque, examinando todos os nuances da situação em si
e se aprofundando na construção de seus personagens.

O elenco já
conhecido dos filmes do diretor, contém o próprio John Cassavetes(Maurice Aarons), Bem Gazzara(Manny Victor) e Gena Rowlands(Myrtle Gordon). Cassavetes tem aqui um papel mais discreto,
fazendo-se presente somente nas cenas do teatro em si e algumas em sua
residência. Gazzara está como sempre espetacular. A conhecida parceria com
Cassavetes jamais decepciona, sempre trazendo seu melhor para as telas. O
destaque do filme, entretanto, é para Rowlands, é claro. Aqui ela entrega uma
atuação extremamente física, sempre em estado frenético em tela, sendo intensa
até nas cenas mais suaves.
‘Noite de
Estreia’ segue o padrão de qualidade dos demais filmes de Cassavetes. Seria
leviano de minha parte colocar o filme em outra prateleira de qualidade. Um
retrato fiel das eventuais crises que surgem em nossa essência, e o quão
produtivas elas são. A junção de três monstros do cinema é digna de
contemplação. Um filme ímpar. Um filme que merece ser analisado, degustado,
sentido e revisto inúmeras vezes. ‘Noite de Estreia’ é único.
Nota CI: 7,4 Nota IMDB: 8,1
 Filmografia:
NOITE de
Estreia. Direção: John Cassavetes. 1977. 144 min. Título Original: Opening
Night.
GRITOS e
Sussurros. Direção: Ingmar Bergman. 1972. 91 min. Título Original: Viskningar
och Rop.

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