Crítica: ‘A Cor Púrpura’(1985), de Steven Spielberg

Steven Spielberg falha na tentativa de trazer uma história coesa e contundente sobre a vida de uma mulher negra norteada pela violência e submissão. ‘A Cor Púrpura’ trata com superficialidade temas problemáticos que mereciam maior complexidade, como o racismo e machismo. E, apesar de algumas boas atuações, o filme acaba por ser dispensável até para os mais ávidos pelo tema.

Baseado no romance de Alice Walker, o filme vai contar a história de Celie Johnson, uma jovem negra que conhece apenas uma das visões mais pessimistas de mundo, a da intolerância racial e do machismo impregnados naquela sociedade americana do começo do século XX. É difícil ao espectador mergulhar naquela difícil situação a qual Celie está inserida. Vítima de decorrentes espancamentos por parte do marido, a jovem acaba por ficar reclusa da vida que a espera lá fora. Vivendo uma sombra daquilo que poderia ter sido de fato uma vida.

O maior erro do filme é o de ter a prepotência de achar que conseguiria condensar a história inteira de vida daquela personagem em apenas 154 minutos. Os acontecimentos que permeiam a vida da mulher e os que a cercam aqui são passados ao espectador de maneira apressada, como se fosse na verdade algum tipo de resumo mal feito.

A direção de Steven Spielberg é outro ponto que incomoda. A decisão do diretor de atenuar o impacto dos fatos no público é condenável. A violência diária a que é exposta a protagonista acaba perdendo toda sua substância quando colocada em cenas leves. A decisão insistente do roteiro que coloca a exaustão diálogos com um alívio cômico também trabalha contra a arquitetura da personagem.

Já o elenco, encabeçado por Whoopi Goldberg e Danny Glover, faz um trabalho regular em expor a vida daqueles personagens. O destaque, é claro, fica por conta da performance única de Danny Glover, conseguindo trazer ao espectador todos os nuances de seu personagem, jamais recorrendo ao exagero para concretizar suas aparições no filme. Oprah Winfrey também consegue entregar ao público uma atuação intensa e sensível, sobrepujada unicamente pela confusão do roteiro. E, como protagonista, temos Whoopi Goldberg. Goldberg tem uma atuação regular, jamais conseguindo se evidenciar em meio ao elenco.

‘A Cor Púrpura’ é um esboço do que poderia ter sido um belo filme. O roteiro limitado e superficial não dá a cara de drama que o filme deveria ter. As tentativas de amenizar o conteúdo mostrado ao espectador por meio de uma trilha sonora melosa e uma direção contemplativa não consegue alcançar o sucesso que filme como ‘Histórias Cruzadas’(2011) o fizeram. Uma das piores direções feitas por Spielberg.

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